A “História da Sociedade Histórica da Independência de Portugal” que existe data de 1940. É a única disponível. Com letra pequena e cerca de 300 páginas, o livro é uma colectânea de documentos e resumos — actas, cartas, relatórios, programas, discursos, artigos e comunicados. O autor, Coronel Eduardo Avelino Ramos da Costa, Secretário-Geral entre 1922 e 1935 (período em que mudámos de nome de Comissão Central para Sociedade Histórica), foi modesto ao referir o livro como obra “compilada”. Trata-se de um trabalho precioso, sem o qual pouco saberíamos sobre a intensa actividade patriótica desenvolvida pela instituição nos primeiros 80 anos. Graças ao rigor do Cor. Ramos da Costa, é possível conhecer em pormenor factos e decisões que, de outro modo, teriam sido esquecidos.

Em 9 de Março de 1924, em sessão da assembleia geral, o sócio António Bernardo Fonseca Baptista — também vice-secretário da Direcção — apresentou um “Programa de trabalho” para o período de 1924 a 1940. O programa incluía doze pontos. Entre eles, a proposta de organizar em 1940 uma grande celebração nacional e internacional, envolvendo todos os portugueses, para assinalar em simultâneo os oito séculos da fundação de Portugal e o 3.º Centenário da Restauração da Independência. Aqui nasceu o chamado Duplo Centenário.

O livro conta que, em 30 de Dezembro de 1924, a instituição propôs um “Sêlo da Independência de Portugal”, cujo produto se destinaria à compra do Palácio dos Condes de Almada e às comemorações do Duplo Centenário. A insistência na celebração conjunta dos dois acontecimentos históricos lê-se em iniciativas posteriores, como propostas enviadas em 1929 e, novamente, em 1935, incluindo uma carta ao Presidente da República, sugerindo formas de organização e financiamento.

É notável constatar que esta ideia, nascida na Sociedade Histórica, viria a marcar profundamente a vida nacional em 1940. O resultado mais visível foi a Exposição do Mundo Português, que se acompanhou da recuperação de monumentos históricos em risco e da construção de centenas de escolas em todo o país, conhecidas como “escolas dos Centenários”. Tudo começara ainda na 1.ª República, em 1924, sendo depois retomado e concretizado pelo Estado Novo. Embora no ambiente internacional ensombrado pela eclosão, em 1939, da Segunda Guerra Mundial, as comemorações tiveram grande impacto e deixaram memória duradoura. Não há dúvida de que a celebração conjunta do 8.º Centenário de Portugal e do 3.º Centenário da Restauração fortaleceu o sentimento nacional e beneficiou o país e os portugueses.

O século XX ficou para trás. E entrámos num novo século, em que assinalamos os 900 anos de Portugal — um número ainda mais marcante. A nossa proposta é, como se sabe, celebrar estes 900 anos em ciclo largo, abrangendo todo o período da fundação e comemorando, no tempo próprio de cada acontecimento, os grandes marcos do século XII: São Mamede (1128), Ourique (1139), Zamora (1143) e Roma (1179). Estes momentos, não soltos, mas unidos na mesma celebração alargada, recordam-nos como de todos eles nasceu Portugal. A par disto, a ideia inclui a evocação de outras épocas, figuras e feitos decisivos na formação do território, da língua, da cultura, da identidade e da projecção internacional do país.

Domingo de Pentecostes 2025: defronte da Catedral de Zamora, a representação histórica que recriou, 900 anos depois, o jovem infante Afonso Henriques a investir-se como Cavaleiro.

Esta visão afasta-se da tentação de concentrar tudo num único dia ou ano. Procura, antes, respeitar o ritmo da própria história e sublinhar que a fundação de Portugal não foi um acto isolado, mas um processo. O objectivo é reviver esse processo e relembrar outros momentos decisivos que ajudaram a moldar o país ao longo de nove séculos. A proposta foi inicialmente apresentada no artigo que publiquei no Expresso em Novembro de 2020, intitulado “50 anos para celebrar 900”; e foi continuada, em Junho de 2024, na abertura desta série “Portugal 900 anos”, no Observador.

A ideia evoluiu para “60 anos para celebrar 900” e aqui se firmou. O ciclo largo foi aberto em 8 de Junho de 2025, na Catedral de Zamora, lembrando o gesto de Afonso Henriques, que ali se armou cavaleiro em 1125, acto entendido como o primeiro sinal público da sua ambição régia. O fim do ciclo está previsto para 2085, ano em que passam 900 anos da morte de Afonso Henriques, figura central e decisiva na fundação de Portugal.

Os dirigentes da Comissão Central 1.º de Dezembro de 1640, há um século, continuaram o impulso patriótico ascendente associado ao 1.º de Dezembro. Este movimento cívico fundado em 1861 ajudou a gerar e consolidar uma verdadeira “cultura do 1.º de Dezembro”, ao ponto de a República declarar a data feriado nacional logo em 1910. Associar os centenários da Fundação e da Restauração foi dar mais um passo à frente do feriado nacional, evidenciando que ambos se referem ao mesmo valor: a Independência. No 1.º de Dezembro de 1928, o ex-Chefe de Estado António José de Almeida, escreveu um artigo de 1.ª página do Diário de Notícias, citado na História de Ramos da Costa, onde lemos: «É bem certo que, acima da conquista da Independência, há outra coisa que mais alvoroça e se torna grata ao coração do Homem: a reconquista da Independência. (…) É por isso que, para mim, a Data da Restauração é maior e mais bela do que a própria Fundação da Nacionalidade, a despeito dos sacrifícios heroicos que esta custou e do esforço sobre-humano com que foi levada a cabo.»

