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Um tsunami azul varreu o mapa eleitoral nos Estados Unidos da América e os republicanos ficaram encharcados para o que falta do mandato presidencial de Donald Trump. Em Israel, Netanyahu está com vida difícil. Na Europa, Zelensky continua a procurar apoio e soluções para o fim do conflito na Ucrânia. Acontece numa altura de turbulência nas ruas de várias cidades do velho continente. Estas são as cartas em cima da mesa para o jogo da atualidade internacional, que vamos analisar agora no Cinco Continentes, é o programa de comentário do historiador Bruno Cardoso Reis. Eu sou o Miguel Cordeiro. Bruno, bem-vindo.
Obrigado. Olá a todos.
Vamos começar por essas midterms que tiveram este tsunami democrata, ditam talvez um início do fim do trumpismo. Vamos falar disso. Que impacto é que têm estas midterms já a apontar para a corrida presidencial de 2028, Bruno?
Acho que realmente é inegável que é uma grande derrota de Trump, do trumpismo. Geralmente as midterms são um referendo, no fundo, uma sondagem, neste caso, não uma sondagem daquelas que se publicam, mas daquelas que têm impacto político. Portanto, há realmente uma avaliação da presidência e tendem a ser eleições difíceis. Os norte-americanos, se calhar, em geral, os eleitores hoje em dia são difíceis de agradar e portanto, nos últimos 100 anos, houve talvez três em que o presidente conseguiu ter resultados razoáveis, não teve uma derrota importante. Mas realmente aqui a grande questão era a escala dessa derrota e os indicadores eram realmente muito negativos para Donald Trump. Falamos aqui disso na semana passada, eu próprio também escrevi na minha coluna no Observador, que parecia evidente que os democratas iam conquistar a Câmara Baixa, a Câmara dos Representantes, que é integralmente eleita a cada dois anos.
Ou seja, todos os lugares iam a votos.
Todos os lugares vão a votos. Mas realmente o que aconteceu foi ainda além das piores expectativas. Eu próprio também, no comentário aqui no próprio dia, fui chamando a atenção que também havia sondagens que às vezes subestimavam os democratas. Foi o que aconteceu, por exemplo, em 2022. Em alturas de transição política, é mais complicado fazer sondagens. As sondagens, obviamente, partem de uma amostra que procura identificar os grupos com impacto significativo, mas se esses grupos mudam, por exemplo, se a questão da educação passa a ter um peso muito grande que antes não tinha, se os comportamentos realmente se alteram, é muito mais difícil fazer realmente uma boa amostra e depois também conseguir bons resultados. Há também esta questão de que há eleitores que cada vez mais se recusam a responder às sondagens.
Pois.
Porque também são céticos em relação às sondagens. Portanto, é mais difícil realmente ter essas sondagens com resultados que se podem confiar em momentos de turbulência política. Eu diria que felizmente que é assim. Um aspecto interessante é esta questão que eu não ouvi tanto: quando o Donald Trump ganhou há dois anos, por que os analistas não adivinharam todos que o Donald Trump ia ganhar? Eu próprio estou à vontade, porque escrevi uns seis meses antes que achava provável que fosse o Donald Trump que acabasse por vencer, ainda por margem curta. Mas é evidente que em eleições reais, em reais democracias, ou seja, sítios onde as eleições são realmente livres e justas, apesar do que dizem às vezes um ou o outro lado, ou os dois lados, é impossível prever com absoluta certeza as eleições. Mas neste caso, o que temos objetivamente é, neste momento, os democratas têm uma supermaioria na Câmara Baixa, a maioria é 218, eles já têm 254 eleitos, podem chegar aos 260. Isso é extraordinário. Eu próprio escrevi isso na semana passada. Se chegassem aos 230 no contexto atual, tão polarizado, em que houve também o redesenhar dos mapas eleitorais para os republicanos em vários estados conseguirem buscar mais lugares. Ora, realmente tudo isso falhou e em termos também do voto nacional, os democratas têm uma vantagem de mais de 10 pontos percentuais em relação aos republicanos. A contagem ainda não está completamente fechada, mas andará provavelmente entre os 14 e os 16 pontos de vantagem em relação aos republicanos. E realmente o que também é impressionante e simbólico desta enorme derrota é que, como dizia o governador que está a sair agora da Flórida, o Ron DeSantis, acho que é revelador, um dos republicanos mais destacados, não falou de um tsunami, falou de um meteoro que extinguiu os dinossauros. Portanto, diz basicamente que este é um evento que arrisca-se a extinguir o Partido Republicano se nós não arrepiarmos caminho, se não mudarmos trajetória. Obviamente, isso significa que ele também está a posicionar já como potencial candidato a presidente e a líder do partido. Mas o que é facto é que nós, como Ron DeSantis sublinhou, nos 10 maiores estados dos Estados Unidos, aqueles que têm mais população, concentram grande parte da população e grande parte da economia, desses 10 maiores estados, o único que continua a ter uma maioria republicana, e por pouco, é a própria Flórida. E obviamente, a perda do Texas, por exemplo, é muito simbólica nesta eleição. Não só o senador Talarico, mas a governadora da Flórida. Nós tivemos casos tipo no Iowa, estava a ouvir agora um candidato a uma assembleia estadual, um candidato democrata que tinha desistido há mais de um ano atrás porque estava doente, não fez nenhuma campanha, mesmo assim ganhou o adversário republicano porque era democrata e estava na lista. E claramente as pessoas, e nisso Ron DeSantis também tem alguma razão, é sobretudo um voto contra o atual Partido Republicano.
