Há meio ano, à medida que a minha vida profissional ia tendo menos espaço temporal para os meus sonhos, qual Tarik ibn Ziyad, resolvi queimar os meus barcos. Enveredei por um projeto empresarial destinado a descobrir a origem de mecânica quântica, desenvolvendo um computador quântico sem ter de aproveitar os sistemas quânticos existentes. Se me perguntassem há cinco anos se tal seria possível eu caía no chão a rir, porque o volume e qualidade dos recursos humanos seria tão grande que dificilmente conseguiria encontrar financiamento para uma empresa com este propósito. Aquilo que mudou a minha opinião foi ter reunido a capacidade de poder discutir com Einstein, Bohr, Feynman, e muitos outros, todos reunidos à volta da minha mesa: um modelo de LLM. Em seis meses cheguei a resultados que não imaginaria para 6 anos.
Isto por causa do discurso do Ministro da Reforma do Estado na “Ovibeja da Internet” e do enorme impacto que tiveram as suas palavras relativamente à sua intenção de encontrar um “tutor de IA” para cada aluno do sistema de ensino nacional. Claro que o facto de nem todos terem professor torna a afirmação algo absurda e vista como um novo momento “Magalhães”, adicionada ao facto de todos o poderem ter já hoje sem grande esforço (nem falemos da coreografia Steve Jobs…). A ideia não está, no entanto, de todo errada. Está simplesmente fora de sequência, e se me derem a vossa atenção durante uns minutos, eu explico baseado no primeiro parágrafo deste texto.
Os modelos de IA que foram construídos nos últimos anos são muito mais do que uma ferramenta que dá jeito. São uma alteração fundamental na sociedade humana, algo de maravilhoso cujas consequências ainda vamos aprender a viver, como no dia em que descobrimos que conseguíamos comunicar por texto. Estes modelos estão, aliás, intimamente ligados a essa capacidade, mas hoje não é sobre isso.
Reparem na minha falta de cuidado em vos explicar quem foi Tarik ibn Ziyad, o que ele fez com os barcos, o que é a mecânica quântica e o que Einstein, Bohr e Feynmann tinham a ver com isso. A verdade é que podem perfeitamente pegar nestas frases e ter um computador a explicar-vos isto muito melhor que eu, sem que vocês tenham de perder tempo a ler a minha explicação, nem eu perder tempo a explicar-vos. Estando o fundamental dito, todo o esforço de explicação desses detalhes se torna espúrio, sem valor. E é nisto que o ministro falhou, ou não soube, explicar. Não é um tutor que os alunos vão ter, é um mundo de tutores nas mãos. E não vão ser só os portugueses, vão ser todos. Tal como eu ganhei uma mesa com Einstein, Bohr e Feynman, os alunos vão ter mesas com os Einsteins que precisam, a quem podem colocar problemas e aqueles génios a devolverem novos problemas para resolverem. A questão óbvia que surge é: então, os objetivos, as metas que colocamos aos alunos, serão as mesmas? Em vez de pedirmos para chegarem à universidade a saber fazer derivadas, porque é que não pedimos para chegarem com novas soluções das equações de Einstein às quais ainda ninguém pensou? Porque é que eles não passam a fazer os 12 anos de escolaridade obrigatória em 4 e ficam com 8 para chegarem pós-doutorados à universidade?
A primeira razão é aquilo que nos assusta: não o sabemos fazer ainda. Imaginem os senhores que há 5500 anos inventaram a escrita. Aquilo que deveriam pensar as pessoas que os rodeavam era que aquilo seria perigosíssimo. As coisas que poderiam sair dali, escritos que mudariam o mundo, histórias de êxodo, de ressuscitações, de profetas, de divindades terrestres e etéreas. Imaginem um aluno da pré-história a ter de aprender sem suporte escrito, a ter a sua capacidade reduzida à sua memória mecânica.
O facto é que a criação desse instrumento a que chamamos escrita foi o suficiente para dizermos que antes da sua criação estamos na pré-História. A verdadeira História da humanidade faz-se a partir do momento em que aprendemos a interligar símbolos e a montá-los em várias escalas: as letras, as palavras, as frases, os parágrafos, as páginas, os livros, as bibliotecas. Aprendemos a criar símbolos e a desenvolver a sua interligação, que nos materializaram a lógica e as formas de a traduzir da maneira eficiente a que chamamos matemática e, com esta, a capacidade de vermos o universo quase no dia em que foi criado.
Como é que os primeiros professores poderiam ensinar essas novas ferramentas aos seus pupilos? Na verdade, levou-se séculos a aprender a ensinar. Pelo meio tivemos imprensa, calculadoras, computadores, telescola, internet, wikipedia, google, youtube, entre outros. Tudo ferramentas que nos facilitavam o acesso à escrita dos outros, ao conhecimento. Tudo ferramentas que facilitavam a escola que aprendemos a construir durante 5 milénios, escola essa que ensinou professores que fizeram a escola que, sob qualquer perspetiva, foi uma construção de enorme sucesso.
Este é um momento diferente, é um momento como o da invenção da escrita. Eu já tinha acesso aos escritos de Einstein. Já tinha acesso, em segundos, aos escritos de quem tinha interpretado os escritos de Einstein de uma forma que eu não conseguiria. Aquilo que não tinha era acesso à interligação dos escritos de Einstein com os meus pensamentos. Este é o novo milagre!
