Aquele que viria a reinar com o nome de D. João VI nasceu na “real barraca da Ajuda” a 13 de maio de 1767, no reinado de seu avô materno, D. José I. Era filho da princesa herdeira e de seu marido e tio, os futuros reis D. Maria I e D. Pedro III. Tinha um irmão mais velho, D. José, e algumas fontes sugerem que era o preferido dos pais. Modelarmente educado, foi desenvolvendo, ao longo dos anos, o gosto pela caça e, a um outro nível, pela música sacra.
Em março de 1785, D. João casou com uma neta de Carlos III, rei de Espanha, Carlota Joaquina. O casal gerou nove filhos, Maria Teresa (1793), António (1795) – o único que não chegou a idade adulta – , Maria Isabel (1797), Pedro (1798), Maria Francisca (1800), Isabel Maria (1801), Miguel (1802), Maria da Assunção (1805) e Ana de Jesus Maria (1806).
Em setembro de 1788, em virtude da morte, por varíola, do príncipe D. José, D. João tornou-se herdeiro da Coroa. Como tal, usou doravante o título de príncipe do Brasil. Em fevereiro de 1792, na sequência de um transtorno mental de D. Maria I, provavelmente depressão profunda seguida de demência, D. João, prestes a completar 25 anos, assumiu o poder, ainda que de forma informal. Em julho de 1799, quando se verificou que o estado de saúde da rainha era irreversível, a regência passou a ser efetiva.
A situação internacional era então algo preocupante. Em França, a jovem república proclamada em 1792 estava empenhada numa política expansionista e avolumaram-se os receios de vários Estados europeus, incluindo Portugal. Em 1793, a campanha do Rossilhão, integrada na primeira coligação contra a França, mobilizou os súbditos do príncipe regente D. João. A partir de 1795, a Espanha foi-se aproximando da França. Em 1801, ocorreu, entre os dois países ibéricos, a “Guerra das Laranjas”, que se saldou pela perda definitiva de Olivença por parte de Portugal.
Internamente, ocorreram os motins de Campo de Ourique (1803) e a conspiração de Mafra ou dos fidalgos (1805), que espelharam cisões e tensões na sociedade portuguesa e, no segundo caso, as ambições políticas de D. Carlota Joaquina, que terá procurado substituir o marido como regente. O afastamento entre os esposos acentuou-se.
Em 1806, Napoleão Bonaparte – no poder em França desde 1799 – procurou isolar o Reino Unido, e decretou o bloqueio continental, exigindo a adesão portuguesa. No ano seguinte, França e Espanha assinaram o Tratado de Fontainebleau, prevendo uma partilha futura de Portugal. Era eminente a invasão do país às ordens de Napoleão.
Em novembro de 1807 – quando os exércitos franceses e espanhóis, comandados pelo general Junot já tinham entrado em Portugal – , a corte foi transferida para o Brasil. A opção salvaguardou a realeza e a dinastia, evitando situações como as que ocorreram na Áustria e em Espanha, cujos soberanos ficaram prisoneiros de Napoleão.
D. João e a sua família desembarcaram no Rio de Janeiro a 7 de março de 1808. Pela primeira vez na história um território ultramarino era sede de uma monarquia europeia.
Os franceses dominaram Portugal entre novembro de 1807 e agosto de 1808, quando lhes foi imposta a expulsão, em virtude da intervenção militar britânica e da reação portuguesa. Seguiram-se outras invasões às ordens de Napoleão (fevereiro-maio de 1809 e julho de 1810-março de 1811), mas o desfecho acabou por lhe ser desfavorável.
A 15 de dezembro de 1815, o príncipe regente criou o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Em março de 1816, ocorreu a morte de D. Maria I e o filho, que já governava há quase um quarto de século, subiu ao trono com o nome de D. João VI e foi solenemente proclamado em fevereiro de 1818, no Rio de Janeiro. Pela primeira vez, o continente americano assistia à aclamação de um soberano europeu.
Entretanto, apesar de Napoleão ter sido derrotado definitivamente (1815), tendo a paz regressado à Europa, D. João VI parecia não ter intenções de deixar o continente americano. Cada vez parecia mais que os papéis se invertiam e que Portugal era agora a colónia do Brasil.
Em abril de 1821, na sequência da implantação, no ano anterior, de um regime liberal em Portugal, D. João VI deixou o Brasil, onde ficou, como regente, o filho primogénito, D. Pedro. Chegado a Lisboa em julho, o rei, sempre receoso e cauteloso, decidiu colaborar com as autoridades liberais e, em outubro de 1822, jurou a Constituição acabada de promulgar.
Mas a situação política rapidamente se alterou, com os golpes da Vilafrancada (27 de maio de 1823) e da Abrilada (30 de abril de 1824), comandados por D. Miguel, o filho mais novo de D. João VI, e inspirados por D. Carlota Joaquina, que puseram fim à primeira experiência liberal portuguesa. O rei governou os derradeiros anos com o equilíbrio, a tolerância e a moderação que sempre o caraterizaram.
D. João VI em 1825, numa gravura de Manuel António de Castro (Pinacoteca de São Paulo).
O problema do Brasil colocava-se praticamente desde a saída de D. João VI. Considerando inaceitáveis as determinações vindas de Lisboa, o reino sul-americano foi caminhando para a independência. D. Pedro assumiu a dianteira dos descontentes, aceitando o título, que lhe foi dado pelo Senado do Rio de Janeiro, de Defensor Perpétuo do Brasil (maio) e assinando um importante manifesto, que, na prática, correspondeu a uma declaração de independência (agosto). A 12 de outubro, foi aclamado imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil com o nome de D. Pedro I. No primeiro dia de dezembro, foi sagrado e coroado.
Só em agosto de 1825 é que Portugal reconheceu a independência do antigo território colonial. D. João VI passou a poder usar o título de imperador do Brasil, a par com D. Pedro I. Morreu a 10 de março de 1826, a escassos dois meses de completar 59 anos, não sendo de afastar a hipótese de envenenamento por arsénico.
D. João VI foi um homem de estatura mediana, obeso e flácido, provavelmente sem quaisquer atrativos sob o ponto de vista físico. Esteve frequentemente doente, em 1789 escapou à morte por varíola e foi depois atormentado por úlceras nas pernas. Por outro lado, várias vezes padeceu depressões.
Governou Portugal durante 34 anos, dos quais somente 10 como rei. Bondoso, pacífico e tímido e, ao mesmo tempo, inteligente e perspicaz, dedicou-se com afinco às múltiplas tarefas da governação. Era cioso da sua posição e ciumento do poder. Soube quase sempre rodear-se de colaboradores competentes, nomeadamente D. Rodrigo de Sousa Coutinho, conde de Linhares, e António Araújo de Azevedo, conde da Barca, mas, acaso por ter na memória o que fora a gestão do marquês de Pombal, travou sempre o aparecimento de validos.
A sua gestão coincidiu com alguns dos momentos mais difíceis da história de Portugal, mas conseguiu, com enorme prudência e equilíbrio, salvaguardar a instituição que durante três décadas representou. Em março de 1822 escreveu, em carta ao filho D. Pedro: “regularás a tua conduta conforme as circunstâncias em que te achares, regulando tudo com toda a prudência e cautela”. Acaso se poderá considerar que tal constituiu o lema da sua ação política.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]