Mas vamos a este jogo Perante estes resultados, perante esta eleição, o que é que podemos já apontar para 2028? Porque o Partido Democrata não tem uma liderança e o Partido Republicano tem a liderança de Donald Trump, que parece tornar-se um ativo tóxico e, portanto, muitos dos que estão à volta dele podem estar contaminados por estarem ao lado de Donald Trump.
Acho que um problema clássico na política americana é um ou outro partido, no fundo, deixar-se embalar pela vitória e tirar daí as conclusões erradas. Por exemplo, das eleições presidenciais, que não foram ganhas por uma margem assim tão grande, no fundo, os republicanos concluíram que isto é um apoio, um mandato para fazer basicamente o que Trump entender. Claramente não era o caso. Os americanos tinham sinalizado que a grande prioridade devia ser a questão da inflação, do custo de vida, e não a questão, por exemplo, das tarifas, que sim, controlar a fronteira, mas não andar a prender pessoas a torto e a direito pelas ruas e até a disparar contra cidadãos americanos, etc. E, portanto, há este problema. Eventualmente, os democratas poderiam tirar daqui também conclusões erradas ou até também os republicanos. Mas em todo o caso, temos este dado que é importante e que é o ponto de partida crucial, que é: apesar de tudo, Donald Trump continua a ser presidente. Ele não é um ator político normal. Em circunstâncias normais, um presidente que tem apenas dois anos de mandato e que sofreu esta derrota, provavelmente procuraria, ele próprio daria espaço para que aparecessem alternativas em nome dos interesses do partido. Mas realmente com Donald Trump, não creio que seja de crer que isso venha a acontecer. Ele pode vir a ser forçado a isso, mas à partida, todo o perfil dele é para se manter bastante ativo, tentar continuar a condicionar o partido. Agora, dos dois nomes que mais se fala, eu diria, isto complica mais a vida a J.D. Vance, provavelmente, do que a Marco Rubio ou mesmo a Ron DeSantis. De um modo geral, complica mais a vida aqueles que estão mais próximos de Donald Trump. Acho que J.D. Vance é significativo que se tenha vindo distanciar, no fundo, daquilo que ele considera que é a principal causa desta rejeição, que é a guerra no Irão e as suas consequências económicas. No fundo, toda a gente sabe que ele não foi um partidário dessa intervenção militar, desse tipo de intervenção. Portanto, é uma forma de se tentar distanciar um pouco de Trump e ganhar margem de manobra, eventualmente para 2028, mas o histórico não é muito favorável a vice-presidentes que concorrem a presidentes. Em mais de 100 anos, o único caso de sucesso foi o George Herbert Bush, o George Bush pai, que era vice-presidente de um Ronald Reagan extremamente popular em 1988. Depois há o Marco Rubio, mas o Marco Rubio é visto como alguém que não está tão alinhado com o trumpismo, é o que resta do velho Partido Republicano, mas apesar de tudo, está em funções, é o secretário de Estado, portanto, tem alguma corresponsabilidade na política externa. Especula-se, por exemplo, que ele poderia tomar a iniciativa de se demitir para precisamente ganhar distância e ganhar também capacidade de ação política autónoma. Para já, ele veio também desmentir isso. E depois há, claramente, a questão do Ron DeSantis. Em termos dos democratas, a questão é que, ao contrário da Europa, os partidos nos Estados Unidos não têm um líder. Portanto, são partidos muito mais descentralizados, são coligações amplas. Quando tem um presidente, obviamente, o presidente torna-se o líder, mas quando estão fora da presidência, isso fica mais complicado. Enfim, em todo o caso, teremos aqui os líderes no Congresso.
