Já a escrever para o jornal, no meu primeiro artigo publicado no Observador, defendi a necessidade de aproximar as várias correntes da Direita Portuguesa, tendo em vista a sua união e a construção de entendimentos parlamentares capazes de responder aos problemas do país. Continuo a achar esta aproximação um imperativo político!!

Contudo, a discussão sobre a unidade da Direita tem de chegar a outros espaços. Podemos discutir coligações, maiorias parlamentares e programas de governo, mas continuaremos a desperdiçar parte do nosso potencial enquanto não houver um esforço sério de formação intelectual, organização cultural e cooperação entre pessoas que, apesar de pertencerem a partidos diferentes, partilham preocupações fundamentais.

A vida política começa muito antes da entrada de um deputado nas instalações da Assembleia. As ideias que regem e orientam a sociedade e a comunidade política são debatidas nas universidades, divulgadas pelos media, desenvolvidas em revistas e editoras, transmitidas por associações e aprofundadas em centros de estudo. É também nesses espaços que se formam os futuros políticos, jornalistas, professores, investigadores e dirigentes associativos. Quem queira influenciar duradouramente a vida pública tem de compreender a importância desse trabalho. A Direita portuguesa continua demasiado concentrada no próximo ciclo eleitoral, nas declarações dos dirigentes e nas disputas parlamentares, deixando frequentemente para segundo plano a construção das condições intelectuais e culturais que poderiam dar maior consistência à sua intervenção.

Tão frágil são as evidências quando olhamos a enorme diversidade no nosso campo político. Desde liberais, libertários, conservadores, nacionalistas/soberanistas, democratas-cristãos ou até distributistas que partem de tradições diferentes e chegam muitas vezes, a conclusões incompatíveis. Daí servir o diálogo interno para marcar divergências seja na forma de entender o mercado, o Estado, a identidade nacional, a nação ou a propriedade. Ainda assim, existem referências comuns que permitem colaboração: a herança cristã e a civilização europeia, a defesa da liberdade política e da responsabilidade individual, a importância da propriedade privada e da iniciativa económica, o papel da família e das comunidades intermédias, a continuidade histórica, a identidade nacional e a necessidade de limitar o poder político.

Todos devemos contactar com todas as correntes e saber identificar pontos onde a cooperação é possível. Pressupõe-se debates sem medo da discórdia e espaço a tradições e iniciativas capazes de mobilizar pessoas fora das estruturas partidárias tradicionais.

Há, porém, um obstáculo que me parece especialmente preocupante: a dificuldade que as mesmas estruturas partidárias revelam em aceitar que os seus próprios membros procurem referências fora do universo ideológico mais próximo da direcção. Uma pessoa pode pertencer a um partido e reconhecer valor em autores, correntes ou propostas que não correspondem inteiramente à sua orientação oficial. Pode querer assistir a um debate organizado por outra corrente ou força política da Direita, ler uma publicação com a qual discorda em vários pontos ou estudar uma tradição política que o seu partido nunca valorizou. Nada disto deveria ser automaticamente interpretado como deslealdade.

Deve preocupar os jovens a cultura em que a curiosidade intelectual tem de ser justificada perante a hierarquia e em que a divergência pode levantar suspeitas sobre o compromisso de alguém com a organização a que pertence.

Chamo-lhe, informalmente, uma cultura de «contar aos papás»: a ideia de que é necessário pedir autorização, explícita ou implícita, para explorar outras perspectivas, como se a autonomia intelectual fosse uma ameaça à pertença partidária. Uma organização política que desconfia dos seus próprios militantes quando estes procuram pensar com maior profundidade acaba por limitar a qualidade das pessoas que tem ao seu dispor.

Esta questão torna-se particularmente relevante nas juventudes partidárias que deveria proporcionar instrumentos para compreender a realidade política, formar e informar melhor os seus quadros, tudo se torna mais relevante pois, em demasiadas ocasiões, porém, correm o risco de se transformar em espaços de reprodução das posições das direcções, de rivalidade interna e de demonstração de fidelidade. Quando isso acontece, perde-se uma oportunidade de formar uma geração politicamente preparada, intelectualmente autónoma e capaz de representar os problemas e as aspirações dos jovens.

Uma juventude partidária que não forme, não informe com rigor e que não estimule o pensamento crítico dificilmente conseguirá renovar a cultura política do seu partido. A formação política deve servir para formar quadros capazes de assumir responsabilidades e acima de tudo… formar melhores cidadãos!

Duas pessoas podem divergir sobre questões económicas, sobre a organização do Estado ou sobre a estratégia eleitoral e, ainda assim, trabalhar juntas na criação de uma revista, na organização de uma conferência ou na formação de jovens interessados em política. Podem pertencer a partidos diferentes e encontrar-se em torno da defesa da família, da liberdade de educação, da propriedade ou da soberania nacional. A pertença partidária não deve funcionar como uma fronteira automática para a colaboração intelectual.

Uma Direita que transforma dirigentes partidários em figuras intocáveis, e a discordância em motivo de suspeita acaba por comprometer a formação daqueles que um dia deveriam renovar o seu pensamento. É urgente romper com esta cultura de seguidismo, devolver às juventudes partidárias a sua vocação formativa e criar uma geração capaz de pensar com autonomia, debater sem receio e colocar as suas convicções acima das conveniências internas. Afinal, que futuro pode ter uma Direita que exige lealdade aos seus dirigentes, mas não tem a coragem de ensinar os seus jovens a pensar pela própria cabeça?