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TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Lars Montelius: "Em Portugal, a formação em nanotecnologia é excelente, o problema é a fuga de cérebros"

Pioneiro da nanotecnologia chefiou o Laboratório Internacional Ibérico, em Braga. Ao fim de mais de 30 anos de investigação, salienta que estes dispositivos "estão em todo o lado".

O apagão geral da Península Ibérica na passada segunda-feira, dia 28 de abril, dificultou muito os acessos a Portugal. O aeroporto de Lisboa cancelou centenas de voos, com vários pilotos forçados a aterrar no Porto: e num desses aviões, chegado à meia-noite, seguia Lars Montelius. O pioneiro da nanotecnologia conseguiu alugar um carro e fazer as três horas de viagem rumo à capital, a tempo de estar terça-feira à tarde nas celebrações do 114º aniversário da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Durante oito anos, o agora professor emérito da Universidade de Lund, na Suécia, esteve ao leme do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL, na sua sigla em inglês) sediado em Braga, onde chegou com 30 anos de experiência de investigação na área, e adicionou um toque de “liderança escandinava” que impulsionou o projeto e que acabou por octuplicar as operações no centro. Entre 2014 e 2022, Lars Montelius procurou promover o trabalho do INL através de iniciativas conjuntas com a Câmara bracarense, como exposições, e viajou pelo mundo à procura de uma maior colaboração internacional na investigação nanotecnológica.

Em conversa com o Observador, Lars Montelius reforça que a nanotecnologia “está em todo o lado”, da saúde ao ambiente e à eletrónica, e que o futuro do nosso planeta tem de passar por uma aposta séria na que é a “tecnologia mais sustentável de sempre”. O especialista foi um dos primeiros a fazer litografia de nanoimpressão, através da qual se fazem os semicondutores, chips que estão presentes nos telemóveis e nos carros, por exemplo.

Para o investigador e professor sueco de 67 anos, “a curiosidade é o que faz avançar a evolução” a par da sinergia entre os diferentes setores de investigação. Para isso, o mundo da ciência não se pode perder em “egos” e nos atuais problemas “sociais e políticos”, e é necessária a união na Europa no meio de tanta divisão internacional que pode “dificultar” o processo de desenvolvimento tecnológico.

O que é que o atraiu na nanotecnologia no início do seu percurso académico?
Tinha acabado recentemente o meu doutoramento, na Universidade de Lund, numa altura em que se falava pouco sobre nanotecnologia. Isto em 1987. Havia outros jovens cientistas, eu era o mais novo de 10, todos de áreas diferentes. Reunimo-nos e pensámos: “se calhar devíamos fazer alguma coisa sobre isto, porque pode ser muito interessante para o futuro”. Então, concorremos a uma bolsa e a candidatura foi aceite — era um contrato de 10 anos. Tivemos a oportunidade de começar pelo mais simples para desenvolver algumas competências e conhecimentos subjacentes, que mais tarde poderiam ser aproveitados quando surgissem mais projetos. A verdade é que a nanotecnologia não é bem uma coisa nova, continuamos a desenvolver novas vertentes mas, ainda assim, continua a ser a mesma velha ciência, a mesma velha tecnologia. Tudo se concentra no que se pode fazer com o material à nanoescala [um nanómetro é um bilionésimo de um metro], dando funcionalidades a diferentes tipos de coisas, que depois é possível utilizar para desenvolver novas aplicações.

Mas o conceito de nanotecnologia continua a ser muito vago, não? Abrange muitas áreas diferentes…
Exato, mas liga-se a todas. É um bom conector, de certa forma. Acho que quando começámos não havia bem uma definição, mas agora dizem que a nanotecnologia é o domínio da matéria a uma escala em que pelo menos um dos três eixos de coordenadas [x,y, z] é inferior a 100 nanómetros. É mais ou menos esse o conceito, mas realmente não existe uma única definição.

Ao longo destes primeiros anos, viram grandes progressos na vossa investigação e no entendimento sobre o tema?
Claro, foi mesmo muito interessante. Uma vez que tínhamos este projeto de 10 anos garantido, podíamos interagir com pessoas no ramo da biologia, da medicina, da engenharia, dos semicondutores. Na Universidade de Lund, nas quatro faculdades temos cerca de 550 cientistas a trabalhar em conjunto, não num departamento único, numa associação dentro da universidade. E destes, cerca de 20 empresas “spin-off” foram criadas só este ano. Mas quer dizer, há 38 anos, em 1987, quando tudo começou, era um círculo muito mais pequeno, éramos só 10.

  • TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
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Houve alguma área específica que tenha contribuído mais com esta colaboração?
Eu, pessoalmente, tinha uma ligação bastante forte ao meio da medicina e biologia. A uma determinada altura estava a trabalhar com cirurgias a mãos. No fim dos anos 80, havia já várias pessoas a receber próteses inteligentes, que tinham um sensor stick-slip [de aderência]. Nestes casos, se alguém estivesse a segurar alguma coisa e começasse a cair, os sensores faziam com que a prótese agarrasse com mais força para não perder o controlo, mas não era controlado pela mente, ou seja, poderia agarrar uma mão com muita força, esmagar um ovo, e as pessoas sentiam que era uma opção demasiado artificial. Então, surgiu a hipótese de criarmos algo que pudesse comunicar com o cérebro. Foi aí que começámos a desenvolver chips de silicone, que eram implantados no sistema nervoso periférico, para devolver algum tipo de sensação ao cérebro e controlar a prótese com a própria mente.

Falando em implantes cerebrais… Como é que vê os chips da Neuralink?
Nós estamos a trabalhar nestas coisas [nos implantes] há anos, certo? Portanto limito-me a desejar-lhes boa sorte, porque podem fazer experiências, implantar chips e pôr sinais no cérebro e vai sempre acontecer qualquer coisa, mas têm de ter uma compreensão fundamental do que se está a passar, para ter a certeza que não se destrói nada ou que o cérebro não é sobre-estimulado. É preciso pesquisar sobre o assunto. A primeira vez que vi este Neuralink, quer dizer, é uma moda… convençam-me. O problema é que não há estudos a longo prazo, o paciente mais antigo tem o implante há cerca de quatro ou cinco anos. Não conhecemos as consequências a longo prazo.

E que consequências é que poderá ter?
Pode ajudar muitas pessoas. A área das dores crónicas é muito, muito difícil, e podem fazer uma estimulação cerebral profunda, também para pacientes com Parkinson. Mas estas coisas são difíceis de implementar, porque o cérebro é meio gelatinoso e mexe-se constantemente. Por isso, se colocar algo duro dentro de um destes elétrodos, este sólido vai ser afixado ao crânio e, ao respirar, o cérebro desloca-se e ficamos com o tecido cicatrizado — algo que nunca recupera totalmente. O que nós desenvolvemos, por volta de 2015, foram uns elétrodos muito pequenos, com recurso a nanotecnologia, que colocamos no cérebro e, quando lá estão, expandem-se como se fossem um guarda-chuva e acabam por cobrir uma grande parte do cérebro, sendo também muito moles e por isso mexem-se com o cérebro, ao contrário dos elétrodos duros.

Esta tecnologia é algo que a Neuralink poderia utilizar para minimizar riscos?
Sim, quer dizer, é algo que está patenteado e eu não tenho estado muito envolvido no projeto desde que vim para Portugal, por isso não sei exatamente como está hoje em dia, só que parece funcionar bem. Mas, como é habitual na investigação, há barreiras que se ultrapassam, depois surgem questões mais fundamentais, então é difícil dizer que está terminada, porque nunca nada está terminado. Há sempre algo novo no fundo do poço, precisamos sempre de olhar para isto ou para aquilo, e acho que esta é a beleza da ciência — nunca está parada. Mas, a dada altura, é claro, se quisermos transformar isso em empresas, temos de dizer: “Muito bem, este conhecimento que temos aqui é um conhecimento compartimentado. Por isso, agora vamos transformá-lo numa empresa.” E a empresa deve ter uma ideia de negócio, algo que eu penso que é um ponto fraco de muitas spin-offs, que têm uma tecnologia e vão à procura de uma aplicação, em vez de existir uma possível aplicação e dizerem: “A minha tecnologia poderia funcionar com esta aplicação”. É uma coisa dupla. E as pessoas no meio estão sempre abertas para colaborar umas com as outras. O INL [Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia] é um ótimo exemplo de colaboração internacional.