Mas não há nomes óbvios neste momento.
Quer dizer, teremos os líderes no Congresso, o Chuck Schumer, mas que claramente está bastante mais velho, portanto, não é viável como candidato a presidente. Há o Hakeem Jeffries na Câmara dos Representantes, que será o líder da Câmara dos Representantes, mas realmente, à partida, fala-se de muitos nomes no Partido Democrático. Isto, do meu ponto de vista, também reflete este dado, que é os democratas, também para conseguirem estes resultados, alargaram muito a tenda. Ou seja, nós temos desde o Adam Hamilton, por exemplo, que é um pastor metodista extremamente prestigiado, um daqueles televangelistas no Kansas, por exemplo. Depois temos o Abdul El-Sayed e temos figuras muito mais da esquerda. Mas depois temos o John Ossoff, por exemplo, que apesar de tudo mais centrista, mas muito assertivo na retórica. O próprio Gavin Newsom, governador da Califórnia, que agora será também substituído, também se está a posicionar há muito tempo.
E ainda a Kamala Harris.
A Kamala Harris continua a ser muito reconhecida. Não sei se isso é necessariamente positivo, porque a verdade é que não conseguiu vencer Donald Trump. Mas, portanto, há realmente muitos nomes e agora os próximos dois anos vão ser completamente dominados nos dois partidos, cada vez mais por esta disputa da liderança, com algumas discussões também já a acontecer nas elites da política externa. Por exemplo, vamos falar disso nas recomendações, artigos recentes na Foreign Affairs já a tentar um pouquinho posicionar e apontar pra onde é que, por exemplo, o Partido Democrata poderia ou deveria ir em termos da sua política externa numa futura presidência.
O certo é que Donald Trump ainda vai ter dois anos de presidência e ficam aqui algumas dúvidas sobre como é que vai ser esse resto de mandato na política interna, naturalmente, mas acima de tudo, na política externa, porque Donald Trump tem dedo em pontos muito importantes a nível global, conflito no Irão, apoio à Ucrânia, situação em Gaza. Como é que fica tudo isto depois deste resultado?
Realmente é importante sublinhar este aspecto, que o presidente tem muita margem de manobra, sobretudo na política externa. Na política interna, basicamente, o que temos será uma espécie de bloqueio, embora os democratas já deixaram isso muito claro, até na sequência da campanha, vão se focar no que eles chamam affordability, accountability e no Irão, na guerra. Portanto, a affordability, a questão dos custos. Aí podem tomar iniciativas que têm impacto externo, por exemplo, baixar as tarifas, acabar com esta guerra comercial, desde logo com o Canadá. Com a Europa vai ser mais complicado, porque a Europa fez um mau acordo com Donald Trump e, portanto, há menos margem para os democratas virem a alterar isso. Mas no caso do Canadá, continuamos com uma guerra comercial que é muito impopular entre os norte-americanos Obviamente, qual é a questão? É que Donald Trump tem o veto, e é preciso uma supermaioria no Senado para ultrapassar esse veto. Os democratas podem simplesmente apostar em forçar o veto e forçar também os republicanos a oporem-se a medidas que eventualmente seriam populares.
A supermaioria é acima de 60 senadores, certo?
Penso que acima de 64.
Pois, os democratas não vão chegar a esse valor.
Não, é impossível. No máximo, conseguirão talvez 57. Aí realmente temos essa limitação. Depois temos a questão da accountability, ou seja, no fundo, comissões de inquérito, tudo que são negócios, negociatas, abuso de poder econômico, todos estes acordos com os emires do Golfo, com Putin também. Aí, apesar de tudo, mais uma vez, pode haver implicações externas. Por exemplo, eu tenho a esperança que isto limite a possibilidade de fazer acordos a todo o preço com a Rússia na expectativa de conseguir negociatas, vantagens econômicas em troca disso para figuras próximas do presidente norte-americano, porque mesmo em termos econômicos, nada disso faz sentido. O gás russo concorre com o gás americano. Atualmente, o grande fornecedor de gás natural da Europa deixou de ser a Rússia e passou a ser a América. Isso não faria sentido do ponto de vista dos interesses americanos, mas pode fazer dos interesses de certas pessoas próximas de Donald Trump. E no caso do Irão, há sempre a questão também do financiamento da guerra. A guerra está a custar quase mil milhões por dia. Aí eu acho que os democratas também se irão autocontoler, provavelmente até certo ponto, porque embora esta guerra tenha sido historicamente impopular, é a única guerra que nunca foi popular entre a opinião pública norte-americana desde o início. Tem oscilado alguma coisa, mas sempre com números negativos. Mas o problema também é não haver aqui o argumento que de alguma forma se está a privar as tropas de coisas que possam ser necessárias. Apesar de tudo, como não temos tropas no terreno, como tínhamos no Iraque ou no Afeganistão, pode ser um pouco mais fácil, no fundo, forçar uma retirada por via financeira. Em vários destes aspectos, os democratas podem tentar jogar realmente com o chamado power of the purse, no fundo, o poder orçamental do Congresso, e também a possibilidade de fazer comissões de inquérito, que as pessoas são realmente forçadas a responder às perguntas, a jurar que estão a dizer a verdade. Acho que esses aspectos serão talvez os mais impactantes. Mas em termos da ação da política externa norte-americana, eu acho que aí temos que ser muito mais cuidadosos, porque realmente isso continua no essencial, em termos proativos ou ativos, está muito mais nas mãos do presidente. Aqui podemos eventualmente ter uma ação mais negativa ou de contenção, de impor limites por parte do Congresso.
