Há uma revolução silenciosa em curso na área da saúde. Embora esta tenha começado há já várias décadas, nunca a nanomedicina teve um impacto tão evidente nas nossas vidas. Não acredita? Se recebeu pelo menos uma dose da vacina contra a COVID-19 da Pfizer/BioNTech ou da Moderna, então já “experimentou” um medicamento que incorpora nanotecnologia (nano-medicamento).

Mas comecemos pelo início. O que é a nanomedicina? De uma forma muito simples, esta pode ser vista como a aplicação da nanotecnologia em cuidados de saúde. Por sua vez, a nanotecnologia envolve, em larga medida, a utilização deliberada de nanomateriais, nomeadamente nanopartículas. Caracterizadas pelas suas dimensões diminutas, são apenas observáveis com o auxílio de microscópios avançados. E são completamente invisíveis a olho nu ou mesmo à luz dos microscópios simples, que muitos tiveram oportunidade de utilizar, por exemplo, nas aulas de ciências da natureza ou de biologia. Relativamente às nanopartículas utilizadas em nanomedicina, estas podem ter, por si só, atividade farmacológica ou (o mais comum) serem combinadas com fármacos. Em ambas as situações dizemos que estamos perante nano-medicamentos com potencial para utilização clínica no tratamento, prevenção ou diagnóstico de doenças.

Ainda confuso(a)? Voltemos, então, ao exemplo das vacinas contra a COVID-19. Estes nano-medicamentos utilizam nanopartículas feitas de lípidos e têm um diâmetro da ordem dos 0,0001 milímetros. Um valor que é cerca de 400 vezes menor do que a espessura de um fio de cabelo! As dimensões destas nanopartículas estão para o tamanho de um automóvel, assim como um automóvel está para o planeta Terra! E as nanopartículas funcionam no nosso corpo de forma análoga à de um veículo que transporta pessoas numa cidade complexa (o corpo humano) – permitem aos seus passageiros (neste caso, cadeias de ARN mensageiro) chegar ao destino pretendido (o interior das células) de forma eficaz e segura. De outro modo, o ARN mensageiro ficaria “apeado” à porta das células e seria rapidamente eliminado, tornando a vacina completamente inútil.

A aplicação da nanomedicina e destas nanopartículas-veículos não se resume à prevenção da COVID-19. De facto, existem vários nano-medicamentos disponíveis para o tratamento do cancro, de infeções fúngicas, de anemias e de casos particulares de amiloidose, entre outras doenças. Alguns são úteis como anestésicos em cirurgias ou agentes de contraste para a realização de exames auxiliares de diagnóstico. A lista de nano-medicamentos aprovados é já expressiva, com perspetiva de rápido crescimento nos próximos anos, atendendo aos múltiplos ensaios clínicos em curso.

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Porquê investir em nanomedicina?

O valor da nanomedicina na promoção da saúde humana é, já hoje, inequívoco. As vacinas contra a COVID-19 emudeceram até aqueles que na comunidade médico-científica questionavam o alcance da nanomedicina. Mas existem outros aspetos, também eles importantes, que justificam o contínuo investimento nesta área. Por exemplo, a dimensão económica e o potencial para o desenvolvimento de países pequenos, mas com aporte substancial em diferentes áreas do conhecimento, como é o caso de Portugal. De acordo com a consultora canadiana Precedence Research, o valor do mercado global da nanomedicina foi de cerca de 360 mil milhões de euros em 2021, estimando-se que cresça até próximo dos 920 mil milhões de euros, em 2030. Ou seja, aproximadamente quatro vezes o PIB português esperado para 2022.

A aposta na área da nanomedicina, de enorme valor científico e intrinsecamente inovadora, permitiria beneficiar toda uma geração de quadros técnicos, formada ao longo dos anos pelas nossas instituições de ensino superior e investigação e desenvolvimento (I&D). A criação de emprego altamente qualificado (e, idealmente, bem remunerado) verificar-se-ia, sobretudo, em áreas do conhecimento como a química, a biologia, a engenharia biomédica, a ciências farmacêuticas, a medicina, entre outras.

Os esforços nacionais de I&D na área da nanomedicina são reconhecidos, evidenciando o importante capital humano e científico disponível. No entanto, a transferência do conhecimento gerado pelo sistema científico e tecnológico para o mercado revela-se anémica. Carece de estimular a criação de empresas spin-off e startup, bem como desenvolver sinergias com a grande indústria e outras entidades do setor da saúde. Só assim será possível que trabalhos académicos e projetos de investigação – amplamente financiados por dinheiros públicos – possam “ganhar asas” para transpor as paredes dos laboratórios e beneficiar diretamente a sociedade.

Por outro lado, a falta de apoio ao empreendedorismo científico e tecnológico, bem como dificuldades na captação de financiamento de risco (também inerente a este tipo de negócios, sobretudo em fases iniciais de implementação), são entraves que dificultam o incremento de inovação na área da saúde. De facto, apenas um maior compromisso por parte de instituições de I&D, entidades de saúde, agências de financiamento e mecenato poderá, num futuro próximo, posicionar Portugal no pelotão da frente do mercado da nanomedicina. A definição de uma visão estratégica mais articulada, integrada e abrangente é essencial.

A nanomedicina pode ter na sua génese a utilização de pequenas partículas que não se vêm. Mas os seus contributos para a saúde humana e o potencial de valorização socioeconómica (nomeadamente do nosso país) parecem estar à vista de todos.