No dia de Santo António, em Lisboa, senti que estava a ser seguida. Corri, apesar de ter uma dor no joelho. Eram 23h. Quando cheguei à minha rua, fiquei descansada.
Na segunda vez que fui seguida, vinha de um jantar. Eram 23h30. Voltei a sentir o mesmo. Parei; a pessoa ultrapassou‑me e, quando virei para uma rua a caminho de casa, ele veio atrás de mim. Virei para a minha rua e continuei a ser seguida. Não corri. Parei, comecei a cantar “Povo que lava no rio” alto e peguei no meu apito, e comecei a apitar. Entre a música e o apito, a pessoa que me seguia passou por mim e seguiu. Só depois desci e entrei em minha casa.
Nos últimos dois meses, as notícias mostram, todos os dias, agressões a mulheres, em contextos familiares e por estranhos. Aparentemente somos um país de brandos costumes: leio a notícia, o agressor é detido para interrogatório e, pouco depois, libertado com comparências semanais na esquadra.
Acham que me sinto segura?
Não.
Tenho 56 anos; não me visto de forma chamativa, não uso nada que revele sinais exteriores de riqueza e não me enquadro no perfil de modelo ou Miss Universo. Mesmo assim, ando a olhar para trás.
Fora das sensações, percepções e outros sentimentos acabados em “ões”, quem governa não sente: passa a vida em automóveis com motorista, enquanto eu ando de transportes públicos. Quando caminho na rua a partir de determinada hora, o meu instinto entra em modo de sobrevivência, e agradeço ao apito que me acompanha desde os meus 23 anos. Não tenho guarda‑costas como aqueles que falam dos “sentimentos de insegurança” nos grandes comícios e púlpitos, sempre prontos a culpar partidos.
Se eu tenho medo?
Não. Costumo dizer que tenho medo de engordar, mas começo a ter medo pela minha filha e por todas as filhas de Portugal, por todas as mulheres que aqui vivem. Já tive de dizer à minha filha que não podia sair, porque poderia ser perigoso.
A violência contra as mulheres em Portugal mantém uma tendência alarmante. Em 2025, a APAV registou 35 341 pedidos de apoio, dos quais 73,9% relativos a violência doméstica. No mesmo ano, 25 mulheres foram assassinadas em contexto familiar — o valor mais elevado desde 2022. Em 2026, só no primeiro semestre, 11 mulheres foram mortas, confirmando a persistência de um fenómeno estrutural que o sistema continua incapaz de prevenir ou travar.
A insegurança feminina estende‑se também ao espaço público. Em 2025, a PSP e a GNR receberam mais de 3 800 denúncias de agressões, ameaças e assaltos a mulheres fora do contexto familiar, enquanto a Polícia Judiciária investigou 1 126 crimes sexuais, mais de 90% com vítimas do sexo feminino. Em 2026, cerca de 1 900 ocorrências envolveram mulheres atacadas na rua, nos transportes ou em trajetos quotidianos.
Este cenário exige medidas firmes: videovigilância eficaz no espaço urbano, unidades especializadas para denúncias de mulheres, e legislação aplicável e dissuasora em contextos familiares, escolares e comunitários. A resposta deve integrar uma agenda nacional anual de prevenção, com metas claras, monitorização pública e investimento contínuo na proteção das mulheres.