É para acompanhar ao longo dos próximos dois anos. As eleições presidenciais são em novembro de 2028. Vamos fazer uma curta pausa neste "Cinco Continentes". Na segunda parte, vamos falar de Zelensky, vamos falar também de Netanyahu. É para ouvir já a seguir uma curta pausa. Estamos de regresso ao "Cinco Continentes", o programa de análise do historiador Bruno Cardoso Reis. E vamos começar esta segunda parte pela situação na Ucrânia. Zelensky, em Madri, a participar de uma conferência ibero-americana e a encontrar-se até com António José Seguro. Bruno, como é que se explica esta ida de Zelensky a Madri e que balanço faz dessa presença do líder ucraniano nesta cimeira, nesta conferência?
Eu acho que isto faz parte deste esforço que a Ucrânia tem feito, diga-se com resultados limitados, mas não desiste o fazer, de procurar mais apoios, procurar explicar melhor a sua posição no chamado Sul global. Que realmente estas regiões da América Latina, da África e da Ásia, em muitos casos, até condenam formalmente a invasão russa. À partida, percebem que há aqui um perigo, se de repente as grandes potências podem começar a invadir à vontade e sem consequências países vizinhos mais fracos, mas realmente, ao mesmo tempo, não estão dispostos a sacrificar os negócios, o comércio com a Rússia. E se há uma região que, apesar de tudo, eu diria que neste último ano ou nos últimos anos tem mudado um pouco, ou seja, esta viragem à direita na América Latina, o fato de muitos destes líderes se declararem novamente parte do Ocidente, até muito mais do que do Sul global, no fundo, poderia abrir aqui alguma margem de reforçar o apoio à Ucrânia, de se afastarem mais da Rússia. Acho que o problema, o que complica isto é que muitos destes líderes estão também muito alinhados com Donald Trump, que não tem grande interesse nisso. Os sinais dos Estados Unidos deixaram de ser nesse sentido, que é muito visto como líder deste bloco ocidental, sobretudo no caso dos países da América Latina. Mas em todo caso, acho que haverá aqui eventualmente alguma oportunidade que Zelensky quer tentar testar, perceber se realmente existe ou não. E nesse sentido, realmente, a melhor forma de falar com muitos líderes latino-americanos sem fazer uma série de viagens transcontinentais, num contexto de guerra, para ir visitar países, eles próprios enormes e a enorme distância uns dos outros, realmente, é procurar uma cimeira como estas, que até tem lugar na Europa, e onde vamos ter Onde tivemos 10 líderes, portanto, 10 chefes de Estado e de governo do conjunto de 22, do conjunto de 19, se quisermos, da América Latina, porque os outros três são da Península Ibérica. Portanto, desse ponto de vista, acho que realmente faz sentido. Obviamente, Zelensky também aproveitou para falar com os líderes espanhóis, com o representante português, neste caso, o presidente Seguro. No caso de Espanha, conseguiu também um novo anúncio de um programa de apoio militar importante, mais de 400 milhões de euros. No caso de Portugal, as coisas são sempre um pouco mais limitadas, mas apesar de tudo, eu acho que aqui se trata sobretudo de anunciar publicamente algo que já se sabia, mas que se tinha mantido mais discreto, que é alguma colaboração com a Ucrânia nesta área da fabricação de algum tipo de armamento, inclusive drones. Portanto, eu acho que isso realmente, objetivamente, Portugal tem recursos mais limitados, mas eu acho que é uma forma ótima de ajudar a Ucrânia, porque consegue-se fazer isso, obviamente, com uma segurança que as fábricas de armamento da Ucrânia não conseguem ter, embora a Ucrânia já fabrique 40% do seu próprio armamento neste conflito. Mas está a apostar muito neste esforço para criar parcerias com os países europeus, com os aliados europeus. Isso tem grandes vantagens, porque permite a um país como Portugal acompanhar a evolução tecnológica, beneficiar das lições aprendidas no próprio conflito e consolidar um papel neste setor dos drones, onde Portugal, apesar de tudo, se conseguiu posicionar, nomeadamente graças a empresas como a Tekever, e portanto, acho que são boas notícias para os dois lados.
