A tecnologia nunca foi tão avançada. Tomamos decisões em tempo real, escalamos produtos globalmente e influenciamos milhões de pessoas através de código, dados e algoritmos. Ainda assim, algo permanece estruturalmente frágil: a forma como formamos quem lidera.
Durante anos, a liderança em tecnologia foi tratada como uma extensão da competência técnica. Conhecimento é poder. Quem sabe mais, decide mais. Quem entrega resultados, sobe. Mas num setor onde decisões técnicas moldam comportamentos, culturas e até democracias, esta lógica tornou-se insuficiente — e, em muitos casos, perigosa.
O problema não é falta de talento. É falta de maturidade emocional e integração sistémica.
A educação em tecnologia continua centrada em hard skills, performance e velocidade. Pouco ou nada ensina sobre autoconhecimento, regulação emocional, tomada de decisão ética ou impacto humano. O resultado é visível: burnout generalizado, culturas tóxicas, liderança reativa e equipas desconectadas do propósito do que constroem.
Autoconhecimento não é um conceito abstrato ou “soft”. É uma competência estratégica. Um líder que não reconhece os seus padrões internos — medo, necessidade de validação, controlo ou evitamento, acaba por projetá-los nos outros e no sistema. Em tecnologia, onde o poder de decisão é elevado, essa falta de consciência amplifica riscos.
Foi também esta constatação que marcou a minha própria trajetória. Depois de 5 anos numa Big Tech, com estabilidade, visibilidade e crescimento contínuo, percebi que o sucesso externo já não compensava a desconexão interna. Globalmente, a pandemia acelerou essa percepção: expôs fragilidades emocionais, lideranças despreparadas e a urgência de modelos mais humanos. A minha decisão de mudar não foi estratégica; foi profundamente identitária, com mais propósito.
É aqui que a mentoria assume um papel central. Não como aconselhamento técnico, mas como espaço de espelhamento, escuta e maturação. A mentoria permite aquilo que o sistema raramente oferece: tempo para pensar, integrar experiências e desenvolver consciência. Para muitas mulheres em tecnologia, este processo acontece fora das estruturas formais e, muitas vezes, tarde demais.
A educação não formal de qualidade surge, por isso, como complemento essencial. Comunidades, programas alternativos e aprendizagem experiencial criam espaços onde se trabalha identidade, comunicação, liderança e ética. Não substituem a formação técnica mas tornam-na sustentável.
Dados recentes, como os apresentados no Women in Tech Survey 2025 da Web Summit, mostram avanços, mas também sinais de retrocesso na percepção de progresso da igualdade e da inclusão no setor. Ignorar a dimensão humana da liderança não é apenas um problema social; é um risco competitivo.
É neste contexto que iniciativas da sociedade civil assumem um papel complementar ao sistema formal. Ecossistemas como a Women Leaders Circle, apoiados por um board internacional de mentores, têm vindo a apoiar mulheres em transição de carreira, líderes e empreendedoras, criando espaços estruturados de desenvolvimento e liderança com impacto humano e social.
A tecnologia precisa de líderes mais humanos, com visão sistémica.
Investir em maturidade emocional, autoconhecimento e mentoria já não é uma escolha: é uma urgência estrutural. E hoje temos a oportunidade de fazer diferente.
Porque o futuro não vai esperar, e nós também não devemos.
O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.