Recentemente, as universidades portuguesas foram informadas sobre o financiamento Erasmus que lhes será atribuído para o ano letivo 2025/2026. As notícias não são boas. O financiamento atribuído às Instituições de Ensino Superior para este tipo de mobilidade, é inferior ao número de candidatos.

O Programa Erasmus é um dos maiores símbolos da integração europeia. Desde 1987, mais de 13 milhões de estudantes viveram experiências únicas noutros países, estudando, convivendo e crescendo em ambientes culturais diversos. Esta mobilidade de média e longa duração é transformadora e deixa marcas profundas.

Contudo, nos últimos anos, a Comissão Europeia tem vindo a promover os Blended Intensive Programmes (BIPs), uma modalidade que mistura ensino virtual com uma curta mobilidade física, normalmente de apenas uma semana. Embora promovidos como mais inclusivos e sustentáveis, os BIPs estão a substituir — e não a complementar — a mobilidade tradicional.

Em 2023, foram realizados mais de 3.000 BIPs, com cerca de 60.000 estudantes. Por comparação, em 2022, o Erasmus tradicional envolveu 615.000 estudantes. O custo dos BIPs é bastante inferior, o que os torna financeiramente apelativos. Esta diferença está a levar muitas instituições a desviar fundos da mobilidade clássica para estas novas modalidades, que permitem “fazer mais com menos” e cumprir objetivos numéricos com menos investimento.

Na prática, os BIPs tornaram-se uma forma conveniente da Comissão Europeia inflacionar os números de mobilidade. Custam menos, são mais fáceis de organizar e projetam uma imagem de sucesso político. Mas esta engenharia estatística tem um custo real: estamos a trocar qualidade por quantidade. Os estudantes têm menos tempo para se adaptar, aprender a viver noutra cultura ou criar redes duradouras. O impacto formativo e humano é incomparavelmente inferior.

Sem debate público, a internacionalização está a tornar-se uma experiência light. A essência do Erasmus — tempo, imersão e transformação pessoal — está a ser substituída por mobilidades rápidas e superficiais. O Erasmus não pode ser reduzido a uma experiência virtual com uma semana de viagem. O que torna este programa especial é a profundidade da experiência: viver noutro país, integrar-se numa nova cultura, adaptar-se a novos métodos de ensino, sair da zona de conforto. Isto não se faz em cinco dias.

A Comissão Europeia deve reavaliar urgentemente o equilíbrio entre os BIPs e a mobilidade clássica. Os BIPs devem continuar a existir — mas como complemento estratégico e bem estruturado. Se continuarmos a apostar numa mobilidade light, corremos o risco de destruir uma das mais bem-sucedidas políticas europeias de sempre.

A Europa que inspira não se constrói com pressa, nem com atalhos. Constrói-se com experiências que mudam vidas — e nisso, o Erasmus tradicional continua a ser insubstituível.