“Eu só penso, investigo e procuro compreender aquilo que me passa pelo corpo, que me toca e me faz estremecer.”

O ensino da Filosofia enfrenta o desafio de tornar acessível e significativa a reflexão sobre questões fundamentais da existência humana. Neste contexto, o diálogo entre a Filosofia e o Cinema revela-se uma oportunidade única de ampliar as formas de pensar o real, não apenas pela via racional, mas também através da sensibilidade e da imaginação.

A razão filosófica ocidental privilegiou, historicamente, a especulação abstrata e a lógica, desconsiderando, muitas vezes, os afetos e a afetividade como via legítima de compreensão do mundo. Como defendem autores como, por exemplo, Nietzsche e Schopenhauer, esta razão puramente lógica falha ao explicar a complexidade da experiência humana. É aqui que o Cinema se torna relevante: pela sua capacidade de, através de imagens e sons, expressar a complexidade da existência, funcionando como via complementar de compreensão.

Gilles Deleuze defende que o Cinema não se limita a ilustrar conceitos filosóficos, mas cria pensamento próprio. Através da imagem-tempo e da imagem-movimento, o Cinema questiona, interpreta e projeta possibilidades, tornando-se uma narrativa filosófica que pensa com afetos. Filmes como, por exemplo, As asas do Desejo, de Wim Wenders, ou Blow-Up, de Michelangelo Antonioni, exemplificam essa capacidade de provocar reflexão sobre a finitude, a dúvida, o desejo e o sentido da vida.

No contexto educativo, o Cinema pode e deve ser entendido como uma ferramenta didática poderosa. Utilizar narrativas fílmicas nas aulas de Filosofia permite aproximar os alunos dos grandes temas filosóficos de forma acessível e emocionalmente relevante. Os filmes oferecem representações de dilemas morais, conflitos existenciais e questões metafísicas que ressoam na experiência individual e coletiva, facultando aos estudantes a possibilidade de se verem refletidos nas personagens, situações e cenários propostos.

Além disso, o Cinema possibilita um ensino filosófico mais inclusivo e democrático. Como linguagem universal, atravessa barreiras culturais e sociais favorecendo aprendizagens. A intertextualidade entre textos filosóficos e narrativas fílmicas enriquece o pensamento, estimulando a argumentação e a análise concetual. Permite, ainda, pensar o real a partir de diferentes linguagens e desenvolver a sensibilidade estética e artística, competência prevista no PASEO (Perfil do Aluno à Saída do Ensino Obrigatório).

Integrar o Cinema no ensino da Filosofia não significa reduzir a Filosofia a meras ilustrações audiovisuais, mas reconhecer no Cinema uma forma legítima e rica de pensamento. Como sublinha Thomas Wartenberg, alguns filmes ilustram questões filosóficas, enquanto outros fazem Filosofia, criando conceitos-imagem que questionam o mundo e o homem. Este diálogo interdisciplinar, para além de tornar o ensino da Filosofia mais estimulante e próximo da realidade vivenciada pelos estudantes, contribui para a formação de cidadãos conscientes, críticos e sensíveis às complexidades do humano.

Por exemplo, na abordagem da unidade A dimensão ético-política – análise e compreensão da experiência convivencial [Ética], onde se propõe aos alunos a aplicação das posições do Subjetivismo, Relativismo e Objetivismo no debate sobre problemas inerentes às sociedades multiculturais, propus um trabalho a partir do filme Persepolis, de Marjane Satrapi. A história autobiográfica de Marjane permitiu discutir de forma aprofundada temas como a liberdade de expressão, a repressão política, os direitos das mulheres e a importância de manter a integridade em contextos adversos. Por vezes, sentimos que os alunos têm dificuldade em associar conteúdos filosóficos a situações existenciais. No entanto, após a visualização do filme e debate, notei uma mudança na forma como refletiam sobre a liberdade, o respeito e a resistência à opressão. Alguns alunos, mais reservados, partilharam relatos pessoais de situações de discriminação e censura, aproximando-se dos conteúdos de forma significativa. A maioria desconhecia o filme Persepolis bem como a novela gráfica que lhe serve de argumento e a história do Irão. Depois desta atividade, vários alunos passaram a referir o filme para ilustrar conceitos filosóficos como dignidade, justiça ou consciência moral, confirmando que trabalhar conteúdos éticos através do cinema potencia o desenvolvimento da sensibilidade estética e artística e do pensamento crítico.

Em suma, as narrativas fílmicas enxertam no texto filosófico corpo, carne, concretude, afetividade e emoções. De algum modo, obrigam a Filosofia a descer do céu à terra ou a abandonar a sua torre de marfim.

Cristina Janicas, docente de Filosofia, finalista do Global Teacher Prize Portugal 2025, coordenadora do Projeto Cultural Escola e Plano Nacional de Cinema da Escola Secundária José Falcão – Coimbra.