António José de Almeida, Presidente da República (1919-1923). Pintura na galeria da Presidência da República, Palácio de Belém, Lisboa.

Hoje, as necessidades e o enquadramento histórico são diferentes. Atingir 900 anos de existência é privilégio raríssimo, que cabe viver de forma longa, reflectida e esclarecida. Portugal está às portas do milénio, o que reforça o significado simbólico desta celebração. Não devemos comprimir todos os marcos num 2040 abstracto, transformando a memória histórica em celebração apressada num ano-bissetriz. Pelo contrário, o período entre 2025 e 2085 deve servir para aprofundar o autoconhecimento dos portugueses, valorizar a nossa história e assumir com completude e maturidade o legado de nove séculos.

O encerramento do ciclo ultramarino no final do século XX — com a transição de Macau e a independência de Timor-Leste — também convida a uma reflexão ponderada sobre o papel histórico de Portugal no mundo e os laços criados com outros. A compreensão e capitalização desse património relacional constitui grande tesouro moral e espiritual para o século XXI e depois. Os “60 anos para celebrar 900” são vistos como tempo de reencontro com a memória colectiva e de renovação da consciência histórica nacional.

Nas últimas décadas, ouvimos demasiado a preocupação com o ensino da História nas escolas portuguesas e com alegado baixo nível de conhecimento dos alunos. Circulam críticas quanto ao pouco que crianças e jovens sabem sobre a História de Portugal, mas sem dados objectivos. Alguns professores de História manifestam-nos frustração, mas são muitos os que não se rendem ao conformismo. Sei que anseiam por uma Festa da História e é também muito neles que pensamos.

A avaliação real do ensino da disciplina é difícil, pois apenas existem exames nacionais no final do Secundário. Não há mecanismos sistemáticos para perceber com rigor o que acontece no Ensino Básico. Um estudo sobre a Educação Histórica em Portugal, desenvolvido na Universidade do Porto, mostrou que, entre 2011 e 2019, as médias dos exames de História A oscilaram entre 9 e 11 valores, revelando baixa proficiência.

O programa “60 anos para comemorar 900” surge como oportunidade única para promover o interesse pela História e fortalecer a identidade nacional. Temos o propósito de fazer este período capaz de multiplicar o conhecimento, o debate, a produção cultural e científica, bem como actividades educativas e recreativas ligadas à nossa história. Já temos em curso o programa Forais da Fundação, relativo aos 900 anos dos forais atribuídos nos nossos primeiros anos, descentralizando a mensagem pelo território. Paralelamente, estão a nascer os projectos Escolas 900 Anos e Geração 900 Anos, dirigidos pelos Profs. João Paulo Oliveira e Costa e José Eduardo Franco, destinados respectivamente ao envolvimento directo das escolas e dos jovens que em grande parte assistirão ao final do ciclo comemorativo. Na verdade, os que têm, hoje, 15 a 20 anos são os primeiros que, se Deus quiser, chegarão ao fim desta viagem em 2085. É isso que lhes direi, no próximo sábado, quando dermos a partida.

A ambição global do programa é transformar as próximas décadas numa Festa da História, estimulando orgulho consciente, conhecimento crítico e sentido de continuidade histórica. O objectivo não é apenas recordar factos, mas compreender as ligações culturais e humanas construídas ao longo de nove séculos, reforçando a identidade nacional e o papel de Portugal no mundo.

Os conteúdos históricos serão diversificados e contínuos. Já assinalámos em 2025 o 7.º Centenário da morte de D. Dinis e estão ainda em curso os 500 anos do nascimento de Camões. Em 2034, será o 6.º Centenário da dobragem do Cabo Bojador, momento decisivo nas navegações portuguesas. Os 50 anos da fundação democrática da Democracia, em 1976, serão agora comemorados, também no âmbito dos 900 anos de Portugal. Estamos quase a encerrar o final o 1.º Centenário do Voo Portugal-Guiné, em 1925, que inaugurou o desenvolvimento das rotas aéreas na costa ocidental africana. Nesta semana, passa o 1.º Centenário do nascimento do pintor Júlio Pomar, que assinalaremos na próxima semana. Temos em apreciação, para este ano, o 6.º Centenário do Povoamento da Madeira e já iniciámos diálogo com as autoridades açorianas e a sua Universidade para dar grande relevo nacional ao 6.º Centenário da Descoberta e do Povoamento dos Açores (1427-1452). Não é extraordinário que a nação que empreendeu os Descobrimentos tenha como últimas parcelas do seu território nacional, não uma conquista, mas exactamente descobertas?

Simultaneamente, valorizamos projectos culturais já existentes, como a série documental da RTP “10 mil Km de regresso ao Japão”, um trabalho magnífico de David Lopes e Ana Daniela Soares, que revisita a presença portuguesa no Extremo Oriente e vai já a meio da sua emissão semanal na RTP Notícias. Como foi possível que uma nação, que não tinha mais de 1 milhão de pessoas em 1500, começasse os Descobrimentos na primeira metade do século XV, a partir do extremo ocidental da Eurásia, e um século depois conseguisse chegar por mar ao extremo oriental, desembarcando em Tanegashima? Como foi a relação com uma nação e outra cultura das mais antigas da Humanidade? Como se estabeleceram e desenvolveram laços que duram até hoje? Não é formidável? Claro que é.

Está a começar a Festa da História. Sejam bem-vindos.

Nota editorial: José Ribeiro e Castro é Presidente da Direcção da Sociedade Histórica da Independência de Portugal

[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]