Certo. E esta Cimeira Ibero-Americana a decorrer em Madrid é ainda importante? Uma cimeira destas ainda faz sentido nesta fase em que estamos perante todos estes conflitos, perante uma situação que já falámos até nos Estados Unidos, as tarifas, dívidas comerciais, estas cimeiras continuam a ser importantes?
Esta é a 30ª Cimeira Ibero-Americana, a primeira foi em 1991. Foi muito uma iniciativa espanhola no contexto da reafirmação da Espanha no mundo, da Expo de Sevilha, que era para comemorar, obviamente, a chegada às Américas, 1492, 1992, a primeira é em Guadalajara, no México, depois a segunda é em Espanha, em 92. Começaram por ser anuais, entretanto passaram a bi, ano sim, ano não. Acho que isto mostra que houve um calibrar do nível de empenhamento. Acho que são claramente muito importantes para a Espanha. No fundo, esta é a grande organização que a Espanha tem pós-colonial, vamos dizer assim. Portugal, apesar de tudo, tem a CPLP, a Espanha o que tem é esta comunidade ibero-americana. E a verdade é que a Espanha continua a ter um papel importante na América Latina, mesmo no Brasil, é o quarto, por exemplo, parceiro comercial do Brasil, é o segundo ou terceiro a nível europeu, e é um grande investidor, em muitos países é o primeiro, segundo, terceiro investidor na América Latina. Portanto, para a Espanha é uma grande aposta. Para Portugal, foi uma forma também de diversificar um pouco relações e intensificar relações, inclusive econômicas, com muitos destes países. Por exemplo, países como a Colômbia, que antes não apareciam no mapa da diplomacia econômica portuguesa. E, portanto, há esta dimensão de diálogo político, um pouco diminuído. Há que sublinhar este aspecto, que é os dois maiores países latino-americanos não enviaram os chefes de Estado e governo, ou seja, Lula está ainda a recuperar da campanha. Claudia Sheinbaum viaja pouco e portanto também não veio. Penso que para Sanchez isso foi um pouco uma derrota, mas o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol veio dar um pouco nota desta questão, dizendo: "Bem, apesar de tudo, temos 10 chefes de Estado e de governo e todos os outros países estão representados, pelo menos ao nível de ministro dos Negócios Estrangeiros". Portanto, não é um embaixador, é uma figura com algum peso na diplomacia dos respectivos países. Isto faz parte de uma tendência mais geral, diria eu, para um certo cansaço com as cimeiras. Fala-se muito de summit fatigue, ou seja, começaram por ser poucas e muito importantes na altura da Segunda Guerra Mundial, antes disso ainda eram muito mais raras, Masch e Alta, Potsdam, depois as grandes cimeiras da Guerra Fria, inclusive no final da Guerra Fria.
Parece que há cimeiras todas as semanas.
Exatamente. Agora, durante o ano há múltiplas cimeiras, portanto, às vezes os presidentes ou chefes de governo não querem ir. Outras vezes é realmente difícil, porque não podem estar constantemente a viajar, têm que estar algum tempo no seu próprio país a governar o país.
Mais assembleias gerais a ONU.
Exatamente. Portanto, há, de facto, aí alguma dificuldade de gestão de agenda. Apesar de tudo, eu acho que tem alguma importância, até pelos encontros paralelos que permitem, estes encontros bilaterais que fomos falando. E vão dando alguns resultados. Neste caso, por exemplo, criou-se uma rede de apoio mútuo, vamos dizer assim, de coordenação de esforços em termos de proteção civil para lidar com desastres naturais, que são infelizmente cada vez mais frequentes. Portanto, eu acho que não são completamente irrelevantes, mas realmente há aqui esta dificuldade de gestão de agendas, dá alguma fadiga e realmente não tem os resultados históricos que tinham quando realmente era uma coisa muito rara para grandes decisões. Se agora se multiplicam, se todo ano temos cimeiras para isto, aquilo e aqueloutro, realmente, inevitavelmente, não vão ter o mesmo impacto, a mesma importância.
