Nos tempos que correm somos inundados pela azáfama de conteúdos, metas para cumprir e indisciplina a crescer. Vivemos num mundo frenético, cheio de pressa que se reflete em muitas escolas do país. A avaliação quantitativa sobrepõe-se, demasiadas vezes, a uma verdadeira avaliação centrada no aluno. Todos a defendemos, mas esquecemo-nos facilmente dos ritmos biológicos e do tempo necessário para aprender.
A escola deve ser um lugar onde a felicidade e o bem-estar emocional vêm primeiro. Um espaço para se ser feliz, que prioriza a formação integral do ser, do aprender a saber ser e não apenas o acumular de conteúdos. Quando isto acontece, os resultados aparecem naturalmente, acompanhados de satisfação pessoal.
Fala-se muito em aprendizagem centrada no aluno, colocam-se cartazes apelativos e divulgam-se novas práticas educativas. No entanto, persistem metodologias obsoletas, que ironicamente apelido de “vira livros”. Existem exceções, e é desejável que se tornem cada vez mais frequentes.
Importa dizer que todas as metodologias ativas exigem trabalho autónomo, consolidação de aprendizagens, prática de escrita e treino de cálculo, e isso deve acontecer diariamente. O que não é desejável é que essas práticas ocupem todo o dia e a semana toda. Optar pelos “vira livros” dá pouco trabalho. As salas ficam silenciosas, criando a ilusão de que os alunos só respeitam os professores se estiverem calados. Mas onde fica a aprendizagem, a curiosidade, a voz dos alunos e as soft skills que o mundo em mudança exige? Será que o aluno que cumpre todos os passos pedidos num exame será o melhor profissional ou a melhor pessoa?
O manual não é o princípio nem o fim da aprendizagem. Aprender deve ser descoberta, tentativa e erro, fazer, explorar e errar. Assumir o erro como parte do processo liberta o aluno do medo de arriscar.
São necessárias mudanças profundas no sistema educativo, nos contextos e nos espaços. É preciso construir muitas pontes. Os professores têm de trabalhar em equipa, mas a avaliação docente atual dificulta a partilha e o verdadeiro desenvolvimento profissional.
Há escolas que promovem cooperação e novas visões da realidade e eu tenho a sorte de trabalhar numa delas. Professores, tal como os alunos, precisam de se sentir úteis, vistos e felizes na escola. Isso faz toda a diferença.
Alunos, professores e famílias são o segredo de uma educação bem-sucedida. Nem sempre isso se reflete nos rankings de uma escola de topo, mas vê-se num aluno que aprendeu a ler e não desistiu. A verdadeira voz da escola vive no brilho nos olhos do aluno e na felicidade do professor por ter mudado uma vida, naquele momento! E tudo começa aqui, na maior das utopias. Há quem não acredite nelas e há quem lhes reconheça o poder da mudança.
O Caminho para o projeto UNIVERSOS
Um dia, ia a caminho da escola, a ouvir mais uma vez na rádio que os alunos do 9º ano tinham cada vez mais dificuldades em escolher as áreas de estudo. Essa mesma dificuldade acontecia novamente no 12º ano. Nesse ano, pós-pandémico, encontrei na sala de aula muitos alunos desmotivados e que não atribuíam significado aos conteúdos curriculares do 1º Ciclo. Era uma realidade persistente na escola, com focos externos efémeros, bombardeados de vídeos de um minuto e fake news.
Esta situação atormentava-me há alguns anos e ganhava mais expressividade. Os alunos perguntavam-me porque tinham de estudar Matemática, Estudo do Meio e Português. Até verbalizavam que estes conhecimentos não serviam para nada. Isto incomodava-me. Já na altura, trabalhava em projeto, mobilizava aprendizagens ativas, mas sentia que faltava qualquer coisa. Aquele brilho no olhar…
Debruçamo-nos nos currículos, tentamos fazer ligações com as áreas de estudo superior e profissional. Pensamos em personalidades que pudessem ir à escola fazer a ligação à vida real. Como poderíamos interligar conteúdos culturais. Até que começou a criar-se um fio condutor entre o 1º Ciclo do Ensino Básico e a Universidade/ensino profissional. A escola fora da escola.
Com experiências vividas em contexto real e interligadas aos conteúdos do currículo, os alunos poderiam fazer escolhas sustentadas em conhecimento nos anos decisivos. Teriam tempo para experimentar várias realidades, com calma e não apenas nos anos de escolha. Sentir-se-iam mais seguros e motivados em todo o percurso. Abriríamos as possibilidades a todos os alunos e estaríamos a ser mais inclusivos levando a cultura e o conhecimento a todos. Desconstruindo a ideia de que este acesso é apenas para alguns.
