Uma Aula Magna é uma Aula Maior, uma Aula Importante, algo que vale a pena aprender. É por esse conteúdo expectável que os auditórios com tal designação se podem encontrar no mesmo edifício das Reitorias das Universidade Públicas. Uma universidade pública é, por definição, uma instituição de interesse público — não apenas porque é financiada em parte pelo Orçamento de Estado, mas porque serve finalidades maiores: a construção do saber, a promoção da ciência, a formação crítica dos cidadãos. A Aula Magna, enquanto espaço nobre e simbólico da universidade, não pode ser tratada como um mero auditório disponível para qualquer evento circunstancial. A sua utilização deve obedecer a critérios de responsabilidade institucional, tendo sempre em vista o interesse público e a dignidade da missão universitária. Não se trata de impor censura, mas de reconhecer que há espaços cujo uso comunica valores, compromissos e prioridades — e que, por isso, devem ser geridos com ponderação e sentido ético.

Imagine agora, caro leitor, que nas Aulas Magnas das nossas Universidades Públicas passamos a ter a seguinte agenda:

Na Aula Magna da Universidade de Lisboa, decorre uma cerimónia pública de exorcismo. Não se trata de teatro experimental: o maior exorcista europeu, com crucifixo em riste e voz gutural, invoca os arcanjos para expulsar demónios que terão possuído diretores de faculdades e de centros de investigação — que, curiosamente, resistem em latim.

Em Coimbra, a vetusta universidade acolhe na sua Sala dos Capelos um Encontro Internacional de Xamanismo Ibérico. Entre neblinas de incenso e tambores em transe, diversos xamãs com penas de águia dão voz a espíritos da floresta, enquanto um deles — vindo do Alto Minho — jura ter sido corvo num ciclo anterior de reencarnação. Qualquer participante é convidado também a assumir em público o animal que foi em vidas anteriores.

Na Universidade do Porto, o Salão Nobre da Reitoria converte-se num palco mediúnico, onde médiuns de renome internacional conduzem uma sessão colectiva de contacto com o além. Qualquer membro da audiência pode levantar-se e conversar com antepassados e figuras históricas como D. Sebastião, o qual, segundo consta, voltará sob forma ectoplásmica.

E em Vila Real, na UTAD, com a solenidade própria da sua Reitoria, recebe-se a seita Divine Truth, movimento místico internacional que traz consigo, nem mais nem menos, a reencarnação oficial de Jesus Cristo e Maria Madalena. Com aura de iluminação e microfone wireless, o novo Messias partilha mensagens “canalizadas” do Reino dos Céus — se a ligação divina não falhar.

De todas estas hipóteses de agendas interessantes, qual acha o leitor que é a verdadeira? Todas parecem falsas certo? Mas não!  No caso da UTAD é mesmo real e foi no fim-de-semana de 20, 21 e 22 de junho. Se o leitor não teve oportunidade de ir, perdeu a grande possibilidade de ver ao vivo a reencarnação de Jesus Cristo e de Maria Madalena. Em Portugal! Em Vila Real! Numa Universidade Pública. Na única Universidade Pública em Portugal que nos quis trazer a ‘Divina Verdade’. A Reitoria da UTAD revela mais uma vez a sua capacidade de ser exemplar e inovadora e de levar a cabo o interesse público ao dar a conhecer aos seus alunos, professores e toda a comunidade de Vila Real e Trás-os-Montes (e mesmo todo o país!) uma seita australiana muito relevante com Jesus Cristo e Maria Madalena a aparecerem pela primeira vez em carne e osso em Portugal. E numa Aula Magna!

Será isto possível? O que é afinal uma Aula Magna? “Aula Magna” significa uma Aula Inaugural de um ano académico na Universidade. Etimologicamente parece que tal conceito recua às universidades medievais como Bolonha, Paris, Oxford e Salamanca. As Aulas Magnas das Universidades, associadas às Reitoria, estão alinhadas com as missões das Universidades e seu serviço público, em princípio reforçando o prestígio do saber e da vida intelectual.

A Universidade é um centro do serviço público e tem de guiar-se pelo interesse público. A universidade pública não é apenas um espaço de ensino: é um pilar da democracia, da ciência, da cultura e da cidadania. Deve ser exemplo de racionalidade, espírito crítico e elevação cívica. A Nova Gestão Pública tornando tudo vendável, que possibilitou, grandemente a partir dos anos 80 do século passado, o aluguer de espaços universitários…deverá ter limites. Ou não!? Se um espaço de prestígio máximo como uma Aula Magna de uma Universidade, associada diretamente à reitoria, se aluga a uma seita religiosa, o que quer isso dizer dessa mesma reitoria? E da Universidade? O que está mais para venda?

Quando um espaço como uma Aula Magna, associada à Reitoria se aluga a uma seita religiosa num Estado laico como o Português que deve manter neutralidade em relação a todos os cultos religiosos, significa o quê exatamente?  A Divine Truth é um movimento liderado por Alan John Miller, que afirma ser a reencarnação de Jesus Cristo. Tem uma componente espiritual e de autoajuda e é frequentemente classificada como seita por estudiosos de religiões. É controversa, não reconhecida como religião em Portugal e sem presença institucionalizada. Aceitar um evento deste grupo na Aula Magna da UTAD pode ser a) percebido como legitimação de uma crença marginal, b) é certamente contraditório com o papel da universidade como espaço de pensamento crítico e científico e c) é potencialmente lesivo da imagem pública da instituição, mesmo que não ilegal. Mas a Reitoria abriu a portas a esta Verdade, apesar de ter havido professores a contestarem tal propósito. E quem escrutina os Reitores e os seus comportamentos?!

Tudo isto é responsabilidade de um reitor que não se recandidatou depois de um escândalo em que assumiu publicamente que vigiava os seus professores. Um reitor que terminou o seu mandato a 14 de maio de forma desprestigiante. Um reitor que se mantém em funções mesmo sem Conselho Geral, percebendo-se assim claramente que os Conselhos Gerais das Universidades não servem para nada! É este mesmo reitor que legitima a ocupação da Aula Magna da Universidade com a Divina Verdade e a reencarnação de Jesus Cristo e de Maria Madalena.

O Fórum Auditoria Cidadã ao Ensino Superior (FACES) apresenta-se como um colectivo aberto a todos os professores do Ensino Superior e demais cidadãos que pretendam apresentar factos de forma pública sobre a situação deplorável a vários níveis em que o Ensino Superior se encontra em Portugal, evidenciando a sua indignação pública e pugnando por uma auditoria cidadã e uma transformação urgente.
Os Promotores do FACES (faces.auditoria@gmail.com): Paulo Castro Seixas (Universidade de Lisboa) e Levi Leonido (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)