A Ferrovia voltou a merecer lugar no debate público e a atenção dos decisores políticos. Tal como defendi no artigo “Ferrovia, regresso do futuro” discutir ferrovia significa discutir também mobilidade, coesão territorial e o ambiente. Para além disso, a ferrovia é também uma ferramenta e estratégia geopolítica capaz de unir nações e redefinir paradigmas.
O anúncio recente dos governos de Portugal e Espanha, se concretizado, representará uma mudança de paradigma na estratégia ibérica. As notícias publicadas descrevem um compromisso conjunto e histórico. O ministro das Infraestruturas e Habitação afirmou que este projeto é uma “ponte para o futuro da mobilidade sustentável e da coesão europeia”.
Os governos de Portugal e Espanha concluíram um plano que tem como propósito encurtar as viagens ferroviárias entre as duas capitais. Tendo em conta os dados divulgados, até à presente data, é possível depreender que este plano traduz-se numa redução expressiva do tempo de viagem. Em particular, o plano tem dois objetivos principais: ligar Lisboa a Madrid em cerca de 5 horas até 2030, e, a criação de uma linha de alta velocidade que permitirá fazer o trajeto em 3 horas até 2034.
Este projeto enquadra-se na necessidade de transferir passageiros e mercadorias para o modo ferroviário, a fim de cumprir a agenda 2030. A alta velocidade, ao reduzir o tempo de viagem para três horas, torna a opção ferroviária “verdadeiramente atrativa” em termos de sustentabilidade e eficiência.
O comissário responsável pelos Transportes Sustentáveis e Turismo, Apostolos Tzitzikostas, declarou: «Percorrer um pouco mais de 600 quilómetros de Lisboa a Madrid em apenas três horas constitui um exemplo notável do tipo de ligações ferroviárias de alta velocidade que pretendemos para toda a Europa. Com estas ligações, as viagens de comboio tornam-se alternativas verdadeiramente atrativas e sustentáveis para viajar entre cidades.»
A Comissão já apoiou a criação desta ligação ferroviária. Em Portugal, a nova linha ferroviária de alta velocidade entre Évora e Elvas recebeu 235 milhões de euros do Mecanismo Interligar a Europa. Do lado espanhol, vários fundos de investimento da UE, nomeadamente o FEDER e o MRR, disponibilizaram cerca de 750 milhões de euros para a linha de alta velocidade que liga a Estremadura a Madrid desde 2014.
Assim, este compromisso demonstra o empenho de Portugal na cooperação ao nível europeu e ibérico e, talvez ainda mais importante, a vontade simbólica de priorizar a ferrovia como ferramenta estratégica.
No entanto, o valor estratégico da linha será medido, em última instância, pela sua capacidade de beneficiar todo o território atravessado, em particular o Alentejo, em conformidade com os objetivos mais amplos de coesão europeia e de sustentabilidade.
Na minha opinião, além disso, este plano não é o substituto de uma estratégia nacional independente e duradoura. Considero que temos de priorizar a modernização das nossas vias, a melhoria da sua interoperabilidade e, principalmente, da sua ligação a centros logísticos e industriais do nosso país. Os diferentes projetos devem decorrer em paralelo e as diferentes metas devem ser alcançadas. É essencial que assim seja.
Devemos destacar ainda que o plano traçado é gradual e sequencial. Por isso, será fundamental a conclusão das etapas intermédias até 2030 para alcançar o resultado ambicionado, seguindo uma execução rigorosa e exigente. Historicamente, não faltam exemplos de projetos que não superaram este “teste do algodão”.
Em suma, o anúncio da ligação de Alta Velocidade entre Lisboa e Madrid constitui um imperativo geopolítico e logístico crucial para a integração de Portugal na Rede Transeuropeia de Transportes (RTE-T). Atingir as três horas em 2034 exigirá determinação e capacidade de execução. Os desafios supracitados são conhecidos e é tempo de passar das intenções às ações concretas e acelerar a construção do futuro ferroviário. O Comboio português precisa de estar verdadeiramente interligado com a Europa e o mundo, reafirmando o seu papel no futuro nacional.