A National Geographic define civilização como algo mais do que tecnologia ou monumentos: é a forma como uma sociedade organiza as suas prioridades, distribui os seus recursos e cuida das suas populações.
Quatro astronautas partiram a bordo da missão Artemis II numa viagem que nenhum ser humano tinha feito em mais de meio século. O programa, financiado por verbas públicas americanas e contratos com empresas privadas como a SpaceX, deverá ultrapassar os 100 mil milhões de dólares. É um marco civilizacional genuíno, a prova de que quando existe vontade política e investimento intencional, a humanidade resolve problemas de complexidade extraordinária. É também, por essa razão, o espelho mais incómodo que a nossa época nos poderia oferecer.
Em janeiro de 2025, a administração Trump desmantelou a USAID, a agência americana de ajuda ao desenvolvimento criada por Kennedy em 1961, cancelando 90% dos contratos e encerrando a infraestrutura que financiou cerca de 47% de toda a ajuda humanitária global por menos de 1% do orçamento federal, 105 dólares por cidadão americano por ano.
O impacto foi imediato e concreto: clínicas de VIH em África fecharam, a interrupção do fornecimento de água potável na República Democrática do Congo desencadeou um aumento de 361% nos casos de cólera em 2025, e um estudo projeta 9,4 milhões de mortes adicionais até 2030. A USAID financiou também o planeta. Em 2023, destinou 375 milhões de dólares a projetos de biodiversidade em 60 países, do Congo ao Mekong, tudo interrompido da noite para o dia.
Uma questão de prioridades, não de recursos
O Programa Alimentar Mundial da ONU, antes de ser afetado pelos cortes americanos, custava cerca de 10 mil milhões de dólares por ano e beneficiava mais de 150 milhões de pessoas em mais de 120 países. O programa Artemis custa mais de 100 mil milhões no total. Com esse valor, o Programa Alimentar Mundial poderia ser financiado na íntegra durante uma década.
Não é um argumento contra a exploração espacial, a ciência ou o progresso tecnológico, é uma pergunta sobre proporcionalidade. Em 2024, o mundo gastou 2,7 bilhões de dólares em despesas militares, um valor que cresceu todos os anos na última década. A ajuda humanitária global totalizou 25 mil milhões. As Nações Unidas estimam que erradicar a fome mundial até 2030 custaria 93 mil milhões de dólares por ano. Menos de 1% das despesas militares globais.
A proposta orçamental da administração Trump para 2027 torna a lógica ainda mais explícita: corta o orçamento da NASA em 5,6 mil milhões de dólares, elimina dezenas de missões científicas e encerra programas educativos, mas aumenta o financiamento das missões lunares para 8,5 mil milhões de dólares. O que se preserva não é o conhecimento: é a presença, a projeção de poder num novo espaço de competição geopolítica.
A grandeza que escolhemos
A contradição que atravessa 2026 não é acidental: somos a civilização que mobilizou décadas de engenharia e recursos públicos para orbitar a Lua, e que na mesma época optou por desmantelar a infraestrutura que, segundo investigadores do Centro para o Desenvolvimento Global, reduziu a mortalidade infantil e adulta em países de baixo rendimento nas últimas duas décadas, e cujo Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da AIDS, salvou mais de 25 milhões de vidas desde 2003. Não programas de caridade, mas investimentos em capital humano e estabilidade global, cortados não por falta de meios, mas por escolha. A questão não é se a humanidade tem capacidade para resolver os seus problemas, a missão Artemis demonstra que tem. A questão é para onde dirige essa capacidade e o que essa direção revela sobre os valores que, na prática, uma civilização decide preservar.
Para a filantropia estratégica e a inovação social, este momento não é apenas um choque, é um diagnóstico. O que ficou exposto não foi apenas uma lacuna de financiamento, foi a fragilidade de estruturas que dependem da vontade política de um único país e obriga a repensar o que significa construir impacto de forma verdadeiramente sistémica e duradoura. O que ficou a descoberto não foi só uma lacuna de financiamento: foi a ausência de uma narrativa coletiva sobre o que vale proteger, independentemente de quem governa.
E é aqui que a pergunta se torna nossa. Uma civilização mede-se menos pelo que conquista e mais pelo que recusa abandonar. O que está em causa não é capacidade, é direção.
Se temos capacidade para planear o regresso à Lua, temos tudo o que é necessário para não deixar ninguém para trás. O que falta não é dinheiro nem tecnologia, é a decisão, repetida e sustentada, do que também merece ser tratado como uma missão civilizacional. Essa escolha ainda está por fazer.
O Observador associa-se aos Global ShapersLisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes da sociedade portuguesa. Ao longo dos próximos meses, irão partilhar com os leitores a visão para o futuro nacional e global, com base na sua experiência pessoal e profissional. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers, ainda que de forma não vinculativa.