Poucos meses depois do já apelidado “crash da bolsa de 2020”, observámos a mais rápida e irracional recuperação da história dos mercados financeiros, num clima pautado por uma dicotomia entre aversão e tolerância ao risco. Ao evoluir com o ditado “o que hoje é verdade, amanhã é mentira”, assim têm transparecido constantemente as sessões dos mercados financeiros irracionalmente estáveis, onde o sentimento que hoje é de aversão pelo risco, amanhã poderá ser de incerteza.

Desde fevereiro, onde as bolsas de valores de todo o mundo registaram as maiores quedas desde a crise financeira de 2008 e da Black Monday, em 1987, que os mercados têm assumido uma subida avassaladora neste primeiro semestre de 2020. No entanto, esta subida tem sido muito suportada não só pela ajuda da Reserva Federal norte-americana (FED), mas também pela alocação de ativos nas FAAANM (Facebook, Apple, Alphabet, Amazon, Netflix e Microsoft), que multiplicaram em 3,25 vezes o seu valor desde 2015 e recuperaram já praticamente o que perderam com o impacto da Covid-19. Através de uma incoerência macroeconómica tremenda, a FED tem vindo a agravar o fosso entre o desenvolvimento da economia e a evolução dos mercados financeiros, por via de uma intervenção agressiva, que levou ao anúncio de uma injeção de 1,5 biliões de dólares, tal como foi referido recentemente num artigo da revista Barrons: “The Fed is being as charitable as Oprah, who is famous for giving away”. E a verdade é que só falta a FED começar a comprar casas, carros, imóveis e roupas velhas, com o objetivo de impulsionar a economia. Portanto, é importante seguir de perto os calendários macroeconómicos dos mais diversos países, pois isso envolve não só possíveis oscilações das taxas de juros e inflação, mas também estes planos e iniciativas de diversos governos para o curto, médio e longo prazo.

O Fundo Monetário Internacional (FMI), na revisão habitual das previsões económicas no fim de junho, prevê uma contração do PIB global na ordem dos 4,9% em 2020, avizinhando-se, assim, um período de recessão económica mundial. Também a Bloomberg Economics, através de um modelo criado no ano passado para aferir as probabilidades de existência de uma recessão nos EUA, indica que, neste momento, a probabilidade de uma recessão se vir a verificar é de 100%. E a verdade é que o Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos colapsou 32,9% no segundo trimestre de 2020, em ritmo anualizado, alcançando a queda trimestral mais abrupta de atividade da maior economia do mundo em, pelo menos, 70 anos. Também em Portugal se fez sentir o efeito do confinamento e do estado de emergência, com uma contração de 16,5% do PIB em relação ao período homólogo e de 14,1% face ao primeiro trimestre de 2020.

As estimativas dos economistas já eram bastante negativas, chegando muitas vezes a apontarem para uma queda do PIB próxima dos 20% neste segundo trimestre. Ainda assim, são vários os economistas que já tentam perspetivar quais os cenários de bonança a seguir a esta profunda tempestade. Muitos partilham da tese que as tecnologias digitais terão um impacto exponencialmente importante nas indústrias dos países mais e menos desenvolvidos, atribuindo-lhes um poderio económico competitivo essencial para que os fluxos de bens e serviços continuem a circular interna e externamente. Deste modo, poderá ser numa possível flexibilização dos mercados que se perspetivam as recuperações económicas mais rápidas. Isto faz com que diversos economistas tenham desenvolvido diferentes teorias baseadas em letras, como L, U, W e o V.  É numa recuperação em V ou W que se depositam as maiores esperanças, tal como aconteceu em diferentes países na recente crise de dívida soberana em meados de 2008/2009.  Acontece ,que desta vez, o problema não está apenas no peso da dívida pública, que torna a normalização dos mercados e das políticas monetárias uma distante ilusão. A estratégia de fixação das taxas de juro próximas de zero e a injeção massiva de liquidez teve um impacto tremendo na valorização dos ativos financeiros, pelo que uma reversão destas políticas teria um efeito catastrófico na estabilidade do sistema financeiro internacional.

