Quem observa o setor com honestidade intelectual percebe que o “massacre” ao Instituto Nacional de Emergência Médica não é apenas injusto; é uma cortina de fumo que esconde falhas sistémicas profundas na gestão hospitalar e no Ministério da Saúde.

O INEM como Gestor, não como “Transportadora”

É urgente clarificar o que muitos teimam em ignorar: a missão fundamental do INEM, conforme vertido no espírito da lei e nas suas competências no Diário da República, é a gestão do Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM). O INEM deve ser, acima de tudo, o cérebro que coordena os CODU (Centros de Orientação de Doentes Urgentes) e garante que o socorro chega onde é preciso.

A visão moderna do Instituto — de se afastar da posse direta de meios e focar-se na coordenação — é o caminho certo. A emergência médica deve ser medicalizada, com médicos e enfermeiros no topo da pirâmide do planeamento e da assistência diferenciada (reforçando as VMER e, crucialmente, a rede SIV).

O Ruído dos TEPH e o Centralismo Urbano

Neste cenário, assistimos a uma reação corporativa e, muitas vezes, destrutiva por parte do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (TEPH). Na tentativa de se autoafirmarem, procuram descredibilizar qualquer tentativa de evolução do sistema.

É necessário um banho de pragmatismo:

  • As ambulâncias tripuladas por TEPH concentram-se quase exclusivamente em centros urbanos, onde a resposta diferenciada já é robusta.
  • O verdadeiro desafio está no Portugal esquecido. É nos locais remotos que precisamos que o tripulante da ambulância dos Bombeiros ou da Cruz Vermelha tenha protocolos validados e ferramentas de estabilização avançadas.
  • Porque é que o Sindicato dos TEPH se apressou a criticar o modelo de excelência implementado pelo atual Presidente do INEM nos Açores, cujos resultados são públicos e validados? A resposta é simples: o interesse corporativo parece sobrepor-se ao interesse do doente.

O Escândalo das Macas: A Verdadeira Causa das Mortes

Recentemente, fomos confrontados com a tragédia da perda de vidas por falta de ambulâncias disponíveis. A comunicação social apontou o dedo ao INEM. Mas onde estava o problema? Nas Urgências das Unidades Locais de Saúde (ULS).

O cenário é dantesco e repete-se há anos: as ambulâncias ficam retidas horas a fio à porta dos hospitais porque os serviços de urgência não devolvem as macas de transporte. Sem maca, a ambulância é um veículo inútil; está fora de serviço.

  • A responsabilidade por este bloqueio é exclusiva das ULS.
  • Falta preparação, falta planeamento e falta respeito pelo socorro pré-hospitalar.

Assistimos anualmente à apresentação de “Planos de Resposta Sazonal” com designs modernos, dashboards coloridos e terminologia inovadora. A Direção Executiva do SNS aprova a estética, mas a prática é uma mão cheia de nada. São documentos de relações-públicas que ignoram a realidade das ambulâncias imobilizadas no asfalto dos hospitais.

É Tempo de Decisões, Não de “Poleiros”

O INEM identifica o problema. A Liga dos Bombeiros identifica o problema. Mas as ULS e a tutela continuam a olhar para o lado.

Se queremos deixar de massacrar o INEM e passar a salvar vidas, a mudança tem de ocorrer na Direção Executiva e no Ministério. Precisamos de equipas com visão técnica e capacidade de execução, e não de militantes partidários que utilizam a saúde como trampolim para o próximo “poleiro”.

A emergência médica não pode ser gerida com base no ruído sindical ou no marketing hospitalar. Deixem o INEM gerir o sistema, obriguem as ULS a libertar as macas e devolvam a primazia ao critério clínico e científico. O resto é ruído. E o ruído mata.