Em crianças ensinam-nos a dizer “obrigado/a” e a palavra ganha muitas vezes contornos de frete ou de fardo, sem sabermos que um dia ela não chegará para expressar um sentimento que cresce com a idade.

Há uma geração (mais do que uma) que tem agora 40 ou 50 anos e que aprendeu a agradecer. Viemos de um tempo em que do nada se fez muito, e sentimo-nos privilegiados por termos remado contra a maré.

Há dias, a minha filha perguntou-me se eu era tímida em miúda e eu hesitei na resposta. Eu era tímida mas queria pertencer a uma tribo – à dos que conhecendo e reconhecendo música, querem aproximar-se de outros semelhantes. Então contei-lhe que um dia no comboio, numa das muitas idas ao médico, na viagem que me levava à cidade, eu que nem era ainda adolescente encorpada, comecei a ficar inquieta ao lado da minha mãe, porque à minha frente seguia um homem com uma t-shirt dos Joy Division. Eu tinha de lhe dizer que conhecia aquela banda. E disse-lhe de dedo pequeno apontado — eu sei que banda é essa! Foi assim que quebrei a minha timidez e nunca mais deixei de dizer aos outros aquilo de que gosto.

Nessa prodigiosa década de 80, chegavam-nos ainda poucas – muito poucas coisas à mão, a não ser que alguém mais velho nos abrisse o caminho. Tive a sorte dessa mão ser um irmão que mesmo sem recursos, teimou em conhecer aquilo que nos haveria de definir. Havia uma aparelhagem (sou do tempo em que dizíamos aparelhagem, termo que nos parece agora tão geriátrico. Qualquer nome em inglês traz outra moldura à mesma coisa…) e essa aparelhagem não teve muita escolha mas teve só bons discos. A um Deus Desconhecido da Sétima Legião foi um deles. Havia nesse disco uma melancolia importada mas que nos assentava impecavelmente sem necessidade de arranjo(s)… Desde logo o nome do Ricardo Camacho andava ali por casa, estando nós tão longe de o conhecer. O Ricardo Camacho era aquele homem de ar delicado que haveríamos de ver algumas vezes na televisão a falar da dualidade de ser músico e médico nos anos em que a Sida rebentou com a nossa vulnerabilidade e levou muitos com o estigma de ser uma doença só dos condenados. O Ricardo Camacho era médico e produziu, por exemplo, o António Variações, que o VIH levaria sem piedade, deixando-nos a vida o presente de o continuar a ter registado em disco para o ouvir.

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Nesses anos 80 em que vivi longe do centro do mundo, alguns discos rodaram insistentemente na nossa velha aparelhagem, e neles havia um nome em comum: o Ricardo Camacho. Exibíamos com orgulho o Amigos em Portugal dos Durutti Column de Vini Reilly, que a Fundação Atlântica editara, numa espécie de capricho elitista que todos agradecemos décadas. Hoje ainda. Hoje mais do que nunca. Querer conhecer música nova e aventurarmo-nos por ela (até mesmo quando perdemos dinheiro com isso) não tem nada de elitista: é querer provar ao mundo que estamos vivos e que podemos fazer a diferença. Foi isso que fizeram o Miguel Esteves Cardoso, o Ricardo Camacho ou o Pedro Ayres Magalhães na altura: fundaram uma editora a partir da qual faziam brotar coisas de uma nostalgia que ainda não tinha tempo. Era tudo de uma elegância para a qual ainda não encontrávamos palavras: a Anamar, o Clube Naval e esta aventura de Vini Reilly que muito poucos conheciam. Ainda hoje.

Quando esta manhã na rádio soube da morte do Ricardo Camacho (ontem tinha sido o americano Richard Swift, músico e igualmente produtor) dei por mim a olhar pelo retrovisor que surge facilmente na nossa consciência e onde todos vemos o passado pelo caminho já percorrido. O Ricardo Camacho sem saber, fez parte desse meu passado, do mesmo que me fez descobrir Virginia Astley, The Gist ou a Sétima Legião. Ou se quiserem, perceber da grandeza de um tema como o “Foram Cardos foram Prosas” que Manuela Moura Guedes cantou e que tinha letra do MEC e música do Ricardo Camacho. Vivemos muito nessa altura dos ecos de uma certa Inglaterra bucólica (imprescindível conhecer From Gardens Where We Feel Secure da Virginia Astley) que adaptámos à nossa tristeza intrínseca.

Os nossos heróis estão agora a desaparecer. Olhei para a estante à procura do Escrítica Pop (do MEC) e dei de caras com O Medo do Al Berto, pensando que ambos têm o mesmo peso para mim. Fui de uma determinada tribo inconscientemente, porque li ambos, ou melhor ainda: quis saber o que me reservava aquela leitura.

Com o desaparecimento do Ricardo Camacho que nunca conheci, é como se a velha aparelhagem perdesse um pouco do seu brilho. Já a memória dos anos passados o ofuscava, mas agora pelo retrovisor essa memória fica ainda mais turva.

Voltemos então à tal palavra desajeitada que nos ensinaram a dizer em miúdos e que não saía com sentido, a não ser por obrigação: obrigada. Obrigada a quem teimou em abrir caminhos, querer fazer diferente e bonito, procurar a elegância nos pequenos detalhes e arranjos. Essas pessoas, como o Ricardo, sem saberem, ajudaram-me a estar aqui a escrever este texto e a fazer da rádio, uma paixão.

O Ricardo Camacho ajudou a salvar vidas em duas frentes de batalha: na investigação médica que nunca abandonou e na música, quando nos mostrou que em Portugal também se podia fazer a música que havia de perdurar até hoje. Sim ainda hoje passei o António Variações, a Sétima Legião, os Durutti Column.

A paixão que entregamos às coisas, alimenta a memória.

A estes pequenos deuses, alguns pouco conhecidos, muito obrigada.

Inês Maria Meneses é autora dos programas Fala com Ela e PBX da Rádio Radar