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Tínhamos vinte e tal anos e descíamos uma rua de Lisboa a alta velocidade a ouvir a cassete de Aretha Franklin. Naquela cassete, ficou preso um amor, que tal como a música, viveu para sempre. Hoje, ao receber a notícia da morte de Aretha, lembrei-me daquela que fui e de como os amores vivem também por causa das canções. Ninguém pode fazer uma cassete sem ir ao passado. Desenganem-se com essa ideia de que as cassetes são coisa de outro século…

Ainda há dias tive uma conversa com a minha filha ao jantar, sobre a bênção de termos comida, bebida e música à mesa. Eu aprendi a gostar muito da palavra bênção, apesar de ela ter dois acentos e isso a tornar pesada, mas ninguém viverá leve o resto da vida sem abençoar tudo o que tem. Aqui à mesa, abençoamos as dádivas do dia-a-dia e a música é uma delas. Alguns saberão que me regenero com ela. E que ela me catapulta para o dia seguinte, para o prazer e para a próxima dor: para o risco, no fundo, de estar viva.

O Pedro (Ramos) lembrava-me muitas vezes do facto de a Aretha ainda estar viva. Como se no nosso cálculo mental de todos os grandes que nos deixaram (e Deus só pode ter-se tornado melómano) ela teimasse em permanecer aqui e soubesse resguardar-se da fome da fama. É tramada essa fome, porque nos levará à carência cega, e essa só puxa o desnecessário.

Aretha estava doente, mas combateu o cancro como uma gigante que era. Continuou a cantar porque, como me ensinou a minha mãe (que também batalhou como uma gigante), “Mente vazia, oficina do Diabo”. A minha mãe ia de certeza entender-se com Aretha: estar parado é que é morrer. Aretha continuou a cantar e gravou ainda um último disco: “A Brand New Me” – tenho a certeza que agora o iremos escutar com outros ouvidos, como fizemos com Bowie e Cohen. Procuramos nas últimas palavras deles mais ferida para a dor que no fundo não queremos saciar. É impressionante como a morte acaba por ser combustível para as nossas vidas.

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Aretha morre no dia em que Madonna faz 60 anos. São mulheres muito importantes, sim. Que ninguém se atreva a pensar que o mundo seria o mesmo sem elas. Eu era demasiado nova para perceber que Madonna já era uma activista e que aceitava entregar o corpete às balas em nome da igualdade de género. Aretha foi a primeira mulher a fazer parte do Rock & Roll Hall of Fame em 1987. Nessa altura, andava eu a ouvir “Papa Don’t Preach” da destemida Madonna.

Contrariando os chavões — dos quais não sou apreciadora — percebo hoje a importância de resumirmos Aretha a “Rainha da Soul”. Para os miúdos (a leste do paraíso da música dela), ao receberem o impactante título noticioso, provavelmente vão querer saber mais. Espero que queiram. Espero que vivam um amor, ao som de uma música como “Baby, Baby, Baby”. Não é preciso dizer já que dificilmente não haverá amor sem dor. Como é que se faziam canções?

Aretha morre aos 76. Nina Simone se fosse viva, teria 85. São raros os dias em que não me lembre de Nina Simone (e não a ouça) por causa do documentário “What Happened, Miss Simone?”. Nina viveu aprisionada por uma dor nascida da discriminação que só se saciou nas canções e… não chegou. Vou lembrar-me para sempre do momento em que ela conta que os brancos mudavam de passeio quando ela ia na rua – ela, uma criança negra, que só queria aprender a tocar piano. Essa dor ficou-lhe para sempre. Como se a vida não nos desse ferramentas para nos salvarmos. Não dá a todos, não. (Mal ela sabe que tantas vezes acordámos melhor, por a podermos ouvir).

Aretha junta-se então hoje aos que partem, deixando uma herança perante a qual me vergo. Eu não tenho inveja ou admiração pelos que se tornaram milionários, mas apenas por aqueles que tiveram a fortuna de nos tornar melhores com o seu dom. São esses que vão ser lembrados.

Na minha memória está uma cassete infinita feita por estas mulheres que em muitos casos, abdicaram de muitas coisas em nome da música, para passar a mensagem da liberdade e da igualdade de género. Aretha morre aos 76. Madonna está viva aos 60.

“I say a little prayer”.

Inês Maria Meneses é autora dos programas Fala com Ela e PBX da Rádio Radar