A dependência energética externa caiu de 89% em 2005 para 78% em 2015 e cerca de 65% recentemente. Mas 65% continua a ser demasiado. A Agência Internacional de Energia lembra que, em 2024, os combustíveis fósseis ainda representavam 55% do consumo final de energia e que a sua procura aumentou 2,9% entre 2015 e 2024, sobretudo por via do petróleo no transporte rodoviário. Precisaremos de petróleo e gás natural por muitos anos, mas abrandar a transição energética seria prolongar a nossa dependência externa.
Entre 2015 e 2024, a estratégia energética portuguesa permitiu aumentar a quota renovável na geração elétrica de 48% para 87,5%. No mesmo período, o PIB real cresceu 21% e as emissões de gases com efeito de estufa caíram 21%. Portugal demonstrou que é possível crescer reduzindo emissões e reforçando a base renovável do sistema elétrico.
Devemos, por isso, manter o foco no essencial: eletrificar consumo, produzir mais energia endógena, reduzir custos de sistema e garantir segurança de abastecimento. Portugal tem sol, vento, água, resíduos e conhecimento. Quando bem integradas, as renováveis são uma opção sustentável, económica e estratégica.
O próximo salto já não está apenas na geração elétrica. Está também nos usos finais, transportes, edifícios e indústria, onde a eletrificação ainda tem caminho a percorrer. Em 2024, a eletricidade representava apenas 28% do consumo final de energia em Portugal, apesar de o sistema elétrico já ser maioritariamente renovável. O transporte continua muito dependente do petróleo importado, enquanto edifícios e indústria ainda usam gás e outros combustíveis para calor e processos. Por isso, eletrificar mobilidade, frotas, bombas de calor e calor industrial é decisivo para reduzir importações, reforçar segurança energética e baixar custos de sistema.
As frotas são uma alavanca crítica. O último estudo EY-Eurelectric estima que a eletrificação das frotas corporativas europeias pode gerar até 246 mil milhões de euros de poupanças operacionais acumuladas até 2030 e reduzir até mil milhões de toneladas de CO2. Para Portugal, isto significa menos petróleo importado, menor custo operacional e um futuro mercado de veículos elétricos usados mais acessível.
É também esse o sentido do recente anúncio do Governo: reduzir para metade, em oito a dez anos, a dependência dos combustíveis fósseis, através da eletrificação da economia, zonas de aceleração de renováveis, autoconsumo, gases renováveis, redes, armazenamento e licenciamentos mais céleres. A ambição existe, não nos podemos é desfocar da execução.
Não desperdiçar energia renovável, seja eletrão ou molécula, é fundamental. Para isso, redes de transporte e distribuição elétrica e o armazenamento tornam-se infraestruturas críticas. O estudo EY-Eurelectric Grids for Speed estima que o investimento anual europeu em redes de distribuição terá de quase duplicar, de 36 mil milhões para 67 mil milhões de euros por ano, podendo baixar para 55 mil milhões com investimento antecipatório, gestão avançada de ativos e flexibilidade. Sem redes, não há renováveis, autoconsumo, carregamento de frotas ou indústria verde. Do lado do armazenamento, a nossa análise aponta para que Portugal possa necessitar de 4 a 6 GW de baterias até 2030, pelo menos o dobro do valor inscrito no PNEC, para evitar 3 a 5 TWh de energia renovável potencialmente desperdiçada. Armazenar o eletrão renovável deixa, assim, de ser opcional, é condição de competitividade e segurança.
Portugal não precisa de escolher entre sustentabilidade, segurança e competitividade. Se alinharmos geração renovável, licenciamento, redes, mercados, armazenamento, frotas e consumidores, a energia deixará de ser apenas um custo e passará a ser uma vantagem competitiva para Portugal.
Este artigo foi publicado no âmbito do projeto Transformar Portugal, em parceria com a EY.