Há jogadores que passam pela Seleção. E há jogadores que mudam para sempre a dimensão da Seleção. Cristiano Ronaldo pertence à segunda categoria. Por isso, aquilo a que assistimos nos últimos dias não é apenas uma divergência entre um selecionador e um jogador. É um caso de liderança mal gerido que nunca deveria ter chegado a este ponto.

Jorge Jesus tem todo o direito de decidir quem joga. Este princípio é indiscutível. Cristiano Ronaldo, como qualquer outro futebolista, pode ficar no banco, pode ser substituído e pode até não ser utilizado. O selecionador afirmou precisamente que nenhum jogador mudaria as suas ideias e que as regras eram iguais para todos. Mas uma coisa é autoridade. Outra é saber exercê-la. E foi aí que, na minha opinião, Jorge Jesus falhou.

Neste momento, conhecemos apenas parte da história. Mas aquilo que já conhecemos permite fazer uma pergunta legítima: era mesmo necessário gerir desta forma um jogador desta dimensão e com esta história na Seleção? Porque Cristiano Ronaldo é um homem que dedicou mais de duas décadas à camisola portuguesa e que transformou o nome de Portugal numa referência permanente do futebol mundial. Nada disso lhe concede o direito de escolher quando joga. Mas concede-lhe, seguramente, o direito de ser gerido com inteligência e sensatez.

Quando um treinador precisa de sublinhar publicamente que decide tudo, que nenhum jogador altera as suas ideias e que nem jogadores nem presidentes mudam as suas decisões, corre o risco de transformar uma questão desportiva numa demonstração de poder. Foram precisamente algumas dessas ideias que Jorge Jesus deixou na já célebre conferência de imprensa. E para quê?

Ninguém duvida que o selecionador é quem deve escolher a equipa. Está no cargo precisamente para isso. Um grande treinador não precisa de diminuir simbolicamente a importância de um grande jogador para afirmar a sua própria autoridade. Pelo contrário. A verdadeira autoridade não está na frase mais dura de uma conferência de imprensa, mas sim na capacidade de resolver dentro de casa aquilo que nunca deveria chegar à praça pública.

Cristiano Ronaldo tem 41 anos. Naturalmente que a sua utilização tem de ser administrada. O próprio Jorge Jesus explicou que tinha estabelecido um plano específico para o jogador e que conhecia bem a sua condição física por ter trabalhado anteriormente com ele. Portanto, gerir Ronaldo fisicamente faz todo o sentido. O que é muito mais difícil de compreender é deixar deteriorar uma relação que, aparentemente, começou precisamente com um entendimento entre ambos.

Defender Cristiano Ronaldo não significa defender que jogue sempre. Esse argumento é demasiado fácil. Se Gonçalo Ramos estiver melhor, joga Gonçalo Ramos. Se outro avançado oferecer mais à equipa num determinado encontro, joga esse avançado. E se Portugal funcionar melhor sem Ronaldo durante 90 minutos, o selecionador tem não apenas o direito, mas a obrigação, de tomar essa decisão. O maior erro de Jorge Jesus foi, para além de como o próprio confirmou de não cumprir o que promete, reforçar que a autoridade era sua. Conseguiu. Mas a que preço? Um selecionador nacional não tem apenas de escolher onze jogadores. Tem de gerir egos, símbolos, gerações, expectativas e um país inteiro emocionalmente ligado à sua equipa. Jorge Jesus é um treinador experiente demais para não saber isso, mas o seu próprio ego terá falado mais alto.

Há ainda outro perigo que me deixa triste: a facilidade com que grande parte da opinião pública parece disposta a colocar imediatamente Cristiano Ronaldo no banco dos réus. Esperemos pela sua versão. Podemos depois concordar ou discordar. Podemos considerar que exagerou. Podemos até concluir que Jorge Jesus tinha razão. Mas primeiro devemos ouvir. Porque poucas pessoas deram tanto à Seleção Portuguesa como Cristiano Ronaldo. Nos bons momentos apareceu. Nos maus momentos apareceu. Com lesões, críticas, derrotas e polémicas, continuou durante mais de duas décadas a dar tudo por Portugal. Ronaldo poderá ter cometido erros neste episódio. Saberemos mais quando decidir falar. Mas o passado recente aconselha prudência antes de transformar imediatamente o capitão no culpado.