"Não é sobre o risco, é sobre a segurança, porque a nanotecnologia está lá, não é um risco. Se eu beber 10 litros de água, também não vai ser bom para mim, por isso aprendemos a lidar com a água, aprendemos a lidar com o álcool e com todo o tipo de coisas (...) Temos que saber utilizar a nanotecnologia com segurança"
Lars Montelius

Já que menciona o INL… Foi o diretor do instituto durante oito anos, como é que foi a experiência e de onde surgiu a oportunidade?
O INL é um laboratório de investigação intergovernamental, sediado em Portugal [em Braga], num esforço conjunto entre Espanha e Portugal e um investimento enorme de 100 milhões de euros. É um laboratório fantástico, muito bom e, na primavera de 2014, um amigo ligou-me a dizer que eu seria um bom diretor para este instituto. Eu respondi-lhe a dizer que nunca tinha ouvido falar de tal coisa, ele referiu que só tinha três ou quatro anos, não me lembro exatamente, e então convidou-me para ir lá visitá-lo. Lá fui, no verão, e quando vi as instalações disse: “Wow, isto é fantástico”. Li mais um pouco sobre o projeto, pareceu mesmo muito sólido e disse que sim. Quando lá cheguei percebi que tinha sido construído para receber 300 pessoas, mas que só havia cerca de 70 trabalhadores, por isso estava um pouco vazio. Então, durante estes oito anos [de 2014 a 2022], passámos de 70 para 550 pessoas. Ao mesmo tempo, houve também um aumento do investimento, porque precisamos de cerca de 80 mil euros por pessoa. De uma forma geral foi uma experiência mesmo muito boa.

Sente que houve uma grande mudança desde que entrou até sair?
Sim, claro. Quer dizer, em 2014 ainda era uma instituição jovem, de certa forma, com pessoas muito comprometidas e apaixonadas, mas ainda desconhecidas pelo mundo neste ramo. Com o tempo começámos a cooperar com vários países diferentes, viajei muito e conheci imensas pessoas. E sinto que também introduzi este conceito de liderança escandinava em que quero saber das pessoas que contratamos, e os trabalhadores identificam-se com isso. Porque é que haveríamos de contratar alguém inteligente para depois lhe dizermos o que fazer? Essa pessoa é que nos devia dizer o que fazer e como podemos manter-nos a par, e vice-versa. Acho que este aumento [da confiança] acaba por se tornar num piano autónomo, de certa forma, com muita interação. Acho que foi muito positivo.

Vê Portugal como um “player” relevante no desenvolvimento atual de novas nanotecnologias?
[Portugal] é um dos melhores, hoje em dia, é mesmo muito bom. Falando de uma forma geral, a educação em Portugal é excelente. Obviamente são contratados imensos portugueses para o INL, e eu reparei que são extremamente hábeis e cautelosos sobre a forma como trabalham, fazem perguntas desafiantes, algo que eu acho muito, muito bom. Por isso, cada vez que dou uma palestra ou falo em algum lado, digo sempre que o ensino português é de topo. O problema em Portugal é a fuga de cérebros, o facto de muitas pessoas talentosas irem para outro lado, principalmente devido ao nível salarial. Também têm o facto de não existirem grandes indústrias no país. Quer dizer, existe indústria, mas a maioria são de serviços para outra coisa. A que eu mais conhecia em Braga era a Bosch, claro, que é uma coisa fantástica, e recorre a portugueses para trabalhar lá, mas a tecnologia vem, principalmente, da Alemanha.

Se as pessoas estiverem mais cientes da presença da nanotecnologia no seu dia-a-dia, talvez exista uma maior possibilidade de amealhar mais financiamento dos governos locais ou mesmo das agências europeias?
Pois, talvez. Acho que no início existia um financiamento mais generalizado na nanotecnologia, enquanto que agora está mais disperso pelas várias áreas de aplicação. O que me parece sensato, porque pode ser necessário combinar a nanotecnologia específica com outra coisa. É claro que precisamos de um software, precisamos de algo para transição digital verde, por isso é preciso juntar as coisas — precisamos de ter uma perspetiva muito mais holística. E penso que um dos principais constrangimentos associados ao financiamento reside principalmente no facto de estarmos demasiado isolados uns dos outros. Assim, o financiamento é para a eletrónica ou para a fotónica, por exemplo, mas as aplicações, que podem ser as mesmas, não se cruzam. Por isso, penso que é necessário juntar as coisas para agregar os conhecimentos de modo a podermos enfrentar os grandes desafios da sociedade.