E as Faculdades? O que poderiam ganhar com isto? Qual seria o interesse delas no 1º Ciclo?
Fácil, a humanização do ensino. Conhecem os alunos no início do processo, acompanham os seus desafios desde tenra idade e ganham uma base solidária de fazer chegar o conhecimento a todos. Promovem assim o interesse por áreas científicas nos alunos de amanhã, desenvolvem o gosto por carreiras STREAM (Ciências, Tecnologias, Leitura, Arte e Matemática). Tenho a certeza de que muitos dos alunos que têm o contacto precoce com estas realidades vão fazer mudanças significativas na aprendizagem, muito em breve, pois têm visões criativas e participadas do mundo que as rodeia.
Nesse ano, desafiei três Faculdades da Universidade do Porto para essa utopia que se tornou uma realidade. O Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, a Faculdade de Letras e a Faculdade de Belas Artes. No ano transato juntou-se a nós a Faculdade de Engenharia do Porto.
O início foi um desafio para todos. Professores da Faculdade a interagir com crianças de Primeiro Ciclo, só se conseguiu com muita vontade de mudança, com muito diálogo e um toque de esperança.
Até agora, os alunos que viveram o projeto UNIVERSOS receberam visita de elementos das diferentes Faculdades à escola, onde realizaram workshops sobre as áreas estudadas no Ensino Superior, em estreita ligação com as aprendizagens essenciais. Por sua vez, os alunos visitaram as Faculdades onde puderam interagir com o espaço e realizar atividades organizadas pelas mesmas. Visitaram museus e entidades culturais para interligar conhecimentos com a sua aplicabilidade prática, conheceram personalidades desde a área das letras às ciências, passando pelas artes, tudo com o intuito de resolver um desafio inicial lançado na primeira visita de cada Faculdade. Para tal, os alunos, em project based learning (aprendizagem baseada em projetos) resolvem este desafio de forma colaborativa, mobilizando os conhecimentos (acordados com o professor) de forma interdisciplinar. Learning through play (aprender a brincar) esteve sempre presente durante este processo. Dá-se a aprendizagem iterativa. A tentativa e erro fazem parte natural de aprender. O método científico é incentivado desde cedo.
O projeto culmina com a apresentação de resultados/projetos a toda a comunidade envolvida na Conferência “Pequenos Grandes Pensadores” e este ano com uma novidade: a mostra educativa “Tu és ciência”.
Um UNIVERSO de possibilidades
O apoio incondicional das Faculdades tem sido fundamental para este projeto. Os resultados não são imediatos e nem todos quantificáveis, mas já há indicadores claros e muito positivos. Destaca-se a naturalidade com que os alunos veem a ciência, a curiosidade pelas carreiras STREAM o gosto pela aprendizagem e pela escola aumenta consideravelmente.
Recentemente, a investigadora Ana Ferreira da Faculdade de Ciências afirmou que “os alunos que participaram no projeto UNIVERSOS apresentam confiança e determinação na realização das atividades experimentais nestas áreas, recorrendo a um vocabulário específico resultante da aquisição de conhecimentos científicos. Esta realidade é bastante contrastante com a nossa experiência em pilotos anteriores, em que as crianças da mesma faixa etária nunca tinham estado em contacto com atividades experimentais e todos os conceitos relacionados com as mesmas e com as áreas STEM eram abstratos e complexos”.
No mesmo sentido, Begoña Perez do ICBAS considera que “desde 2022, o ICBAS leva o conceito One Health ao Projeto Universos, uma iniciativa de referência que promove uma formação sólida, inspiradora e sustentável”. Por seu turno, Raul Vidal da FEUP acrescenta que “o projeto Universos é uma iniciativa educativa inovadora que abre portas ao conhecimento e à curiosidade, ligando aprendizagens essenciais a experiências reais, que despertam as suas mentes criativas para futuros com sentido”.
Ver o aluno como um todo, desde o início da sua escolaridade até ao culminar da sua formação traz desafios novos a todos os envolvidos. A importância de perceber que o conhecimento está interligado e depende de todas as fases da vida é um caminho ousado, mas humanizante.
Ainda temos um UNIVERSO de possibilidades para explorar. O primeiro passo está dado. A escola é um lugar criado por primeiros passos que se transformam em verdadeiros caminhos.