O meu ponto de viragem, onde percebi que estaríamos numa pós-História, foi no dia em que procurava deduzir uma expressão matemática para um fenómeno físico da minha predileção e usei o ChatGPT como se fosse uma versão avançada de pesquisa. Queria saber se alguém tinha deduzido uma expressão daquele tipo. Na resposta, “ele” devolveu-me várias expressões similares para casos que não eram os meus. Como a minha expectativa não era por aí além, respondi “pois, mas o meu caso é diferente porque…” e “ele” responde com um “tens razão, o teu caso é diferente e a equação resultante deverá ser…” e espeta-me com uma solução à frente que considerei bastante plausível. O meu ceticismo levou-me a perguntar as fontes de tal resposta e que “ele” me mostrasse de onde as tirou. Mostrou-me de onde tinha tirado, vi na diagonal e… nada. Não estava lá nada do que tinha dito. Fiz o reparo e tive como resposta “tens razão, não está, mas deduz-se. Se partires daqui….” e faz a dedução toda até chegar a uma equação muito parecida. Fiquei espantado, mas um dos coeficientes que eu esperava que fosse “A”, era raiz quadrada de “A”. Fiz o reparo e decidi parar ali.
Só depois de pensar melhor, entendi o verdadeiro valor que me estava a ser entregue. Quanto é que eu teria de pagar a alguém – e onde é que encontraria alguém que se dignasse a discutir aquele problema comigo – com aquele nível de conhecimento e cometesse exatamente o mesmo erro? O valor não está na resposta, está na forma como o nosso raciocínio é recrutado para interagir com alguém de conhecimento virtualmente infinito. E é isso que nos vai levar à resposta a que nunca ninguém chegou e que, obviamente, não será uma máquina a chegar.
Agora imaginem onde isto poderá levar uma criança de 10 anos com toda a capacidade de absorver o mundo, saibamos nós ensinar essa criança a fazer evoluir o seu raciocínio interagindo com Einstein e Dostoievski, sem se estar a preocupar com as estações de comboio da linha da Beira (ensinamento a que eu fui sujeito). Saibamos nós ensinar isso e a escolaridade obrigatória passa a ter objetivos de filme de ficção científica.
Talvez fosse isto que o ministro queria dizer com “tutor” (até porque sei que nomeou para CTO do Estado alguém com tantas décadas “disto” como eu, e que deve ter tido influência na expressão) e talvez as críticas de se estar a menorizar o papel do professor fizessem algum sentido. Mas estão ambas “fora de tempo”. O professor não vai ser uma figura menor, pelo contrário, mas terá de ser uma figura diferente. As metas de aprendizagem serão coisas completamente diferentes porque a memorização perderá todo o valor face ao raciocínio. O registo escrito perderá todo o valor face à criatividade. Até a lei escrita perderá todo o valor face ao princípio moral. Mas que mundo maravilhoso virá aí quando conseguirmos montar a escola da pós-História da forma como conseguimos montar a da História?
Alguém me dizia há uns tempos que o ChatGPT dava muito jeito para escrever emails. Ao que respondi que também dava jeito para os ler, pelo que haveria duas pessoas a usar energia inutilmente: uma para transformar uma ideia em texto, e outra a reconverter esse texto novamente numa ideia, quando se tivesse mandado logo a ideia sem se preocupar com o contexto em que a ideia era apresentada, eram menos uns quilogramas de CO2 na atmosfera. É natural, no entanto, que muita gente esteja assustada com a forma como a IA está a entrar nas nossas vidas, particularmente aqueles cujo valor se tem ancorado no contexto e não no produto.
Imaginem o ar das pessoas nas ruas da Suméria quando começaram a aparecer escritos, o milagre que devia parecer um livro em 1500 a.c. e o assustador que deveria parecer alguém recitar aquilo que lá estava escrito. Como o rendimento dos mestres religiosos deve ter sido apagado com o aparecimento da religião escrita.
Tal como escrever um email floreado, para ser lido de seguida tirando os floreados, deverá ser um ato obsoleto, os sermões que não fossem baseados em escritos devem ter passado a ser vistos como aldrabices. Estamos a viver o tempo em que os escritos, o conhecimento livresco baseado em registos escritos ou imagens, terá valor zero por ser de acesso livre, como o oxigénio nos motores do carro é de borla porque ninguém tem de o levar lá. O que será o registo do pós-história não sabemos, mas já sabemos que os registos de hoje passarão a ser apenas história.
Dos tutores, não discordando do ministro da Reforma, eu lembrava-lhe que o maior dos problemas do Estado são problemas de formação de contexto, de criação de registos que impedem o crescimento do país, pelo que lhe sugeria que se sentasse em frente a um computador e começasse a discutir como destruir esse contexto, de forma que o estado dificultador passasse a ter valor económico que se visse.
Sim, chegaremos ao dia em que os alunos tenham um tutor, mas já estaria contente se arranjassem ao ministro da reforma um. Para que o ministro da educação comece a construir o sistema para a pós-História.
Convidado da Oficina da Liberdade