A escola moderna, tal qual como a conhecemos, obrigatória e massificada, nasce com a Revolução Industrial. Era preciso ter pessoas trabalhadoras que soubessem ler e escrever, fazer contas, seguir instruções e cumprir regras. Foi neste contexto que surgiram os sistemas públicos de educação, com horários definidos, currículos estruturados, e salas com crianças organizadas por idade. Promover a literacia, isto é, saber ler, escrever e contar, era, então, a grande missão da escola.

Com o passar do tempo, a sociedade mudou. O mundo tornou-se mais complexo, tecnológico e desigual. Isto tem exigido da escola uma nova missão, a de ensinar a pensar – nutrir nas crianças a capacidade de fazer perguntas, pensar criticamente, distinguir factos de opiniões, reconhecer vieses, analisar dados, interpretar informações e tomar decisões informadas.

Ensinar a pensar implica desenvolver competências que são, na verdade, a base da literacia científica. Hoje, a grande missão da escola é, portanto, promover a literacia científica – porque ter muita literacia científica não é saber fórmulas, decorar leis da física ou conhecer anatomia; é ter a capacidade de compreender, interrogar e avaliar conceitos, ajudando as pessoas a navegar com mais confiança um mundo saturado de informação e cheio incerteza.

Apesar de ser tão essencial como saber ler e escrever, a literacia científica está profundamente subestimada — no dia a dia, nas escolas, nas empresas e nas políticas públicas.

Uma pessoa com elevada literacia científica não é alguém que sabe tudo e tem certezas absolutas. Por outro lado, uma pessoa com baixa literacia científica não é alguém que sabe pouco sobre ciência. É alguém que tem dificuldade em compreender informação relacionada com a saúde, o ambiente ou a tecnologia; que está mais suscetível à desinformação, ao alarmismo e às teorias da conspiração; que mais facilmente toma decisões mal informadas, baseadas em crenças e não em evidências; e que está menos preparada para mudanças no mercado de trabalho.

E isto não é um problema individual — é coletivo. Sociedades com pouca literacia científica são mais vulneráveis, menos inovadoras, e menos coesas.

No debate público sobre literacias — financeira, digital, climática, política — há um elemento comum raramente referido: a literacia científica como base fundamental que torna todas as outras mais fortes.

Saber gerir um orçamento, comparar taxas de juro ou planear investimentos é fundamental. Mas sem literacia científica, uma pessoa pode interpretar mal estatísticas, ser facilmente manipulada por dados apresentados de forma enganosa, reagir impulsivamente a tendências ou não compreender fatores sistémicos que influenciam a economia.

A literacia científica — porque envolve curiosidade, pensamento crítico e análise — reforça todas as outras literacias que consideramos essenciais para uma vida ativa, participativa, saudável e sustentável. Num século marcado por pandemias, inteligência artificial, e alterações climáticas, é difícil imaginar uma competência mais necessária.

Uma estratégia nacional para a literacia científica

Portugal conhece bem os efeitos da baixa literacia científica: debates públicos que se transformam em guerras de opiniões, políticas contestadas com base em palpites, e crises amplificadas por interpretações erradas de gráficos, modelos ou tendências.

Promover a literacia científica não é transformar toda a gente em cientista. É dar às pessoas ferramentas para pensar melhor e, por consequência, agir melhor e viver melhor. Ensinar ciência não é transmitir conteúdos curriculares – é criar condições para que cada criança e jovem entenda o mundo que a rodeia, desenvolva pensamento crítico e cultive o prazer de fazer perguntas.

A ciência não oferece certezas absolutas, mas ensina algo muito valioso: a compreender probabilidades, aceitar margens de erro, verificar fontes em vez de seguir tendências, distinguir correlação de causalidade e atualizar opiniões quando surge nova evidência. Esta forma de pensar reduz a polarização, porque nos habitua à dúvida, à nuance e ao diálogo, e melhora decisões individuais e discussões públicas. Num mundo onde a informação circula mais rápido do que a nossa capacidade de a verificar, a literacia científica ajuda-nos a lidar com a incerteza e a complexidade.

Portugal já percebeu que precisa de reforçar literacias fundamentais, mas ainda não tem um plano estratégico para a literacia científica – que é alicerce de todas as outras. Um país com elevada literacia científica é um país mais preparado, mais inovador e mais competitivo.

Priorizar o “ensinar a pensar” é investir em pessoas, em comunidades e no futuro. A questão não é se devemos investir em literacia científica. É se podemos permitir-nos não o fazer.

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.