O Padre António Vieira não só nos legou uma obra literária de dimensão e qualidade ímpares, que fez Fernando Pessoa exclamar que é merecedor do título de “Imperador da Língua Portuguesa, como as suas argutas análises de aspetos característicos da mentalidade do seu tempo fazem dele o que poderíamos classificar também um “exímio psicólogo os portugueses”.
Alguns dos seus diagnósticos podemos encontrar no par de sermões dedicados a Santo António, pregados nos anos em que viveu em Roma na primeira metade dos anos 70 do século XVII. Se, no primeiro sermão em Roma, Vieira se dedicou a engrandecer Portugal e os Portugueses como muito especiais na paleta das nações do mundo, no segundo sermão constitui-se como o seu psicólogo e o perquiridor dos seus defeitos e perversidades: “Assim como há dias claros, e escuros, assim o será o dia de hoje em comparação do passado. Hoje faz um ano (…) preguei aos Portugueses as luzes da sua Nação; agora lhes descobrirei a eles, e a todos as sombras dessas mesmas luzes: para que se veja no que disse, e no que direi, que não foi lisonja, ou afetação o louvor, pois eu mesmo, e aos mesmos não calo, nem dissimulo o que neles se não deve louvar.” (VIEIRA, II, X, 250)
Sermão de Santo António aos Peixes, numa colecção dos Sermoens de António Vieira, 1682
Neste segundo Sermão de Santo António, que foi escrito para ser pregado em Roma no ano seguinte (mas foi impossibilitado de proferi-lo no dia litúrgico do santo por razões de saúde), Vieira faz um diagnóstico das “sombras” dos portugueses. Começa assim Vieira de forma incisiva, apontando uma dificuldade inusitada em terra designada como país de luz: “luzir Português entre Portugueses, e muito menos luzir com a sua luz, é coisa muito dificultosa na nossa terra. Com a luz alheia vi eu lá luzir alguns; mas com a própria Lux vestra, nem Santo António, quanto mais os outros.” (VIEIRA, II, X, 251)
Este paradoxo apontado por Vieira na pátria da luz do mundo é explicado pela tendência dominante entre os Portugueses para a crítica negativa e destrutiva “Não debalde domina sobre Portugal o Sagitário; porque este é o signo, em que lá nascem todos os que são apontados com o dedo, para que contra eles se apontem as setas. Escusadamente vai logo provocar as dos arcos Turquescos a África quem as tinha tão aparelhadas na Pátria, e tão certas na sua própria grandeza.” (VIEIRA, II, X, 251) O afiado cinzel crítico dos portugueses contra os que apresentam ideias para bem do país e projetos que favoreçam o seu engrandecimento é devido a sua atávica predisposição para a inveja: “Os sete montes daquela Cidade, em um dos quais nasceu Santo António, todos são montes de Gelbó. Ali está encantada a fatalidade dos que fez a natureza, ou a fortuna maiores que os outros. Contra eles se armam as batalhas, contra eles se tiram as setas, e sobre eles descarrega todo o peso da guerra; porque a inveja, como filha primogénita da soberba, pesa para cima, e todos seus tiros se assestam contra o mais alto.” (VIEIRA, II, X, 257, VIEIRA, II, X, 251-258)
Recorrendo a exemplos evangélicos que lhe servem para explicar o complexo psicológico da inveja ilustrado pela própria experiência da vida de Cristo, que sentenciou, perante os que o desconsideraram na Galileia, que ninguém era naturalmente profeta na sua terra: “E como nos naturais de Cristo faltava esta segunda possibilidade, e pela inveja natural, que nasce com os que nascem na mesma Pátria, não podiam crer (nem querer) que Cristo nascido entre eles fizesse milagres; por isso o mesmo Senhor não podia na Sua terra o que podia em todas.” (VIEIRA, II, X, 254)
A inveja dos que são próximos e conterrâneos acaba por ser uma espécie de cegueira que impede ver os talentos e os benefícios. Vieira não tem dúvidas em afirmar que a inveja é o maior defeito dos Portugueses, sendo o seu conhecimento do que se passa nos instâncias judiciais do Santo Ofício matéria ilustrativas para esta acusação: “Na forma que se observa nos tribunais da Inquisição destes reinos, por ser cega e obscura, encontram-se todos os dias, como vemos e ouvimos nos autos da fé, nos testemunhos falsos contra os cristãos-velhos e contra os cristãos-novos, conspirações e conjuras por causa da inveja, que é vício da nação portuguesa.” (VIEIRA, IV, II, 239)
Mas não só no Santo Ofício, a inveja encontrar lugar de facto mais eficaz atuação em todas as instituições judiciais onde pode usar a justiça para cometer as maiores injustiças: “Nos Tribunais, ou públicos, ou particulares, onde a inveja preside, as virtudes são pecados, os merecimentos são culpas, as obras ou boas qualidades são crimes.” (VIEIRA, II, IV, 227)
Frei Luís de Granada (1504-1588)
