Novembro trouxe-nos a COP30 em Belém do Pará, a primeira conferência das Nações Unidas sobre alterações climáticas no coração da Amazónia. Há simbolismos que falam por si. Enquanto o mundo se reunia num dos ecossistemas mais ameaçados do planeta, Portugal apresentava metas reforçadas, financiamentos robustos e uma ambição climática que, no papel, parece sólida. Ainda assim, ao ouvir a intervenção da Ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça de Carvalho, fica a impressão de que continuamos a recorrer a instrumentos tradicionais, quando o desafio climático exige abordagens mais participativas e integradas.
Portugal anuncia contributos financeiros relevantes, 1 milhão de euros para o Fundo de Adaptação, 200 mil para atividades da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas e 1,5 milhões para o Núcleo Lusófono para a Transparência, a par de 345 milhões destinados a infraestruturas essenciais, como a dessalinizadora do Algarve, a captação do Pomarão e a Barragem do Pisão, bem como 60 milhões para a prevenção de cheias e inundações.
São contributos significativos, mas persiste uma questão essencial: como garantir que esta ambição financeira será acompanhada por processos de participação mais robustos? Portugal tem feito progressos importantes, mas é fundamental assegurar que quem vive e conhece o território está plenamente integrado na construção das soluções climáticas.
A Ministra recordou que Portugal é um dos países europeus mais afetados pelas alterações climáticas. Falou de inventários, contabilização, monitorização e políticas baseadas em evidência. Tudo necessário. Mas falta responder à pergunta central: onde estão as comunidades neste processo? Quem participa na definição das políticas de mitigação, da gestão florestal, da adaptação local, da estratégia hídrica?
A ciência é indispensável, mas não chega. É crucial integrar o conhecimento técnico-científico com o saber local, o dos agricultores, gestores de paisagem, bombeiros voluntários, associações e organizações de inovação social. São estes atores que acumulam décadas de experiência prática sobre solos, água, biodiversidade e fogos. Sabem onde arde, por que arde e o que poderia deixar de arder. E, no entanto, continuam demasiadas vezes afastados das decisões que moldam o destino dos seus territórios.
Portugal mantém uma visão centralizadora que vê as comunidades como beneficiárias, quando deveriam ser cocriadoras. KPIs, dashboards e megaprojetos energéticos só têm impacto quando alinhados com a realidade local.
A inovação social pode, e deve, ser a ponte entre governo e território. É através dela que se criam mecanismos de cocriação de políticas, se testam soluções locais com potencial de escala, se integram prioridades e necessidades concretas das comunidades e se garante que o clima não é apenas um tema técnico, mas humano.
Proteger a floresta é mais do que plantar árvores; adaptar o país é mais do que construir infraestruturas; enfrentar a crise climática é mais do que anunciar milhões. Exige ouvir quem vive o território. Integrar o saber local com o conhecimento técnico-científico não é um detalhe: é a condição para termos políticas climáticas sérias, eficazes e sustentáveis.
O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.