Agentes secretos, mães ou bisbilhoteiros, imagina-se que surpreender alguém quando pensa que não está a ser visto consiste sempre em surpreender essa pessoa a fazer coisas que não imaginaríamos que pudesse fazer. Por causa dessas imaginações concluímos que, apesar das reservas gerais que temos em relação à bisbilhotice, os processos que se empregam para surpreender e vigiar pessoas podem ter justificação, e que a bisbilhotice faz avançar o nosso conhecimento.
Pagamos por isso os arrepios de remorso que sentimos quando nos esforçamos para apanhar pessoas de surpresa com a ideia de que os resultados podem ser bem capazes de valer esses arrepios. A duplicidade, que nos momentos de pousio achamos que é detestável, é justificada pelo acréscimo em conhecimento; e usamos o facto de ficarmos a saber mais sobre quem espiamos para atenuar os nossos escrúpulos eventuais. Afinal o que é culpa comparada com o avanço do conhecimento?
No entanto, pode também dar-se o caso de as nossas tentativas para surpreender alguém que não imagina que está a ser observado se limitarem a confirmar o conhecimento que tínhamos dessa pessoa, ou seja, o conhecimento de que faz o que já sabíamos que faz. São os casos em que a espionagem parece não dar resultados, em que as mães não encontram o que procuram nos quartos dos filhos, e em que as formas mais extremas de interesse pela vida alheia são frustradas.
Quem nunca sentiu curiosidade pelos outros considera nessas ocasiões que certas actividades ilegais ou imorais, ou pelo menos extraordinárias, não deram os resultados pretendidos; e que talvez por isso os bisbilhoteiros estejam a ser punidos pelos seus actos e pelos seus interesses; e que é justo que sejam assim punidos. Mas os ignorantes sentem sempre rancor por quem tem o costume de andar a rondar a árvore do conhecimento.
Não é porém verdade que o contrário de um resultado, em matérias de bisbilhotice, não seja também um resultado. O agente secreto frustrado adquire um conhecimento precioso: o conhecimento de que o seu conhecimento anterior estava certo, e de que a pessoa que queria conhecer é igual a quem acreditava que não conhecia suficientemente. Não se pode assim subestimar a satisfação que nos dá a confirmação daquilo que achávamos que já era o caso.
Ocorre uma analogia com um problema clássico de filosofia: será que as coisas que vemos com os olhos abertos continuam a existir da mesma maneira quando os fechamos? E que as nossas percepções são uma ilusão que, caso pudéssemos abrir os olhos enquanto estão fechados, revelariam outra coisa qualquer? As pessoas não são diferentes de todas as outras coisas que tentamos surpreender. O alívio que sentimos ao concluir que os objectos da nossa percepção são independentes da nossa percepção é muito parecido com o alívio que sentimos ao concluir que alguém é igual à pessoa que já conhecíamos.