A história da medicina acompanha de perto os grandes ciclos civilizacionais. No Egito, na Índia e na China antigos, já se sistematizavam práticas terapêuticas e se escreviam tratados sobre o corpo humano — um sinal claro de que a saúde, desde cedo, foi entendida como um bem coletivo e estratégico. Na Grécia clássica, figuras como Hipócrates e Galeno estabeleceram os alicerces éticos e clínicos da medicina ocidental, reforçando a ideia de que cuidar é também compreender.
É, no entanto, com a modernidade que a medicina se transforma numa ciência plena. A anatomia, a fisiologia, a microbiologia e, mais tarde, a farmacologia e a cirurgia modernas traduzem uma viragem: a saúde passa a ser território da experimentação, da evidência e da tecnologia. O século XX consagra este percurso com conquistas decisivas — vacinação em massa, antibióticos, transplantes, genómica — e torna claro que o progresso médico não é apenas técnico, mas político.
Nos bastidores da inovação médica, estão sempre decisões políticas e económicas. A criação do National Institute of Health (NIH) nos Estados Unidos, ou do National Health Service (NHS) no Reino Unido, ilustra bem como o investimento público pode moldar o destino de uma nação em saúde. As guerras mundiais aceleraram descobertas; a Guerra Fria transformou a ciência biomédica em instrumento de afirmação global. E durante décadas, países como os EUA, o Reino Unido, a Alemanha ou o Japão dominaram o mapa da investigação médica, atraindo cérebros e recursos, e definindo as prioridades da agenda científica mundial.
Hoje, esse domínio está a ser questionado. A instabilidade geopolítica crescente, o enfraquecimento de políticas públicas de ciência em vários países desenvolvidos, e o surgimento de discursos populistas e anticientíficos têm vindo a comprometer a sustentabilidade de muitos desses centros. Nos Estados Unidos, por exemplo, os cortes no financiamento federal à ciência, a pressão ideológica sobre temas como saúde reprodutiva ou vacinas e a crescente burocratização das universidades têm gerado frustração entre investigadores. No Reino Unido, o Brexit criou uma barreira inesperada ao intercâmbio científico europeu. Em outras regiões, como a América Latina e partes da Ásia, o subfinanciamento crónico e a instabilidade institucional continuam a empurrar cientistas para fora dos seus países.
Neste cenário, está a desenhar-se um novo mapa da ciência global — mais descentralizado e com novas oportunidades para países que saibam conjugar estabilidade política, visão estratégica e compromisso com a liberdade académica. Portugal encontra-se numa posição particularmente interessante nesta geografia emergente. Com uma democracia consolidada, políticas públicas favoráveis ao ensino superior e à investigação e uma crescente inserção em redes europeias e internacionais, o país apresenta condições únicas para se afirmar como um novo polo de atração de talento científico, especialmente nas áreas da saúde, biomédica e médica.
No entanto e para fazer face a este novo paradigma Portugal tem de reforçar a sua capacidade de atrair e integrar investigadores de excelência porque, mais do que uma questão de prestígio, trata-se de uma aposta estratégica no desenvolvimento científico, económico e social do país.
Criar condições para que cientistas internacionais possam desenvolver investigação de ponta a partir de Portugal implica mais do que oferecer contratos atrativos. Requer um ecossistema robusto, interdisciplinar, com massa crítica e ligação real aos desafios do nosso tempo: o envelhecimento da população, as doenças crónicas, a saúde mental, a equidade no acesso ao cuidado, os impactos das alterações climáticas na saúde humana, entre outros.
Dentro deste âmbito, começam a surgir sinais positivos e bons exemplos em Portugal, como o recentemente anunciado programa da Nova Medical School – NOVA Medical Global Talent Initiative – que procura justamente criar um espaço de continuidade para ciência transformadora, oferecendo a investigadores internacionais um ambiente de trabalho eticamente comprometido, cientificamente ambicioso e aberto à colaboração transdisciplinar.
Ao acolher estes profissionais, Portugal posiciona-se não apenas como alternativa a centros sobrecarregados ou em crise, mas como uma referência de futuro. Um futuro onde a ciência da saúde se reencontra com a sua vocação primordial: estar ao serviço da vida, do bem comum e da cooperação entre nações. Num tempo em que a investigação biomédica e clínica e a saúde pública são questões de segurança, justiça e desenvolvimento global, criar as condições para que o conhecimento floresça é, acima de tudo, um ato político — no sentido mais nobre do termo.