Vivemos numa época em que a incerteza deixou de ser exceção para se tornar norma. Dizem-nos que a única certeza é a mudança, que planos a médio ou longo prazo perderam relevância e que tudo deve ser flexível, ajustável e provisório. A ideia de um plano a cinco anos parece quase ingénua; mesmo o plano anual é frequentemente revisto antes de ganhar forma.

Esta sensação permanente de estarmos sempre atrasados, a tentar acompanhar um ritmo que não abranda, cria um ruído de fundo constante. Um fenómeno particularmente visível em contextos profissionais exigentes e em setores marcados por inovação acelerada, como o da tecnologia. Mas será que este estado permanente de adaptação é sustentável?

Quando somos pequenos, aquilo de que mais necessitamos são rotinas e previsibilidade. A capacidade de antecipar o que vem a seguir dá-nos a segurança emocional necessária para nos concentrarmos em desenvolver diversas competências. Talvez nunca tenhamos deixado verdadeiramente de precisar disso. Apenas aprendemos a ocultar essa necessidade, num mundo que valoriza velocidade, flexibilidade e resiliência quase ilimitada.

No discurso dominante, mudar é sempre positivo. Ajustar é sinal de agilidade. Questionar o ritmo ou o propósito da mudança é, muitas vezes, interpretado como resistência. No entanto, mudanças constantes de direção, prioridades e estratégias, quando não são pensadas nem integradas, tendem a gerar mais ansiedade do que crescimento. Podem afetar a confiança, a clareza e a sensação de segurança, mesmo em profissionais experientes.

Idealmente, todos poderíamos trabalhar em organizações cuja liderança compreendesse este impacto humano e tivesse a capacidade de criar foco no que é verdadeiramente relevante. Mas a realidade é que as próprias empresas estão inseridas num contexto altamente reativo e, pressionadas pela urgência de responder rapidamente, nem sempre conseguem criar espaço para parar, refletir e manter um foco claro no que é verdadeiramente prioritário.

Não se trata de defender o imobilismo. A evolução é essencial, e a aprendizagem contínua é uma das maiores riquezas da área tecnológica. Sou uma enorme defensora do growth mindset. O meu ponto é outro: a mudança, para ser sustentável, precisa de intenção, estrutura e sentido, pois agitação permanente não é sinónimo de crescimento.

Se não podemos esperar que o contexto externo abrande, então talvez a resposta esteja a outro nível. Cada vez mais acredito que cabe a cada profissional, e, em particular, enquanto mulheres em tecnologia, assumir um papel ativo na construção do seu próprio percurso. Ter clareza sobre o que se procura, definir objetivos que vão além do próximo cargo ou da próxima tecnologia, e alinhar decisões diárias com uma visão mais ampla de vida profissional e pessoal.

Esse alinhamento raramente começa com respostas claras. Começa, muitas vezes, com perguntas simples, mas desconfortáveis: o que é que, neste momento, me está a desgastar mais do que a fazer crescer? Que compromissos mantenho por inércia, e não por escolha?

Que tipo de profissional quero ser, para além do cargo que ocupo ou das competências técnicas que acumulo?

Tomar as rédeas do próprio percurso não implica ter um plano fechado ou uma visão perfeitamente definida. Implica criar pequenos momentos de pausa e reflexão num contexto que nos empurra constantemente para a reação. Implica ganhar consciência dos nossos critérios de decisão e perceber aquilo que, mesmo sendo normalizado, já não queremos continuar a aceitar.

Num ambiente acelerado, conseguir manter o nosso alinhamento interior pode ser aquilo que nos mantém ancorados. Ajuda a filtrar o ruído, a relativizar urgências e a tomar decisões mais conscientes. Num setor que valoriza velocidade acima de quase tudo, talvez o verdadeiro sinal de maturidade seja este: saber parar, refletir e escolher, com intenção, o rumo que queremos seguir.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.