O Império Otomano, que durou do início do século XIV até ao início do século XX, foi uma grande potência global que teve um impacto significativo em várias regiões do mundo, incluindo em África. Os laços do Império Otomano com África remontam às suas origens e continuaram ao longo de sua história até ao seu colapso no final da I guerra mundial.
O interesse do Império Otomano em África começou com a sua expansão para o Egipto em 1517. Os otomanos viam o Egipto como uma porta de entrada vital para o comércio com o resto de África e o Oceano Índico. Os otomanos também expandiram a sua presença ao longo da costa africana, estabelecendo entrepostos comerciais e fortalezas em diferentes geografias como a Tunísia, a Argélia, o Egipto, o Sudão e a Líbia. Esses esforços deram aos otomanos uma posição significativa no Norte da África, que mantiveram por vários séculos.
Um dos laços culturais mais significativos entre os otomanos e o continente africano foi através do Islão. O Islão era uma parte significativa da identidade otomana, e os otomanos estavam empenhados em espalhar a religião por todo o mundo. Em África, o Império Otomano desempenhou um papel significativo na disseminação do Islão, construindo mesquitas e madraças (escolas corânicas) e enviando estudiosos e pregadores muçulmanos ao continente para espalhar a sua fé. Como resultado, o Islão tornou-se uma parte essencial de muitas culturas africanas, particularmente no Norte e no Oriente africanos.
O Império Otomano também teve um impacto económico significativo em África. Comerciantes otomanos estabeleceram extensas redes comerciais em todo o continente, particularmente no Norte de África. Eles comercializavam mercadorias como têxteis, especiarias e ouro e facilitavam a troca de ideias e tecnologias entre o continente africano e o Império Otomano. Os otomanos também estabeleceram uma rede de comércio de escravos, que envolvia a captura e transporte de escravos africanos para o Império Otomano, onde eram usados como empregados domésticos e soldados (mamelucos).
Em meados do séc. XVI, a presença portuguesa na Índia, na África Oriental, no Golfo Pérsico e no Mar Vermelho ameaçava o Império Otomano, quer em termos geoestratégicos, quer em termos económicos. Relativamente à questão militar, os portugueses, ao terem flanqueado o Império Otomano com a abertura do caminho marítimo para a Índia, em 1498, abriram uma nova frente de combate ao império da Sublime Porta, através do Oceano Índico e da África Oriental. Os cristãos encontravam-se agora no Mediterrâneo e, também, no Oceano Índico, ameaçando a rectaguarda otomana e as lucrativas rotas comerciais no Mar Vermelho, Golfo de Áden, Golfo Pérsico e Oceano Índico. Como nos relata Edgar Pereira:
“Após a viagem de Vasco da Gama, foi aberta uma artéria transcontinental que ligou directamente os dois extremos da Eurásia pela passagem do Cabo da Boa Esperança, pela designada «rota do cabo». Daí em diante, a dependência das economias europeias da fachada atlântica de intermediários do Mediterrâneo e do Levante, para obterem os bens de consumo provenientes da Ásia, foi superada. (…) Os navios da linha equipados pela Coroa portuguesa asseguraram o transporte intercontinental de especiarias, têxteis, porcelanas, cerâmicas, pedras preciosas, búzios e salitre.”
Nesse enquadramento, Solimão o Magnífico (1520-1566) decide enviar esquadras através do Mar Vermelho para combater os cristãos Portugueses, ao que Dom João III (1521-1557) riposta, através do estabelecimento de alianças com potentados locais na Índia e na Abissínia. Também em termos económicos, como já vimos, os Portugueses desferiram um rude golpe nas finanças Otomanas, dado que o comércio das especiarias foi desviado da rota terrestre, através da Península Arábica, para a rota marítima, circum-navegando África e chegando a Lisboa. Solimão o Magnífico chega a enviar uma carta a Dom João III propondo a compra directa de pimenta e outras especiarias para serem entregues ao governador Otomano de Áden, como escreve Pius Malekandathil:
“Nessa situação que tinha mudado, Solimão, o Magnífico, havia sugerido ao rei português D. João III, através de uma carta datada de 28 de Maio de 1544, que estava disposto a comprar 2000 quilogramas de pimenta e outras especiarias aos Portugueses para serem entregues ao governador otomano em Áden. Este pedido pode ter sido feito para garantir o fornecimento regular de especiarias no Mediterrâneo e para sustentar o comércio veneziano. Porém esse sonho não foi realizado.” (Tradução do autor).
A confrontação entre Otomanos e Portugueses na África Oriental dar-se-á, sobretudo, no Corno de África e costas do Mar Vermelho. A campanha do Suez (1541), liderada por Estevão da Gama, tinha como objectivo destruir a esquadra Otomana, mas não logrou os seus objectivos. Contudo, aportou em Massawa (na actual Eritreia), respondendo ao apelo do império cristão da Etiópia (o famoso Preste João), que estava a ser atacado por forças islâmicas, ligadas aos otomanos. Esta campanha (a campanha da Etiópia, 1541-1543) conhece várias batalhas, onde numa delas (a batalha de Wofla) os portugueses e seus aliados são derrotados, sendo Cristóvão da Gama (irmão de Estevão da Gama e ambos filhos de Vasco da Gama) capturado e posteriormente executado. Porém, as forças etíopes e os seus aliados portugueses conseguem reagrupar-se e vencem a batalha de Wayna Daga, pondo fim à guerra e conseguindo que o Reino cristão da Etiópia perdurasse.
Esta disputa entre os impérios Português e Otomano terminará, de alguma maneira, por ter o seu epílogo, em Alcácer Quibir, em 1578, onde o rei português Dom Sebastião acabará por ser derrotado e morrer, conduzindo esse episódio à posterior dominação Filipina e à perda da independência, que só será restaurada em 1640. Também nessa batalha se dá um confronto, em África, entre forças portuguesas e forças aliadas do Império Otomano, que já dominava todo o Norte de África com excepção de Marrocos. O objectivo de Dom Sebastião era precisamente impedir esse desiderato, dado que as forças Otomanas tinham reconquistado Túnis em 1574.
A ironia da história fará com que os Otomanos, que tinham perdido às mãos dos Portugueses o lucrativo comércio das especiarias e posições geoestratégicas no Oceano Índico, Golfo Pérsico e África Oriental, se vissem agora “vingados” no Norte de África às portas do Atlântico.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]