Com o início de mais um ano letivo, regressamos ao ponto onde tudo começa: a infância, o primeiro território onde se aprende a viver em comunidade.

A discussão sobre cidadania costuma começar demasiado tarde. Falamos dela no ensino básico, nos currículos, nos projetos de escola ou nos debates sobre participação juvenil. Mas esquecemo-nos de que a cidadania não nasce na adolescência nem na idade adulta. Nasce na infância, no primeiro território que cada criança habita antes de ler o mundo: o quotidiano do jardim de infância.

Esta ideia foi também transformando a minha prática pedagógica. Se, inicialmente, muitas propostas partiam do adulto e daquilo que estava previsto trabalhar, fui percebendo que as aprendizagens ganhavam outra força quando começavam nas perguntas das crianças e se ligavam ao mundo real. Passei a olhar para a curiosidade infantil não apenas como ponto de partida para uma atividade, mas como uma oportunidade para investigar, decidir, participar e agir.

A infância é o espaço onde se aprende aquilo que nenhum manual ensina: cuidar de si, cuidar dos outros, esperar a vez, resolver conflitos com palavras, reconhecer que as ações individuais têm impacto coletivo. Estes gestos simples são, na verdade, os alicerces da cidadania democrática. E são aprendidos muito antes de qualquer disciplina formal.

Por isso, defender a educação de infância é defender a primeira escola de cidadania. Não porque as crianças precisem de conceitos abstratos, mas porque precisam de experiências reais que lhes permitam compreender o mundo e nele intervir. Quando uma criança ajuda um colega a atar o sapato, organiza materiais, participa numa decisão do grupo ou pergunta “posso ajudar?”, está a praticar cidadania em estado puro. Não é uma metáfora: é uma competência social e ética em construção.

A cidadania também se aprende através da curiosidade científica. Foi isso que experimentei quando as perguntas das crianças sobre os dinossauros nos levaram aos vulcões, aos sismos, à tectónica e, depois, à prevenção e à proteção civil. O que começou com o fascínio por um passado longínquo transformou-se numa oportunidade para compreender riscos muito presentes e perceber que conhecer é também uma forma de nos protegermos e protegermos os outros.

Mas foi quando esse projeto saiu da sala que percebi verdadeiramente o seu potencial. As crianças levaram para casa o desafio de preparar uma mochila de emergência e as famílias sentiram-se chamadas a participar. Os pais não ficaram apenas a saber o que os filhos estavam a aprender: envolveram-se, prepararam as suas mochilas e vieram à escola mostrá-las às crianças. A aprendizagem tinha deixado de pertencer apenas à escola. Passara a circular entre crianças, famílias e comunidade.

O projeto cresceu ainda mais quando a Proteção Civil Municipal se envolveu e lançou o nosso livro como cartaz municipal da Semana da Proteção Civil. Para mim, este foi um dos resultados mais significativos: perceber que uma pergunta de crianças de jardim de infância podia sair da sala, chegar às famílias e ser reconhecida pelo próprio município. O projeto mostrou-me que, quando damos às crianças oportunidades reais de participação, elas podem mobilizar os adultos à sua volta.

Estas experiências fizeram-me mudar também a forma como vejo a relação com as famílias. Em vez de as convocar apenas para receber informação sobre o que acontece na escola, procuro criar oportunidades para que tenham um papel real. E os efeitos são visíveis: as crianças levam perguntas para casa, as famílias trazem conhecimento e experiências para a escola e os parceiros locais passam de visitantes ocasionais a participantes no processo educativo.

Há ainda um resultado que me é particularmente importante: aquilo que acontece depois, quando estas crianças chegam ao 1.º ciclo. Ao conversar com professoras que recebem crianças que passaram pela minha sala, encontro frequentemente a valorização de competências que não cabem numa ficha nem se medem apenas pelo que a criança já sabe fazer academicamente. Chegam crianças capazes de ouvir, comunicar o que pensam, colocar perguntas, trabalhar com os outros, procurar estratégias quando não sabem, resolver problemas e assumir responsabilidades.

É essa a preparação para o 1.º ciclo em que acredito. Não uma antecipação dos conteúdos do primeiro ano, mas a construção das ferramentas que permitem aprender esses conteúdos. Uma criança curiosa, autónoma, confiante para perguntar, disponível para cooperar e com vontade de descobrir chega à escola com algo fundamental: a confiança de que pode aprender. Uma criança que sabe que pode não saber e que, mesmo assim, pode tentar. Se conseguimos entregar-lhes isso, entregamos-lhes muito mais do que conteúdos: entregamos-lhes ferramentas para continuar a aprender.

É por isso que hoje vejo a educação de infância como um verdadeiro laboratório de cidadania ativa. Um espaço onde se experimenta, se pergunta, se decide, se erra e se recomeça. Onde o brincar é uma forma de pensar e onde cada gesto pedagógico é uma escolha ética. As crianças crescem nas relações, no espaço, no território e na forma como organizamos o quotidiano.

Mas este laboratório só funciona plenamente quando se abre à comunidade educativa. As crianças aprendem na rua, na biblioteca, na junta de freguesia, no quartel dos bombeiros, na Proteção Civil, com os parceiros locais e na relação com outras escolas e outros níveis de ensino. Quando a escola se articula com o território, as crianças percebem que fazem parte de algo maior do que elas. E percebem que esse “maior” também depende delas.

Talvez seja esse um dos maiores desafios que temos pela frente: deixar de olhar para as crianças apenas como cidadãos do futuro e reconhecê-las como cidadãos do presente. Não lhes podemos pedir participação amanhã se hoje não lhes damos oportunidades para participar. Não podemos falar de responsabilidade se não lhes confiamos responsabilidades. Não podemos esperar pensamento crítico se não valorizamos as suas perguntas.

Num tempo em que tanto se discute o futuro da educação, talvez devêssemos começar pelo princípio: um cidadão não nasce adulto. Nasce criança.

Se a infância é o primeiro território de cidadania, então é nela que decidimos, todos os dias, que tipo de sociedade queremos construir. E não há decisão mais urgente do que esta.