Estão em risco de se tornar como os festivais de verão em Portugal.
Exatamente.
Ainda em Espanha, Sanchez reclamou uma vitória nos Estados Unidos da América e no Brasil. Escreveu isto no X. Diz que vai acontecer o mesmo em Espanha, sendo que não têm sido propriamente dias fáceis para Pedro Pereira Sanchez, depois do acidente de comboio, demitiu-se o ministro com essa pasta, o ministro dos Transportes. Há também agora, já nos próximos dias, a greve geral em Espanha. É a primeira depois de 14 anos. Em território europeu, França também teve uma greve geral nos últimos dias. Mas o que podemos concluir de tudo isto? É que Espanha vai ter eleições no dia 29 de novembro. Está a ver bem o quadro, Sanchez?
Eu acho que, por um lado, é este fato curioso que é o primeiro-ministro espanhol confirma-se como sendo um opositor público de Donald Trump. É dos poucos casos na Europa que se atreve a fazer isso de forma aberta e frequente. E ele acha claramente que isso tem retorno eleitoral em termos internos. Ou seja, realmente Trump é muito impopular por toda a Europa, é especialmente impopular em Espanha e, portanto, sempre que Sánchez recorda que está em choque em oposição, que é diferente e que não tem receio de publicamente manifestar essa diferença em relação a Donald Trump, de alguma forma, penso que a expectativa é que isso lhe renda alguns votos. Agora, o problema é, no caso da vitória dos democratas nos Estados Unidos, o que temos é a vitória da oposição contra um incumbente, contra alguém que está no governo e que é visto como corrupto, como incompetente. Ora, esse é exatamente o tipo de discurso que nós ouvimos em relação a Sánchez. Que está há demasiado tempo no poder, que está demasiado rodeado de pessoas acusadas de corrupção e algumas até já condenadas, que revela incompetência, inclusive na questão da gestão das ferrovias, com consequências mortais, com dois acidentes muito graves num ano. Como referias, ele acaba por ser forçado a demitir o ministro dos Transportes, que realmente se devia ter demitido logo em janeiro, no caso do primeiro acidente, mas que porque é uma figura importante no partido, foi mantido. E, portanto, acho que isto mostra bem que realmente as coisas não estão bem, que o próprio Sánchez reconhece isso. Em relação ao Lula, aí é claramente uma vitória de um incumbente que aposta na ideia, que é o que Sánchez está a tentar fazer, de podem não estar muito satisfeitos comigo, mas em termos de políticas sociais, em termos de viragem à direita, os perigos são muito maiores com a oposição. Portanto, pensem bem se me querem punir a mim, se não vão punir a vós próprios. Se não vão pôr em causa direitos sociais, apoios do Estado, ou se não há aqui o risco de uma direita muito dura e, de alguma forma alinhada com o trumpismo, no caso da Espanha, seria o Vox. Portanto, vamos ver. Todos os sinais que nós temos, para já nas sondagens, é que realmente a vantagem continua a estar do lado da direita, deste bloco da direita. A grande dúvida é perceber qual será que o equilíbrio de poder entre o PP, entre a direita mais moderada e o próprio Vox, que é uma direita mais dura.
Vamos agora falar de Israel, porque há negociações para formar governo. Netanyahu pode estar de saída da liderança de Israel, porque Eisenkot está a trabalhar para formar um governo que descreve como governo de emergência nacional. Será que consegue ter sucesso, Eisenkot? E que impacto é que isto poderia ter para a região e também a nível global?
Realmente, os sinais para Netanyahu são muito negativos. Desde logo, sofre esta derrota também com Donald Trump e também com sinais de que vai haver uma viragem na política dos Estados Unidos em relação a Israel. Donald Trump anunciar que vai acabar com os apoios financeiros já este ano, no final do ano. J.D. Vance, um possível líder republicano também a distanciar-se, por exemplo, da guerra do Irão novamente, e a pôr em questão também o próprio apoio a Israel. Na frente externa, as coisas não estão a correr bem e na frente interna também não. Havia esta questão, as duas coligações, será que vai haver aqui um dos partidos, o partido ultraortodoxo, que tinha sete deputados, absteve-se, disse que não vai apoiar nem Benjamin Netanyahu, nem o general Eisenkot, mas há sinais de que a coligação da oposição vai negociar com eles, vai negociar com os ultraortodoxos. A coligação de Netanyahu parece estar a desfazer-se. E em todo caso, independentemente disso, temos este ato também, que não podia ser dado como certo, que é os partidos árabes conseguiram 19 deputados, realmente declararam o seu apoio a Eisenkot como primeiro-ministro. Declararam o seu apoio a Eisenkot poder tentar formar um governo, para sermos claros, porque depois isso não quer dizer que façam parte da coligação de governo, isso é pouco provável, ou mesmo até, não é um compromisso absoluto que haverá aqui um acordo de apoio parlamentar. Mas, para já, é o nome que eles querem ver tentar formar governo para negociar com eles.