Claro, até porque a maior parte das pessoas se calhar associa nanotecnologia a um conceito mais abstrato e técnico do que propriamente algo mais tangível…
Sim, sim, claro, há muitos anos, numa das minhas primeiras conferências, chamada “NanoRisk“, eu disse: “não é sobre o risco, é sobre a segurança”, porque a nanotecnologia está lá, não é um risco. Se eu beber 10 litros de água, também não vai ser bom para mim, por isso aprendemos a lidar com a água, aprendemos a lidar com o álcool e com todo o tipo de coisas. Não bebemos gasolina, pois não? Temos que saber utilizar a nanotecnologia com segurança. Por exemplo, o problema não é as empresas alimentares utilizarem nanotecnologia, é o facto de não falarem sobre isso e estar meio escondido. Têm medo que os consumidores se oponham. Acho que agora o conceito é mais percetível, mas se calhar é porque sou mais velho, não sei, acho que agora é mais compreensível. As pessoas agora estão a perceber que não é realmente um risco, e que agora conseguimos dominar o assunto.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Disse, no passado, que a “nanotecnologia tem tudo a ver com a sustentabilidade” e que pode ser uma ferramenta para resolver vários problemas na nossa sociedade. Como?
Existe este termo, SSbD (Safe and Sustainable, by design), conceção segura e sustentável. Nós estamos a chegar ao ponto de rutura. A sociedade está a afundar-se, estamos a consumir demasiado os recursos da Terra. Por isso, precisamos de reutilizar, reciclar, refabricar, etcetera, etcetera. E a nanotecnologia oferece estes novos rumos, porque é possível fazer materiais avançados e inovadores a partir da nanotecnologia, que podem substituir algumas coisas que são muito críticas, como as matérias-primas, por exemplo, ou as PFAS [substâncias perfluoroalquiladas, na sua sigla em inglês], que não são boas para o ambiente. Por isso, eu acredito que a crescente procura pela sustentabilidade está a necessitar, ou irá utilizar, o que a nanotecnologia pode oferecer. E, em termos gerais, se pensarmos que a nanotecnologia é principalmente, como já referi, a ciência de pelo menos uma das três coordenadas [x, y, z] a menos de 100 nanómetros, então, na realidade, só utilizamos os átomos de que necessitamos para uma determinada aplicação. Aliás, de certa forma, acaba por ser a tecnologia mais sustentável de sempre, porque só escolhe os átomos que precisa, e deixamos todos os outros que não precisamos.

Mas de que forma é que vemos a nanotecnologia a contribuir para a mitigação dos efeitos dos desafios climáticos que enfrentamos atualmente?
Olhem para a energia, por exemplo. Ainda se produz uma grande parte da energia com carvão e as outras opções seriam coletar através do sol, ou do vento, onde são necessárias baterias, claro. Essas baterias atuais não são muito simpáticas para a natureza, porque são necessários alguns destes elementos para as baterias e também para os geradores das turbinas eólicas. Por isso, penso que existe um potencial para introduzir novas tecnologias que ajudem a eliminar esse problema. Mas precisamos de utilizar estes recursos, não podemos continuar a queimar carvão, ou o petróleo que é o mesmo princípio. Quer dizer, é ridículo, precisamos de agir agora, mas é urgente mudar. Acho que Portugal tem feito um ótimo trabalho nisso, ficando autossustentável durante semanas de cada vez, o que acho fantástico.

E na saúde, atualmente, onde é que temos nanotecnologia também?
Existem muitas aplicações para ajudar a combater a doença de Parkinson com recurso a nanotecnologia, como as que falamos previamente. Também a questão da vacina da Covid-19, com a tecnologia de mRNA que é fundamentalmente nanotecnologia. Foi o primeiro nanomedicamento que foi comercializado e, a partir daí, estão a ser desenvolvidas várias dentro deste género.

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