Em 1947, António José Saraiva diagnosticava que a escola dava em troca “essa coisa dispersa e acéfala que é a aula coletiva, onde os alunos estão ligados pela solidariedade do tédio”. Passados 78 anos, o tédio continua a ser o mais corrosivo dos ácidos em educação e muitos dos nossos alunos reconhecem-se nesta descrição de sala de aula, vivendo suspensos num “…deixar correr o tempo [até ao toque] porque tanto faz o dia de amanhã como o de hoje”.
Este diagnóstico arrasador do ensino cravou-se em mim desde o meu estágio, em 2001, e foi motivação, quer, na época, para a escrita de um artigo com o título “Não quero dar aulas, quero ser professora!”, quer para o compromisso figadal de me desafiar, diariamente, para que o meu espaço de aprendizagem, pedindo emprestadas as palavras a António Guerreiro, seja um “lugar de uma experiência única, insubstituível e capaz, às vezes, de proporcionar uma experiência eufórica”.
No trilho deste compromisso, tenho presente o 5.º artigo do Estatuto da Carreira Docente, que concede, ao professor, o direito a participar na definição das orientações pedagógicas, o direito à autonomia técnica e científica e à liberdade de escolha dos métodos de ensino, das tecnologias e técnicas de educação e dos tipos de meios auxiliares de ensino mais adequados e o direito a propor inovações e a participar em experiências pedagógicas, bem como nos respetivos processos de avaliação.
É nestes direitos que têm âncora os “superpoderes” do professor, a saber: Autonomia, Criatividade, Inspiração, Autoridade pela confiança, Poder de ação e de realização, Flexibilidade, Empatia, Colaboração, Aprendizagem contínua, Comunicação assertiva, Reflexão crítica, Inovação e Paixão.
Mas, no quotidiano da escola, que professor se atreve a vestir esta “capa de superpoderes?”
O professor que não se contenta com a monotonia pedagógica, não procura o conforto da rotina e que não tem medo de ousar; o professor que faz questão de exercer a sua ação com autonomia, com liberdade e com responsabilidade; o professor que (re)inventa constantemente o gosto por ensinar, por aprender e por avaliar; o professor que (re)imagina o futuro da educação incluindo todos; o professor que exerce a autoridade pela confiança, estabelecendo uma relação positiva e autêntica com os seus alunos; o professor que é um perpétuo aprendente; o professor para o qual não há um caminho a seguir (normalmente imposto), mas sim o caminho que deseja oniricamente trilhar; o professor que junta criatividade e inspiração a um vasto repertório científico, pedagógico e tecnológico; o professor capaz de desenhar múltiplos percursos e recursos para que os seus alunos aprendam com significado; o professor que partilha da visão do ensino como profissão e como arte. Em súmula, o professor que acredita que, todos os dias, faz a diferença e que vive e trabalha para que, mesmo fisicamente ausente, permaneça eternamente presente.
Este colocar do professor no coração da mudança e da transformação que se almeja para a educação deste século foi sobejamente vincado no Education Summit e está alinhado com o relatório da UNESCO Reimaginar nossos futuros juntos – Um novo contrato social para a educação que enfatiza o “reconhecimento dos professores pelo seu trabalho como produtores de conhecimento e como figuras fundamentais na transformação educacional e social”, significando que “a autonomia e a liberdade dos professores devem ser apoiadas, e que eles devem participar de forma plena do debate público e do diálogo sobre os futuros da educação”.
Em Portugal, é premente e urgente, por um lado, incrementar os debates sobre os futuros da educação e fomentar ativamente a participação dos educadores e professores de todos os níveis de ensino nos mesmos e, por outro lado, que os próprios professores se vejam (e revejam) como verdadeiros protagonistas, como atores encarregados do papel principal no novo contrato social para a educação, totalmente cientes que a mudança global da educação se inicia na “sala de aula” de cada um.
A tão almejada mudança global da educação precisa de todos e de cada professor e exorta-os a transformar a sua “sala de aula” num modelo de escola cidadã: criativa e inspiradora, inclusiva e vivencial, humana e democrática. E é aí que mora o real e universal impacte da sua ação, como diria Leon Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.
Nota biográfica:
Professora de Biologia e Geologia no Agrupamento de Escolas Rosa Ramalho, em Barcelos. Mestre em Ciências da Educação – Administração e Organização Escolar.
Mentora do Projeto Era uma vez…com ciência.
Formadora acreditada pelo CCPFC desde 2010.
Colaboradora ativa da Casa das Ciências – EDULOG: Fundação Belmiro de Azevedo. Embaixadora da INTUITIVO.
Professora-autora da Plataforma Digital MILAGE APRENDER+.
Vencedora do Global Teacher Prize Portugal 2024.