Carlos Fernando Luís Maria Vítor nasceu em 28 de setembro de 1863, em Lisboa. Era primogénito de D. Luís (rei de Portugal há dois anos somente) e de D. Maria Pia de Saboia (filha de Vítor Manuel II, o unificador da Itália). O seu único irmão, D. Afonso Henriques Napoleão, nasceu em 1865. Os dois jovens tiveram uma esmerada educação, que incluiu algumas viagens pela Europa.
Em 1886, D. Carlos desposou Amélia de Orleãs, bisneta de Luís Filipe I, que tinha sido rei dos franceses, de 1830 a 1848. O casal teve três filhos, dos quais sobreviveram D. Luís Filipe (nascido em março de 1887) e D. Manuel II (dado à luz em 1889). Em dezembro de 1887, nasceu prematuramente D. Maria Ana, falecida com poucas horas de vida.
D. Carlos reinou 18 anos, de outubro de 1889 a fevereiro de 1908. Orgulhoso, por vezes altivo e exibicionista, adorava divertir-se na caça e cultivava os prazeres da mesa. Teve, ao que tudo indica, várias amantes. Muito inteligente e extremamente culto, foi um pintor e um oceanógrafo de grande mérito e em ambas as áreas pretendeu sempre ser visto como um profissional e não como um simples diletante.
D. Carlos numa fotografia de 1907.
Como rei, desenvolveu uma importante atividade a nível diplomático, visitando oficialmente vários países da Europa – Alemanha, Espanha, França e Reino Unido – e recebendo em Portugal diversos chefes de Estado estrangeiros, nomeadamente Afonso XIII, rei de Espanha, Eduardo VII, soberano do Reino Unido, Guilherme II, imperador da Alemanha, e Émile Loubet, presidente da República francesa.
O reinado de D. Carlos começou mal, com o Ultimatum inglês (1890), a crise financeira (1891) e uma bancarrota parcial do Estado (1892). A República chegou a ser proclamada no Porto, em 31 de janeiro de 1891, mas durou somente das sete às dez horas da manhã e foi uma aventura feita totalmente à revelia do Partido Republicano Português, não podendo de forma alguma ser considerada um ensaio do que aconteceu em outubro de 1910.
O rei procurou consolidar e aprofundar um sistema que vinha de trás, o de dois grandes partidos a quem fosse confiada, à vez, a tarefa de governar – o chamado rotativismo. Era a cópia do modelo inglês. Entre 1893 e 1906, D. Carlos reservou a chefia do governo para Hintze Ribeiro, líder do Partido Regenerador, e José Luciano de Castro, que estava à cabeça do Partido Progressista.
Em 1906, com o avolumar dos escândalos e a total descredibilização das duas grandes formações políticas, o monarca confiou o poder a João Franco, líder do recente e pequeno Partido Regenerador Liberal, que começou por governar com o apoio dos progressistas. Em maio de 1907, obteve do rei autorização para entrar em ditadura. Embora tal não constituísse qualquer novidade na monarquia constitucional (limitava-se a significar que as Cortes estavam temporariamente encerradas, o que acontecera com alguma frequência no século XIX), a opinião pública da época, sobretudo a lisboeta, extremamente politizada e hipercrítica, verberou a solução encontrada. Assim se criou de João Franco uma imagem de ferocidade que não corresponde de todo à verdade.
Praticamente desde o início do reinado de D. Carlos que se desenvolveu uma intensa campanha contra a família real, desencadeada por republicanos, mas também por monárquicos. Em livros, em jornais, em caricaturas ou simplesmente em conversas de café ou de rua, o rei, a sua mulher e a sua mãe foram sendo acusados de tudo o que se poderia imaginar: D. Carlos, gastador, mau marido, mau pai e péssimo rei. A rainha D. Amélia, beata e uma péssima influência para os filhos. A rainha D. Maria Pia, igualmente gastadora.
Assim se acentuou o desgaste e a erosão da instituição real, que, de resto, já vinha de trás, por exemplo com a ação dos progressistas contra o rei D. Luís de 1878-1879 e de 1883-1884, quando os regeneradores estiveram no poder. Tal nunca teve o necessário contraponto, uma campanha a favor da família real, como se fazia no Reino Unido. Ou seja, a dinastia de Bragança nunca dispôs de uma agenda de autopromoção e os sucessivos governos também ignoraram por completo a questão.
Durante a ditadura de João Franco, foi ganhando forma uma vaga conspirativa. Uns pretenderiam somente o afastamento de D. Carlos – havia uma corrente cortesã que defendia a subida ao trono do príncipe herdeiro, D. Luís Filipe –, outros a demissão de João Franco, outros ainda a proclamação da República. Os defensores desta última solução achavam-se cada vez mais ativos e agressivos, sobretudo em Lisboa, embora dentro do sistema vigente muitos continuassem a acreditar na pouca probabilidade de mudança de regime.
Em 28 de janeiro de 1908, fracassou uma tentativa revolucionária de contornos pouco claros, dirigida por republicanos, como Afonso Costa, João Chagas e Alexandre Braga, e por monárquicos, como o visconde da Ribeira Brava e José Maria de Alpoim. Três dias depois, D. Carlos assinou um decreto que previa o degredo para os que se achavam pronunciados em tribunal pelo crime de conspiração.
No primeiro dia de fevereiro desse mesmo ano, com as tensões políticas ao rubro, D. Carlos e D. Luís Filipe foram assassinados na esquina do Terreiro do Paço com a Rua do Arsenal. O rei sofreu quatro tiros, um dos quais lhe foi fatal, provocando uma hemorragia por rotura da artéria carótida primitiva esquerda. D. Luís Filipe foi alvejado duas vezes, uma delas no lado esquerdo da face. A bala fraturou a base do crânio e saiu pela nuca, provocando lesões traumáticas graves nas meninges, levando-o à morte.
D. Carlos tinha 44 anos, estava obeso e precocemente envelhecido, sofrendo de diabetes. Foi pouco chorado, pelo menos pelos lisboetas politizados e habituados a vê-lo como a raiz de todos os males. A monarquia ainda durou dois anos, cingindo a Coroa D. Manuel II, o filho mais novo do rei assassinado.
Nos anos que se seguiram ao regicídio, houve pouco interesse em apurar responsabilidades, até porque se sabia ou se suspeitava do envolvimento de monárquicos. Segundo Rui Ramos, apenas se consegue provar a existência de um grupo de revolucionários armados que, tendo como interlocutores o Partido Republicano Português e a Dissidência Progressista – um pequeno partido monárquico, que havia sido criado em 1905 por José Maria de Alpoim –, recebeu a incumbência de um assassínio político. Ignora-se se a decisão de matar D. Carlos foi tomada em reunião desse grupo, o que é pouco provável, ou mesmo se teria sido dada ordem explícita para levar a efeito o crime.
Se, na época, foram comuns os assassínios de Chefes de Estado – relembrem-se os casos de Sidi Carnot, presidente da República francesa (1894), de Humberto I, rei de Itália (1900) e de William McKinley, presidente dos Estados Unidos da América (1901) – não é menos verdade que o que aconteceu em Lisboa no primeiro dia de fevereiro de 1908 foi um crime, que vitimou um dos reis mais cultos de sempre da história de Portugal e um príncipe que, nos seus 20 anos, nada tinha que ver com as opções políticas tomadas pelo pai.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]