Portugal está a envelhecer. Esta afirmação, repetida inúmeras vezes, já não surpreende ninguém. Segundo os últimos dados, por cada 100 jovens, há hoje mais de 190 pessoas idosas no nosso país. Esta realidade demográfica devia ser suficiente para colocar o setor dos cuidados a idosos, incluindo lares, no centro de qualquer estratégia nacional de desenvolvimento social e económico. E, no entanto, continuamos invisíveis.
O recém-aprovado Programa do XXIV Governo ignora, mais uma vez, o papel essencial que estas instituições desempenham na vida de milhares de famílias portuguesas. Lê-se sobre saúde, infraestruturas, habitação, emprego. Mas o setor dos cuidados aos idosos não aparece com a força e a prioridade que exige a realidade demográfica do país.
Este silêncio é grave. Não se trata de um simples esquecimento. É um reflexo estrutural da forma como, há décadas, Portugal empurra o tema do envelhecimento para a margem do debate político e do investimento público. A verdade é crua. Continuamos a pensar o envelhecimento como uma responsabilidade individual e familiar, e não como um desafio coletivo de um Estado social moderno. Precisamos de um verdadeiro Plano Nacional para o Envelhecimento.
Hoje, os lares em Portugal enfrentam sérias dificuldades. A escassez de profissionais qualificados e motivados é evidente. Falta investimento sério na qualificação e dignificação da profissão de cuidador geriátrico. As tabelas de comparticipação pública estão desajustadas face aos custos reais das instituições com qualidade. E o investimento público na criação e modernização de infraestruturas continua manifestamente insuficiente.
Milhares de famílias continuam forçadas a procurar soluções privadas ilegais por desespero. O Estado permanece ausente da vida das famílias com idosos com elevados graus de dependência, limitando-se demasiadas vezes ao papel de regulador formal, quando deveria assumir um papel ativo de planeamento, financiamento e fiscalização rigorosa.
Não existe política de saúde pública sustentável que integre os cuidados de saúde e os cuidados de longa duração de forma estruturante. Não se pode falar de investimento em saúde sem olhar para esta rede que, todos os dias, evita internamentos hospitalares prolongados, reduz infeções hospitalares, combate o isolamento social, promove bem-estar físico e mental e assegura cuidados diários a milhares de idosos.
É hora de o Governo ouvir o setor. Os profissionais, as famílias e os próprios idosos merecem que se pare de falar apenas de envelhecimento ativo, do aging in place e do estatuto do cuidador em discursos vagos e se construa uma política concreta, com metas e ações promotoras de dignidade para quem cuida e para quem é cuidado.
Portugal tem hoje uma oportunidade de assumir, com coragem política, que o envelhecimento é um pilar central do seu desenvolvimento. Mas para isso é preciso que os lares e os idosos deixem de ser invisíveis. O setor não pode continuar a ser o parente pobre das grandes decisões estratégicas do país.
As famílias exigem. Os profissionais merecem. E nós, enquanto sociedade, não podemos continuar a ignorar.