Há a geringonça que houve em Portugal, ou seja, não há entrada no governo, há algum apoio.
O modelo realista seria esse, se as coisas correrem bem a Eisenkot, era conseguir ter até um apoio mais amplo de partidos também judaicos ou sionistas, como se diz em Israel, e depois ter um apoio complementar que lhe dava uma maioria confortável, pelo menos no contexto da política israelita, que é sempre muito fragmentada no Parlamento. Agora, o meu ponto é, mesmo que isso venha a acontecer tudo, e portanto vamos ter de esperar umas semanas pra ver se isso acontece, provavelmente vamos ter um governo fraco. Netanyahu já deu sinais de como é que vai lidar com isso, ou seja, é tentar deslegitimar o governo, acusar este governo de ser um governo de traidores, que estão a negociar com partidos árabes que roubaram as eleições. Estou aqui a citar Netanyahu, quando fala em traição ou roubo das eleições, sem provas nenhumas, diga-se, a Comissão Eleitoral israelita já veio dizer que não houve fraude nenhuma, que não houve nenhum problema sério nas eleições. Mas isso é um sinal. Quando se fala em traição no governo ilegítimo, é para uma oposição total, para uma política terra queimada. Enfim, eu recordo que é o tipo de palavras que Netanyahu utilizou, por exemplo, em relação a Shimon Peres, que acabou assassinado. Isso significa que mesmo que Eisenkot venha a conseguir formar governo e tenha até maioria absoluta, será um governo À partida, com muitos problemas internos, com pouca margem para fazer grandes mudanças e também condicionado no impacto que pode ter em termos regionais e internacionais. Em todo caso, eu diria que qualquer mudança do governo de Israel será favorável para a imagem de Israel entre os seus aliados tradicionais nos Estados Unidos, na Europa. Acho que Eisenkot aposta muito também nessa ideia para defender a necessidade deste governo. Agora, em termos regionais, acho que aí as coisas serão muito mais limitadas ou mesmo no conflito com os palestinianos. Eisenkot não é propriamente alguém da esquerda israelita que queira alterar radicalmente a política existente. Acho que já seria muito importante se ele conseguisse efetivamente congelar esta dinâmica de agressões crescentes na Cisjordânia e conseguisse avançar com alguma coisa mais viável em Gaza, mas mesmo isso não pode ser dado como garantido.
E também não teria vida fácil a nível político no Parlamento, porque esse apoio também ainda não está muito bem definido como é que poderia acontecer. Vamos naturalmente estar atentos ao que se passa em Israel também noutros episódios do "Cinco Continentes". África, a ONU encerrou a missão no Saara Ocidental. Temos que explicar que missão era esta, de que conflito é que estávamos aqui a falar, só que a envolver Marrocos e a Frente Polisário, mas fica esta dúvida: e agora, a paz é possível de manter na região?