É nesta perspetiva macroeconómica, que aspetos relacionados com a transformação digital e as recentes alterações dos hábitos de compra dos consumidores podem vir a catapultar o tecido empresarial e os fluxos de mercado. Principalmente, em países que primem pela exportação de produtos e possível desvalorização da sua moeda, podemos vir a observar inúmeras disrupções na evolução normal do equilíbrio e controlo da inflação. Isto é, se olharmos para um cesto de compras, a situação está a tornar-se cada vez mais competitiva, porque os consumidores podem comprar diretamente aos produtores através do suporte de canais digitais e encurtar cada vez mais a cadeia de valor a montante. Países historicamente exportadores, que idealmente têm procurado, desde as suas fundações, pelo predomínio de políticas monetárias que primem pela redução do valor da sua moeda em relação às demais, podem sentir um impacto maior desta nova realidade. Por exemplo, o Japão tem procurado um balanço intemporal entre todos estes fatores, no sentido de alavancar o poder de compra dos seus clientes e parceiros externos em relação às matérias-primas e produtos fabricados internamente. Ainda assim, quem é que previa que o contexto atual pudesse vir a ter consequências nos fluxos de produtos a nível global, que, por sua vez, levou a uma alteração drástica das balanças comerciais destes países, contrariando as dinâmicas habituais dos mercados? A economia nipónica é a epítome desta tendência, tendo atingido, em junho, valores mínimos mensais de exportações desde maio de 2009 (1).

Muito se tem ouvido e lido sobre o crescimento do comércio eletrónico a nível mundial. Esta é uma realidade que tem forçado a digitalização nos mais diversos setores de negócio à escala global, exigindo uma premente resiliência e agilidade estratégica e operacional dos responsáveis por estes processos. Cerca de 10% das vendas globais de retalho são realizadas online, sendo que metade é proveniente de dispositivos móveis (2). Na última década, o retalho online cresceu 20% por ano, muito mais rápido que o mercado offline. Já em Portugal, de acordo com um estudo recente realizado pelos CTT – Correios de Portugal (3), o e-commerce, em 2018, cresceu 17,0% em Portugal (mais 4,5 pontos percentuais face a 2017), alcançando um valor total na ordem de 5 mil milhões de euros.

Depois de meses pautados pela incerteza e instabilidade, o denominado “retorno à normalidade”, tanto PME como empresas multinacionais começam a repensar as suas estratégias a curto, médio prazo. Já se recalculam orçamentos e repensam estratégias, sendo que quem se adaptou mais rapidamente ao investir numa sólida presença online, poderá conseguir sobreviver de forma mais ágil e eficiente a um futuro próximo que se avizinha conturbado. É neste sentido que a promoção da economia digital e, consequentemente, a digitalização dos negócios e processos empresariais poderão realçar novamente a correlação e racionalidade habitual entre a economia, o comportamento dos mercados financeiros e as políticas monetárias.

A presença de uma economia cada vez mais digital poderá ajudar a nivelar as sinergias dos fluxos físicos e digitais das empresas no panorama atual pós-pandémico, sendo que, por sua vez, a continuidade do paradigma monetário expansionista tenderá a agravar as situações de endividamento excessivo das empresas e a alavancar a valorização dos mais diversos ativos financeiros.

Doravante, os policy makers terão de repensar o seu modelo de atuação numa sociedade e economia cada vez mais ligada digitalmente pelos diversos canais disponíveis. A Covid-19 chegou de rompante e teve um impacto extremamente brusco na dinâmica social e económica mundial. Num curto espaço de tempo, mudámos hábitos de gerações, transformámos cadeias de valor completas de produtos e serviços, reconvertemos fábricas, bem como as perspetivas de gestão e liderança. Por conseguinte, as empresas estabelecidas devem reconhecer que uma postura adaptativa é condição obrigatória para o sucesso num mercado exponencialmente competitivo. Ao nível monetário, apesar das injeções de liquidez e das políticas de apoio fiscal terem impedido uma crise de solvência, ao mesmo tempo, permitiram criar uma discrepância entre a realidade dos indicadores económicos e o comportamento dos mercados. Desde a última crise financeira, que a política monetária tem assumido grande responsabilidade pelo estímulo das diversas economias mundiais, mas o escasso efeito que estas políticas têm tido sobre os preços será um efeito momentâneo ou duradouro? Será que vamos ser capazes de gerir a inflação da economia mundial, caracterizada pela crescente concorrência e domínio dos produtos e serviços digitais?

Esta nova realidade digital tem originado novos modelos operacionais muito conectados, através de grandes plataformas e comunidades digitais que vão ser fulcrais para a manutenção da competitividade empresarial. Neste contexto, nem tudo está rodeado de pessimismo, pois poderão surgir muitas oportunidades de investimento e a presença digital será, sem dúvida, uma delas. No entanto, caso não se efetive uma recuperação em “V” no segundo semestre de 2020 e as consequências financeiras da Covid-19 se assumam como mais duradouras e profundas, agravando ainda mais a dicotomia dos mercados, então a recuperação mais provável será menos célere e pautada pelo medo e por (mais) uma crise económica profunda.

(1) Ministério das Finanças, Japão

(2) IPC Global Postal Industry Report 2019

(3) eCommerce Report 2019