Uma terça-feira, duas da tarde, em pleno período letivo. No rés-do-chão, a universidade parece perfeitamente viva. Há estudantes nos corredores, aulas a decorrer, serviços abertos, pessoas a entrar e a sair. Talvez o estacionamento esteja cheio. Nada sugere uma instituição vazia.

Mas basta subir ao piso dos gabinetes dos docentes. Portas fechadas. Luzes apagadas. Silêncio. Não um ou dois gabinetes: filas deles. A cena tornou-se tão normal que quase deixou de nos parecer estranha. Onde estão os professores?

A resposta mais imediata é simples: estão em casa. Ou no laboratório. Ou a trabalhar noutro lugar. E, de facto, estão a trabalhar. Escrevem artigos, preparam aulas, orientam estudantes, participam em projetos, respondem a mensagens, analisam dados, candidatam-se a financiamento e reúnem-se com colaboradores espalhados pelo mundo.

Por isso, a pergunta interessante não é onde estão. É outra: porque deixou a universidade de ser o lugar natural onde os académicos fazem a sua vida académica?

O gabinete vazio não é o problema. É o sintoma.

Seria fácil transformar esta discussão em mais um debate sobre teletrabalho. A tecnologia tornou possível trabalhar de quase qualquer lugar. A pandemia acelerou hábitos que já existiam. Para muitas tarefas académicas, sobretudo aquelas que exigem concentração prolongada, trabalhar em casa pode até ser mais eficiente do que trabalhar num gabinete sujeito a interrupções frequentes.

Tudo isso é verdade. Mas explica sobretudo como se tornou possível abandonar a universidade. Explica menos bem por que razão foi tão fácil fazê-lo e por que razão estar nela parece ter perdido parte do seu valor.

Durante muito tempo, a universidade não foi apenas o lugar onde um académico tinha o seu emprego. Era um lugar que se habitava. Não é preciso romantizar o passado. Os departamentos universitários nunca foram comunidades perfeitas de estudiosos envolvidos em conversas brilhantes do amanhecer ao anoitecer. Também havia gabinetes fechados, conflitos, burocracia e isolamento.

Mas existia uma diferença estrutural importante: grande parte da vida académica estava concentrada num mesmo espaço. Os livros estavam ali. Os periódicos estavam ali. Os laboratórios estavam ali. Os seminários estavam ali. Os estudantes estavam ali. Os colegas estavam ali. Para participar plenamente nessa vida, era necessário estar ali também.

E, precisamente por as pessoas estarem no mesmo lugar, aconteciam coisas que ninguém tinha planeado. Um estudante aparecia à porta com uma dúvida. Um doutorando mostrava um resultado estranho. Um colega passava pelo corredor e fazia uma pergunta. Uma conversa que seria de dois minutos prolongava-se durante meia hora. Alguém mencionava um artigo. Surgia uma hipótese. Nascia uma colaboração.

Talvez a porta do gabinete seja uma boa imagem para essa universidade. Uma porta aberta dizia silenciosamente: estou aqui. Era uma infraestrutura de disponibilidade. Permitia uma pergunta, uma conversa, uma interrupção, uma ideia inesperada. Tornava uma parte da vida intelectual visível aos outros.

Nada disto aparecia necessariamente num relatório de atividades. Ninguém escrevia no currículo que tinha tido dezenas de conversas intelectuais espontâneas num ano. Não havia um indicador para o almoço em que um investigador sénior tranquilizou um doutorando ou para a discussão no corredor que evitou uma experiência mal desenhada. E, no entanto, talvez sejam precisamente essas interações que transformam um conjunto de pessoas empregadas pela mesma instituição numa comunidade académica.

A universidade contemporânea não precisou de dizer aos docentes para deixarem de aparecer. Fez algo mais subtil: tornou cada vez mais racional não aparecer.