Este diagnóstico sobre o mal característico dos portugueses que é a inveja não é novo. Outros autores contemporâneos de Vieira e alguns que lhe precederam apontaram a inveja e a sua “irmã”, a maledicência, como um problema atávico português. Entre eles podemos destacar no século anterior ao de Vieira a observação do célebre dominicano espanhol Frei Luís de Granada que assim reportou em 31 de janeiro de 1581 a Filipe II de Espanha, que em abril daquele ano seria entronizado como Filipe I de Portugal nas cortes de Tomar: “Também quero em modo de antevisão, como experiente neste reino e desejoso do serviço de Vossa Majestade, declarar-lhe sumariamente os humores deste reino, pois sabe que cada nação tem os seus próprios. E recorrendo às palavras de São Jerónimo, eu que há tantos anos navego por este mar, denuncio a quem começa a navegar pelos baixios que nele encontramos, que são os humores próprios desta nação. (…) Estes humores são a inveja, a maledicência, o pouco segredo, menos verdade, muita credulidade, fáceis em dizer e mais fáceis em crer, de onde nasce o próprio humor da terra, que são os mexericos, granjeando amizades, criando inimizades, vendendo-se por amigo à custa de fazer outro inimigo, que é o sétimo vício que, segundo Salomão, Deus abomina.” (Granada, Obras Completas, pp. 71-72)
Era essa a fama que Portugal aos olhos dos estrangeiros parecia ter na inveja como sua fraqueza que suscitava uma fraqueza maior do ponto de vista da coesão política: a desunião. Vieira assim aponta que aproveitou Espanha disso mesmo para dominar Portugal: “[Castela] se governa pela política de Tomás de Kempis, naquele santo conselho: ‘Deixalo todo, e tendrás lo todo’. Parece-me que para ter todo Portugal, o promete e dá todo; e é gravíssima tentação, onde não há amor nem esperança, e tudo é descontentamento e inveja.” (VIEIRA, I, III, 409)
Mas pior do que isso, a inveja quando se torna ativa do seu perverso poder de tornar-se apagadora de bons projetos para o bem comum, desvalorizadora do que têm mérito. Vieira descreve assim a estratégia astuciosa da inveja que é destruidora dos que desejam realizar obras boas e grandes: “é necessário que advirtamos primeiro uma notável habilidade, e astúcia, que usa a inveja para desluzir, e escurecer as boas obras, e para lhes envenenar, e destruir a mesma bondade. E qual vos parece que será́ esta habilidade, e astúcia? É que nunca olha para toda a obra boa de claro em claro, assim como é em si mesma; senão que sempre a procura tomar por um lado, e por aquela parte, ou ponta donde menos claramente se descobre a sua bondade, para ter em que morder, e que arguir.” (VIEIRA, II, X, 275)
Padre António Vieira (1608-1697)
Como já o fizeram outros autores do século anterior, Vieira aponta com lamento a dificuldade, devido ao sentimento inibidor da inveja, que os Portugueses têm em louvar e propagandear com a devida expressão as grandes realizações suas. Entende que os estrangeiros mais facilmente constatam, admiram e exaltam as nossas realizações do que nós o fazemos: “Eu sempre creio que as línguas estrangeiras saberão melhor avaliar as circunstâncias de tamanho sucesso; porque as nossas sempre são curtas em louvar, podendo mais a inveja dos particulares, que o amor comum da pátria. (VIEIRA I, II, 501)
Mas a maior perversidade da inveja para um país que deveria fazer frutificar o seu viveiro de talentos é matá-los à nascença impedindo-os de florescer: “Oh Pátria tão naturalmente amada, como naturalmente incrédula! Que filhos tão grandes, e tão ilustres terias, se assim como nascem de ti, não nascera juntamente de ti, e com eles a inveja, que os afoga no mesmo nascimento, e os não deixa luzir, nem crescer!” (VIEIRA, II, X, 251)
De algum modo, este sermão de Santo António, dedicado a arguir as “sombras dos portugueses”, revela de modo subentendido traços autobiográficos, constituindo-se Vieira como um alter Antonius que sofreu na pele as invejas e os rebaixamentos dos seus compatriotas: “Não há́ coisa que mais pique, nem de que mais se piquem os naturais, que da emulação, e inveja. Estas são as espinhas, que afogam logo desde seu nascimento os que nascem na mesma terra: e estas são as que haviam de afogar na nossa a Santo António, para que não obrasse fora dela o que obrou, nem obraria, se não fugisse dela.” (VIEIRA, II, X, 264-265)
Este texto de exortação ressuma da experiência de desilusão de Vieira em relação aos seus compatriotas que se manifestaram hostis aos seus projetos, ideias e soluções para reabilitar Portugal e torná-lo de novo grande entre as nações. Por tudo isto, ficou famoso o lamento de Vieira em relação à sentida ingratidão do seu país pelos serviços que prestou à sua Pátria nesta passagem emblemática patente no Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma: “Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”
Estes diagnósticos e lamentos de Vieira ocorreram há quatro séculos atrás. Mas não se manterão muitos destes traços atávicos persistentes hoje em dia na nossa mentalidade coletiva? Não serão ainda características psicológicas predominantes que se traduzem em comportamentos e formas de atuar mais em função de interesses mesquinhos e egoísticos do que em favor do bem comum maior e do supremo interesse da comunidade no seu todo?
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]
VIEIRA, Padre António, Obra completa (30 vols.), Dir. J. E. Franco e P. Calafate, Lisboa, Círculo de Leitores, 2013-2014.