O escritor, crítico, tradutor e estudioso turinês Giuseppe Baretti (1719-1789), viaja na companhia de Edward Southwell, Barão de Clifford, futuro membro do Parlamento, para Lisboa a partir de Falmouth, no dia 31 agosto de 1760. Da viagem resultarão dois livros: Lettere Familiari di Giuseppe Baretti A’ Suoi Tre Fratelli Tornando da Londra in Italia nel 1760 (vol. I, 1762; vol. II, 1763) e A Journey from London to Genoa Through England, Portugal, Spain and France (Londres, 1770). Ainda que a obra inglesa se apresente como tradução da primeira, a diferença entre as Lettere e A Journey é considerável, tornando-as singulares. Não se trata de uma questão menor, pois, ao considerar o olhar de Baretti sobre Portugal, é preciso levar em conta que os dois textos, pensados para públicos nacionais diferentes, revelam, nos detalhes, os leitores e as suas expectativas. Profundo conhecedor da cultura inglesa e frequentador respeitado dos círculos de intelectuais da época, Baretti sabe que o que é apreciado em Itália nem sempre o é em Inglaterra.
Giuseppe Baretti (1719-1789)
Em ambos os textos, mais do que um guia objetivo e detalhado, Baretti faz um percurso emocional, uma viagem de descoberta de pensamentos pessoais, culturais, morais, existenciais e éticos. Colocado perante um mundo diferente do seu, estranho e extraordinário (no sentido positivo ou negativo), atento ao que lhe parece digno de registo, Baretti, com o uso do humor que tinha aprendido com os autores italianos da época, afasta-se frequentemente da convenção da literatura de viagem: privilegia a anedota, faz críticas, revela interesses e ideologias.
A curiosidade acerca de Lisboa devia ter sido certamente grande. A singularidade da tragédia de 1755 tinha sido motivo de notícias em toda a Europa: é o caso do relato detalhado publicado em Londres na revista The Gentleman’s Magazine and Historical Chronicle, de Edward Cave, em 6 de novembro de 1755, apenas cinco dias após o evento; sem esquecer as referências de Voltaire ao terramoto, no Poème sur le Désastre de Lisbonne (1756) e em Candide (1758). A atração tornava-se ainda maior quando o “mundo” a conhecer era um reino cujas vicissitudes políticas, como a tentativa de assassinato de D. José e a expulsão dos jesuítas em 1759, eram motivo de reflexão no resto dos países da Europa. Portugal era um reino a ver “à lupa”.
Sem esconder a superioridade filosófica e mental que sentia em relação ao mundo ibérico, igual àquela expressa por grande parte do mundo intelectual inglês da época, Baretti, sem se preocupar em perder terreno em objetividade e autoridade, constrói uma imagem pouco elogiosa de Portugal. Desculpar-se-á com o pouco tempo disponível e o desconhecimento dos factos, das pessoas e do funcionamento das instituições. Se atenua as críticas ao país na Journey, dizendo que lhe faltou o conhecimento da língua e o convívio com a aristocracia portuguesa, provavelmente a passo com a Europa civilizada, nas Lettere a sua verve humorística é tão forte que receberá fortes críticas de Ambrósio Pereira Freire de Andrade e Castro, Ministro plenipotenciário na Áustria, descontente com as críticas à família real portuguesa: Baretti acha-a demasiado simples, humilde, próxima demais do povo, faltando-lhe a distância exemplar de outras casas reais.
O terramoto de Lisboa em 1755, autor desconhecido.
Mas o que o faz suspirar de alívio quando atravessa a fronteira e deixa Portugal é quase tudo: um povo que nem deve ter sentido a perda dos livros no terramoto, porque aqueles nunca foram aqui “moda”; que só tem um Camões e um Osório, e nem esses são lidos; que construiu um palácio em Mafra desproporcionado à paisagem e com uma biblioteca cheia de livros religiosos e nada de científico; um governo que mandou embora os jesuítas, único garante do ensino; que tem más hospedarias, muitas com pulgas; uma população mal-educada e maldosa… Uma gente que pouco fez depois da tragédia de 1755. Ignorantes, atrasados, pobres e pouco trabalhadores. Nunca voltará a Portugal. Não porque não o queira, mas porque o Marquês de Pombal não lhe perdoará as críticas e recusar-se-á a permitir a entrada do escritor italiano no reino.