Aquilo que conta profissionalmente é, em grande parte, produzido independentemente da presença física no departamento. Publicações, projetos, financiamento, citações, teses concluídas, colaborações internacionais, redes científicas.

Nada disto é irrelevante. O problema é que quase tudo aquilo que conseguimos medir pertence à categoria do resultado, enquanto grande parte daquilo que constitui uma comunidade pertence à categoria da relação. Medimos aquilo que cada académico produz. Medimos muito pior aquilo que se torna possível porque os académicos estão uns com os outros.

A instituição sabe quantos artigos um académico publicou. Não sabe o que aconteceu porque ele estava presente.

Ao mesmo tempo, a digitalização libertou a vida intelectual de muitas limitações da geografia. Hoje é possível consultar bibliotecas sem lhes entrar pela porta, participar num seminário noutro continente sem apanhar um avião e trabalhar diariamente com investigadores que nunca partilharam connosco um edifício.

Nunca foi tão fácil estar intelectualmente próximo de alguém que está a oito mil quilómetros. E talvez nunca tenha sido tão fácil ignorar quem está no gabinete ao lado.

A partir daqui surge um problema curioso. Cada académico pode ter excelentes razões para ficar em casa num determinado dia. Talvez consiga concentrar-se melhor. Talvez não tenha aulas. Talvez tenha reuniões online. Talvez imagine, corretamente, que poucos colegas estarão no departamento.

Porque não vou hoje ao departamento? Porque provavelmente não estará lá ninguém. E porque não estará lá ninguém? Porque toda a gente fez exatamente o mesmo cálculo.

O problema é que o valor de estar na universidade depende, em parte, de quantas outras pessoas decidiram estar lá.

Quando trinta pessoas circulam regularmente por um departamento, pode valer a pena aparecer mesmo sem saber quem estará presente. Há uma probabilidade razoável de encontrar alguém, conversar, almoçar, ouvir alguma coisa interessante. Quando aparecem três, o cálculo muda.

A partir de certo ponto, a universidade vazia começa a produzir a sua própria ausência.

É uma espécie de tragédia dos comuns ao contrário. Não destruímos o recurso comum por o utilizarmos demasiado, mas por deixarmos gradualmente de o produzir. Ninguém decidiu acabar com a vida académica do departamento. Bastaram muitas decisões individualmente razoáveis para produzir um resultado coletivamente empobrecedor.

Talvez sejam os estudantes quem mais perde neste processo. Um estudante universitário não aprende apenas numa sala de aula. Aprende também observando uma disciplina em funcionamento. Ouvindo como especialistas discutem entre si. Percebendo que perguntas consideram interessantes. Vendo como alguém reage quando não sabe uma resposta. Assistindo à passagem de uma ideia vaga para uma hipótese séria.

Uma comunidade académica ensina mesmo quando não está formalmente a ensinar.

Durante anos, porém, as universidades aprenderam a avaliar sobretudo aquilo que conseguem contar: artigos publicados, projetos financiados, teses concluídas, entre outros indicadores de desempenho. As famigeradas métricas.

Mas alguns dos resultados mais valiosos de uma universidade, sobretudo na formação dos seus estudantes, não são facilmente mensuráveis. Nascem de conversas, exemplos, perguntas, encontros e relações cujo efeito raramente é imediato e quase nunca pode ser atribuído a uma linha de um relatório.

E há algo ainda mais incómodo: esses resultados nem sequer são sempre produzidos intencionalmente. Brotam de uma comunidade simplesmente porque ela existe.

Talvez a universidade esteja, por isso, a colher aquilo que semeou. Ao valorizar sobretudo aquilo que cada um consegue produzir individualmente, tornou menos visível o valor daquilo que emerge da vida académica partilhada.

Talvez os corredores vazios estejam a tornar visível essa contradição.

A universidade descobriu como funcionar sem que os académicos estejam na universidade. Ainda não sabemos se consegue continuar a ser universidade nessas condições.

Que universidade valeria a pena voltar a habitar?