Vivemos numa sociedade onde, compreensivelmente, é mais fácil escrever quando as coisas correm mal. Quando há falhas, atrasos ou erros, surgem notícias, comentários, indignação e críticas. E muitas vezes essas críticas são legítimas.
Porém, raramente paramos para reconhecer quando as coisas correm bem. Quando existem equipas que funcionam. Equipas que salvam vidas todos os dias sem procurar reconhecimento. Equipas que trabalham sob enorme pressão e que, ainda assim, conseguem manter humanidade, foco e profissionalismo.
Foi isso que a minha família encontrou no Hospital Prof. Dr. Fernando da Fonseca (Amadora Sintra).
A nossa filha nasceu com complicações graves num hospital privado. E foi precisamente nesse momento que percebemos uma realidade que, felizmente, talvez muitas pessoas desconheçam: quando os casos são verdadeiramente graves, complexos e exigem respostas altamente diferenciadas, é muitas vezes o SNS que tem a capacidade instalada, os meios técnicos e as equipas preparadas para responder.
A nossa filha teve de ser transportada de urgência para o Serviço de Neonatalogia do Hospital Prof. Dr. Fernando da Fonseca através de uma ambulância do INEM de Transporte Inter-hospitalar Pediátrico. Mais tarde percebemos que existem apenas quatro ambulâncias deste tipo em Portugal — e tivemos a sorte de ser acompanhados por uma delas, sediada no Hospital de Santa Maria, a quem também deixamos um profundo agradecimento pela competência, rapidez e profissionalismo demonstrados naquele momento tão crítico.
Foi precisamente aí que percebemos a dimensão humana e técnica do Serviço Nacional de Saúde. Quando as coisas apertam verdadeiramente, quando os casos são raros, graves e exigem respostas imediatas e altamente diferenciadas, existe uma estrutura preparada para responder.
E foi também aí que sentimos uma diferença humana muito marcante: No hospital privado, sentimos hesitação. Vimos a cara de pânico em médicos e enfermeiros, como se houvesse medo de nos dizer exatamente o que se estava a passar. Conversas difíceis pareceram querer ser evitadas, palavras escolhidas com excesso de cuidado, um silêncio na sala de recobro que aumenta ainda mais a ansiedade de quem estava do outro lado, mesmo que exigindo explicações do que se estava a passar. Até hoje, passadas mais de 2 semanas deste episódio, ainda não houve qualquer resposta institucional sobre o que terá acontecido nem que esforços e diligências estão a fazer para perceber o que se passa. E isso marca.
No público encontrámos o contrário.
Encontrámos profissionais que falavam connosco de forma clara, frontal e transparente. Sem rodeios, mas sempre com humanidade. Explicavam-nos os riscos, os cenários possíveis, o que estava a correr bem e o que podia correr mal.
Essa honestidade trouxe-nos muito mais segurança e confiança.
Porque, quando estamos perante situações verdadeiramente graves, o que uma família precisa não é de falsas esperanças nem de frases vagas. Precisa de verdade. Precisa de sentir que está nas mãos de pessoas competentes e seguras daquilo que estão a fazer.
E foi exatamente isso que sentimos.
O que encontrámos foi uma equipa extraordinária.
E não extraordinária apenas pela competência técnica — que era evidente — mas pela forma como trabalhavam em conjunto. Via-se coordenação, experiência e preparação. Via-se uma equipa motivada, uma equipa que gostava genuinamente do que fazia e pronta para agir a qualquer momento. Quantas vezes ouvimos o telefone do Serviço a tocar e um Médico a dizer “é uma cesariana, vou lá ajudar”.
Tudo parecia funcionar de forma quase silenciosa, natural e afinada. Uma Equipa bem oleada, onde cada um sabe o seu papel, habituada a lidar com situações críticas sem perder o controlo, sem transmitir pânico e sem nunca deixar de lado a componente humana mostrando disponibilidade em responder a todas as questões dos Pais cujos filhos lá se encontram.
Num dos momentos mais difíceis da nossa vida, encontrámos Médicos, Enfermeiros e Auxiliares capazes de equilibrar ciência e empatia de uma forma impressionante. Souberam dizer-nos palavras duras quando tinham de ser ditas. Souberam preparar-nos para cenários difíceis. Mas também souberam celebrar connosco cada pequena vitória, cada melhoria, cada passo positivo da nossa filha.
Uma vez que, nestes momentos mais difíceis, é difícil sair do loop mais triste, não nos podemos também esquecer de mencionar os Drs. Palhaços, da Operação Nariz Vermelho, que, todas as terças e quintas feiras, apareciam naquela Unidade para proporcionar um saudável momento de espairecimento e de sorrisos tranquilos aos Pais que ali estavam.
E é impossível escrever este texto sem falar também de outro detalhe que nos marcou profundamente: no meio de toda esta exigência e responsabilidade, aquela equipa conseguia ainda integrar estagiários e jovens profissionais em aprendizagem. Víamos pessoas a aprender no terreno, acompanhadas com calma, respeito e espírito de equipa, mas também com autonomia vigiada e controlada, que lhes permitia desenvolver pensamento crítico, tomar decisões acompanhadas e crescer profissionalmente num ambiente seguro e exigente ao mesmo tempo.
Porque os melhores exemplos não se ensinam apenas nos livros ou nas faculdades. Vivem-se.
Num tempo em que tantas vezes se fala do Serviço Nacional de Saúde apenas pelos seus problemas, sentimos necessidade de escrever também sobre aquilo que funciona. Sobre aquilo que merece reconhecimento.
O Hospital Prof. Dr. Fernando da Fonseca foi, para nós, muito mais do que as manchetes que tantas vezes o definem.
Foi o lugar onde salvaram a nossa filha. Foi o lugar onde encontramos profissionais extraordinários. Foi o lugar onde percebemos que existem equipas no SNS ao mais alto nível.
E isso, nunca esqueceremos.