Sim, essa é a grande dúvida e Marrocos já deu sinais. O rei de Marrocos já convocou um Conselho de Estado especial para dar instruções para o reforço da segurança, embora também tenha passado esta mensagem que por Israel não se irá alterar esta situação de status quo. Mas temos aqui um conflito, talvez o paralelo para nós mais fácil é o conflito em Timor-Leste, ou seja, no final de 1975, depois de mais de um século, a Espanha toma conta desta região do Saara em 1884. E na verdade, só ocupa grande parte do interior mais desértico já na década de 1930. Mas esta região, que tinha tido uma relação histórica com os sultões de Marrocos, na prática quase independente, mas com umas relações de vassalagem naquele modelo tradicional das monarquias até ao século 19, mas na verdade, depois é incorporado no pequeno império espanhol, que basicamente se concentra aqui nesta zona do norte de Marrocos e depois desta zona a sul de Marrocos, com a França de permeio. Mas em 1975, na altura da morte do Franco, o rei Hassan II de Marrocos percebe que há ali uma oportunidade, avança com a famosa Marcha Verde, portanto, centenas de milhares de marroquinos vão avançar contra as tropas espanholas para ocupar este território, que Marrocos sempre reclamou, desde a sua independência em 1956. O rei Juan Carlos vai assumir a necessidade de chegar aqui a um acordo quase a qualquer preço, para evitar uma espécie de guerra colonial num contexto de transição e, portanto, em fevereiro do ano seguinte, vai retirar e vai basicamente entregar a solução do problema a Marrocos e à Mauritânia. Entretanto, há um movimento de guerrilha apoiado pela Argélia, que é o grande rival de Marrocos nesta região, um movimento de guerrilha independentista, esta Frente Polisário, também apoiado muito pelo Bloco de Leste, e que basicamente tem as suas bases na Argélia e depois ataca na zona de fronteira entre a Argélia e esta zona do Saara Ocidental. Em 1979, a Mauritânia abandona essa luta e Marrocos ocupa todo o território e depois o conflito vai se prolongar até 1991, e desde aí temos 35 anos esta missão da Minurso. E portanto, uma das coisas que nós temos aqui é o cansaço com estas missões das Nações Unidas. São caras, exigem tropas. Esta não é particularmente cara, tem pouco mais de 200 pessoas, mas sobretudo esta ideia que não são eficazes, está lá há 35 anos. Era suposto organizar um referendo em 1992, nunca houve referendo, porque nunca houve acordo entre a Polisário e Marrocos. E depois temos outra coisa, que é o choque crescente entre grandes potências no Conselho de Segurança, um número crescente de vetos. Portanto, o que aconteceu agora no último dia de outubro foi que os Estados Unidos apresentaram uma proposta que transformaria esta missão numa missão simplesmente de manutenção da paz, mas punha de lado a questão do referendo e validava o apoio a um sistema de autonomia no contexto marroquino. Isso tinha o apoio de 11 dos 15 membros, mas a Rússia vetou e, portanto, caiu essa resolução. A Rússia apresentou uma resolução para estender esta missão, mas só teve três votos de apoio. Além disso, os Estados Unidos vetaram.
Nada se aprovou.
Nada se aprovou, fica tudo como estava. Enfim, esta região é desértica, tem menos de 1 milhão de habitantes, Marrocos tem quase 40 milhões, mas é o dobro do tamanho de Portugal, mais de 200 mil quilômetros quadrados, e sobretudo tem à volta de 70% das reservas de nitrato a nível mundial. São 20% das exportações marroquinas, é chave para a questão dos fertilizantes, que ainda por cima agora se tornou mais estratégica do que nunca, porque outras fontes como a Rússia ou os países do Golfo estão bastante limitadas.
E, portanto, há muitos pontos de interrogação para esse território Saara Ocidental. Vamos fechar, vamos à nossa recomendação, que tem ligação direta à China.
Sim, eu na verdade depois acrescentei aqui uma segunda recomendação, mas na mesma revista, na revista "Foreign Affairs", é em inglês, mas eu sei que a maior parte dos ouvintes não têm grandes problemas e agora também há todo este software de tradução bastante bom. Mas temos, por sinal, dois colegas neste centro da Brookings, que eu também faço parte agora como não residente, mas por acaso foi coincidência. O Ryan Hass e o Ali Wyne escrevem sobre a questão da política em relação à China, "Don't Go Backward", portanto, não podemos voltar atrás. E dizem: "É uma loucura pensar numa política dura de falcão em relação à China". A China é muito mais poderosa do que era há 10 anos, quando os democratas tiveram na presidência e, portanto, ele basicamente defende que há que recalibrar aqui as coisas, competir em certas áreas, limitar noutras áreas e cooperar noutras. Um segundo artigo, do Tom Wright, mais recente, "The Fight for the Future of Democratic Foreign Policy", é um artigo sobre o futuro da política externa do Partido Democrático, o que é que importa para 2028. Ele procura caracterizar estas duas alas, a ala mais moderada e a ala mais progressista, as áreas onde estão de acordo e as áreas onde estão em desacordo. Por exemplo, em relação a Israel, há muitos desacordos. Felizmente, é o argumento do Tom Wright, em relação à Europa, ele diz que há bastante acordo em relação à importância da NATO, da Aliança Atlântica, que aí mesmo os democratas socialistas se moderaram um pouco e parecem valorizar mais essas alianças. Mas vale a pena ler, porque obviamente tem muito mais detalhes do que aqui eu referi.
Fica a recomendação do Bruno Cardoso Reis, que está de regresso com mais um "Cinco Continentes" na próxima semana. Bruno, um abraço.
Obrigado. Boa semana.