Há um consenso preguiçoso nos corredores e nos eventos de ‘inovação’: ‘O mercado é assim’. E pronto, fica tudo justificado. Como se a tecnologia fosse um campo neutro, um laboratório esterilizado onde só contam linhas de código e ‘performance’. Na prática, para muitas mulheres, a carreira tecnológica é um tapete rolante que promete subida e entrega atrito. E, quando elas saem, chamamos isso de ‘escolha pessoal’ – o eufemismo favorito de quem não quer pagar a conta.
O problema não é falta de capacidade. É excesso de fricção. O quotidiano está cheio de microtaxas: a reunião em que a ideia é ignorada até ser repetida por um colega; a avaliação em que “confiança” pesa mais do que resultados; a promoção que exige disponibilidade infinita, como se vidas não tivessem família, saúde, limites. Some-se a isso ambientes que toleram o assédio como “brincadeira”, a desigualdade salarial tratada como “ajuste de mercado”, e a solidão de ser sempre “a única” na sala. E há ainda um detalhe tão banal quanto cruel: a gravidez – ou a mera possibilidade de engravidar – a pairar como um asterisco invisível, como se fertilidade fosse critério profissional, como se um corpo capaz de gerar vida fosse, por definição, um risco operacional. Não é exceção. É prática silenciosa. E é estrutural. O tal pipeline é um cano furado: não falta água; há vazamentos em cada curva, e depois culpamos a chuva.
E há o estrangeiro, claro. Não por magia, mas por cálculo. Quando o mercado global paga melhor, oferece progressão mais previsível – e, às vezes, algo radical, o respeito básic -, a decisão torna-se quase matemática. Depois admiramo-nos: “Estão a ir embora”. Sim. Nós formamos, nós cansamos, nós barateamos, e exportamos.
Quando o país perde essas profissionais, não perde apenas diversidade num slide. Perde capital produtivo. Cada desistência é investimento evaporado: anos de educação, estágios, formação interna, mentorias, pagos por famílias, empresas e Estado, que acabam a reforçar a produtividade de outro lado. É um modelo de exportação ao contrário: nós subsidiamos, outros colhem. Chamemos-lhe pelo nome: transferência líquida de valor.
O custo económico é silencioso porque não aparece numa fatura, mas aparece no que não acontece. Menos mulheres a criar produtos significa menos perspectivas a identificar falhas, menos mercados servidos, menos inovação útil. Equipas homogéneas tendem a construir para si mesmas – e depois ficam chocadas quando a “solução” não serve metade da população. Perdem-se receitas, perdem-se empresas, perde-se competitividade. E perde-se também arrecadação: salários que não são pagos cá, impostos que não entram, consumo que não acontece, investimento que não se fixa, e um efeito multiplicador que desaparece sem barulho.
No plano social, o dano é cumulativo. Quando mulheres saem, os modelos desaparecem; quando os modelos desaparecem, a próxima geração entra já a pensar em saída. É um ciclo de autojustificação: “não há mulheres” vira desculpa para não as contratar; a falta de contratação vira prova de que “não aparecem”. Uma profecia que se cumpre com a eficiência de um algoritmo mal calibrado, e com a mesma falta de auditoria.
Se quisermos parar de perder talento, não basta pedir resiliência. Resiliência é o nome elegante para aguentar o que é evitável. O que funciona é reduzir fricção: critérios claros de progressão, tolerância zero a assédio e retaliação, transparência salarial, avaliação baseada em evidência, horários que reconheçam a vida real, patrocínio (não só mentoria) para acelerar carreiras. E, sobretudo, liderança disposta a abandonar o teatro da meritocracia quando os bastidores continuam viciados.
Porque a pergunta não é “por que elas saem?”. A pergunta é: quanto tempo mais o país vai aceitar este imposto invisível sobre a sua própria modernização, e continuar a chamar-lhe “normal”?
O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.