Por clara incapacidade minha e rara tendência para o desleixo, a minha vida académica foi uma tragédia. E se hoje ainda tenho vida académica foi devido ao facto de errar. E quando digo errar, não é do tipo “Que chatice, lá vou ter eu de fazer isto outra vez”, é do tipo “Eish, grande bronca, como é que vou resolver isto?”.

Um dia, nestas páginas, escrevi sobre o que é o capital. A esmagadora maioria das pessoas ao ouvir a palavra associa imediatamente a dinheiro. Nada mais errado. Capital é a capacidade de produzir algo que os outros queiram consumir. Um país pode ter muito dinheiro e ter pouco capital, algo que acontece amiúde aos países produtores de petróleo que insistem em “comprar” o que de melhor se faz no estrangeiro, em vez de tentarem fazer eles. Isto para dizer que a capacidade de produzir está muito pouco relacionada com o volume da nossa conta bancária e depende essencialmente daquilo que sabemos fazer. Daí, quando olhamos para as estatísticas de riqueza, vemos no meio dos produtores de petróleo e dos centros de livre comércio países como a Dinamarca, a Finlândia ou a Holanda que não têm outra coisa para vender que não a capacidade de produção dos seres humanos que alojam.

O que estes países, feitos de pedras, gelo e árvores têm que os outros não têm é a noção da importância que tem de incorporar esta capacidade de fazer no único ativo que têm – as pessoas. O capital do país vem da educação e da qualidade desta. Claro que há países que quase podem viver em completa ociosidade enquanto os recursos naturais o permitem. Haja petróleo a jorrar do chão e o Qatar ou os Emiratos Árabes podem ter a educação que entenderem (embora estejam a investir no contrário). Haja sol e praia e Portugal pode continuar a fomentar hordas de cliques ociosas que vivem de impostos cobrados a turistas ruborescidos de meias e sandálias.

No entanto, excetuando estes países com estes privilégios naturais dos quais os seus habitantes não fizeram nada mais senão nascer, há outros, os verdadeiramente ricos que todos invejam, que parece que os seus “privilégios naturais” nasceram com as pessoas. Não nasceram, não há nenhuma vantagem bioquímica em nascer-se na Suécia, na Holanda ou na Suíça. Há a vantagem de um reconhecimento histórico de que o capital, esta capacidade de produzir, se transmite de pessoa para pessoa, de velhos para novos. Aquilo a que convencionamos chamar de educação.

Então, se educação é só passar conhecimento, é fácil. É só meter os miúdos em frente da Wikipedia, do Youtube e do ChatGPT e todo o conhecimento do mundo pode ser transmitido. Mas educação não é transmitir conhecimento, é transmitir capital, o que é muito mais difícil. Não é saber, é errar.

Errar é a forma de todo o capital e por isso é que precisamos de educadores humanos, não nos servindo de nada termos fontes infinitas de conhecimento. Se o leitor não tivesse feito os exercícios de matemática do seu livro da primária, teria servido de alguma coisa ter ido para casa com ele e tê-lo lido? Nem sequer é um livro complicado, certamente qualquer criança que soubesse ler, leria rapidamente o livro de matemática. No entanto, não saberia matemática porque nunca teria errado.

Quando contratamos um canalizador, não é por aquilo que ele sabe. É por aquilo que ele já errou. Um canalizador, um consultor, um advogado, entre outros. Nós não compramos conhecimento, isso está de borla na internet. Nós compramos todos os erros que aquelas pessoas fizeram na vida. Se não fosse por cometer erros, as carreiras não seriam feitas de sair da escola para cima, mas de sair da escola para baixo, à medida que íamos tendo os ensinamentos menos presentes.

E todo este sermão por causa de uma notícia de que 28 investigadores da Faculdade de Ciências de Tecnologia de Universidade Nova de Lisboa – incluindo a Prof.ª Elvira Fortunato que, infelizmente, interrompeu a sua carreira científica para um cargo de menor valia económica num governo – teriam violado o dever de exclusividade com a universidade pela qual recebem mais. Ou seja, se alguém for funcionário a tempo inteiro da faculdade, recebe mais do que se não for. O curioso das reações públicas, incluindo de alguns académicos de espírito amanuense, foi de enorme condenação destes 28 investigadores, sem se perceber o estúpido que isso representa.

Um professor/investigador universitário é um agente de educação superior que deve transmitir o máximo de erros possível. Quer-se dele experiência, contacto com a realidade económica, quer-se dele que ande pelo mundo – geográfico e económico – a experimentar e a errar. Emy Edmonson, professora de Harvard e investigadora do erro como elemento de gestão, tem um livro muito bom, intitulado de “O Tipo Certo de Erro” (Ed. Temas e Debates), onde caracteriza os investigadores como os agentes naturais do erro certo, isto é, o erro que traz novo conhecimento, mas, fundamentalmente, traz o conhecimento de que não é “por ali”. É aquilo que justifica pagarmos ao canalizador, mas mais que ele saber o que é, é saber o que não é. O que não é, não vem em livro nenhum, precisamos que o canalizador nos ensine da maneira que ele sabe.

O que faz este país? Premeia o professor/investigador cumpridor de regras, aquele que se reduz a escriturário. Quanto mais dedicado ao seu cargo de funcionário, mais ganha. Se for para a rua errar, se for encontrar novos domínios da sua investigação, se for encontrar valor na economia para aquilo que está a investigar, será penalizado por esse pecado mortal. “Não terás valor económico” – parece ser este o primeiro mandamento que a república portuguesa ensina aos seus funcionários.

Portugal não é pobre por acaso ou azar. Pelo contrário, até tem muita sorte nas condições naturais e políticas que fizeram metade do país viver do sol e a outra da caridade alemã. Portugal é pobre porque merece ser pobre. Não tendo eu os detalhes dos projetos de investigação em que a Prof.ª Elvira Fortunato e a sua equipa trabalharam, atiraria para o ar um valor na ordem das dezenas de milhões de euros de capital formado completamente financiado por entidades exteriores. E decide-se castigar a senhora e os seus 28 colegas por não se terem cingido a dar umas aulas sobre mecânica do séc. XVIII, e terem ido pelo mundo procurar coisas novas para errar e capital para formar.

Não, meus ignaros concidadãos, quem devia receber (muito) menos é quem tem exclusividade e, mais, devia-se questionar por que razão essas pessoas estão limitadas a ter exclusividade. Castigar estas pessoas, que imagino seja aquilo que a lei diz (eu, obviamente, não tenho exclusividade), é sinal de um país completamente ao contrário.

Se hoje tenho a pretensão de ter alguma coisa a ensinar aos meus jovens futuros colegas, se hoje consigo fazer ciência teórica numa empresa e numa universidade, foi por causa dos erros que cometi na minha vida profissional. Se tivesse sido um aluno exemplar que nunca tivesse errado, teria seguido a carreira de pessoa que não erra e premiado na universidade portuguesa como uma fantástica exclusividade para continuar a não errar. E não ter valor produtivo. Nenhum.