Talvez o que o tenha menos predisposto a não gostar de Portugal, no entanto, foi, nos costumes e nas gentes, a proximidade com África: “Mas, independentemente daquilo em que eu acredite, não acha que Portugal está muito perto de África?” (Journey, 1970: 190). Uma proximidade também evocada na presença de negros e mulatos por toda a Lisboa. Capital do império português, encruzilhada entre continentes, a presença de pessoas de diferentes raças conferia certamente à cidade uma atmosfera multiétnica invulgar. Pelo que, quando descreve Portugal como um país cheio de negros, demonstra a sensação de estranheza que uma sociedade racialmente mista lhe provocava.
O Cais do Sodré em 1785, de Joaquim Marques – MNAA
Se, por um lado, Baretti não aprova a escravatura, por outro, opõe-se à miscigenação, considerando os mulatos como “monstros humanos”. Dá conta, nas Lettere, do grande número de negros, homens e mulheres, transportados de África para Portugal, ou nascidos em Portugal de pais africanos, que “enchem este pequeno canto da Europa com uma espécie de monstros humanos chamados mulatos, que são filhos de um negro e de uma mulher branca, ou de uma negra e de um homem branco”. Estes “monstros, por sua vez, produzem outros monstros ao unirem-se a outros homens e mulheres europeus”. Assim, “poucas famílias portuguesas conseguem manter-se puramente europeias, e com o passar do tempo todas se tornarão mestiças, isto é, em todas elas entrará, em maior ou menor grau, sangue africano.”
Na Journey, é mais específico: negro e branco produzem um mulato; um mulato com uma branca produz um mestiço. Estes podem ser mestiços brancos ou negros e podem naturalmente, sem impedimentos, casar-se com brancos, negros, mulatos e outros mestiços. A tal ponto existiam estas misturas e eram olhadas com tal naturalidade que Portugal estava a depravar a raça original europeia e mesmo a destruí-la. Por isso, com riso à mistura, defende que seria necessário expurgar cada vez mais a nobreza, feita de cruzamentos raciais, desta nação que se tem por tão nobre e que se considera a mais ilustre e a mais digna de todas as nações.
Peditório de Nossa Senhora da Atalaia (no Montijo), em Sketches of Portuguese Life, 1826.
A ideia de que os descendentes de relações inter-raciais maculavam a pureza das raças estava difundida na Europa com o advento de novas orientações pseudocientíficas baseadas em teorias climatológicas e raciais, a ponto de, no século XIX, no seu Ensaio sobre a Desigualdade das Raças Humanas, Arthur de Gobineau desenvolver o seu pensamento no princípio da degeneração étnica das raças. Para o autor, esta degeneração surgia da mistura, da fragilidade e da inferioridade das raças mestiças e das suas nações necessariamente mestiças. Se os portugueses se miscigenaram com os negros e os indígenas, adotando os seus costumes, isso, para o teórico francês, ocorreu porque as duas raças possuíam fatores de atração e proximidade: a raça portuguesa não estava assim tão distante dos defeitos das raças indígenas.
Baretti posiciona-se etnocentricamente, dando voz a um código de valores éticos e estéticos que orientam a sua visão do mundo e dos outros. Reduzindo Portugal à sua dimensão pessoal de civilização, concentra-se nas excentricidades ou atitudes repreensíveis, que relata com mais ou menos humor. Mas, também nos dá o retrato de um reino que, no século do Iluminismo, se mostrava moderno no que Baretti acha monstruoso: na construção de uma sociedade inter-racial e inclusiva.
[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]