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Portugal e a Europa registam um elevado índice de envelhecimento populacional. Este importante desafio implica a adaptação das respostas oferecidas no âmbito da educação, do trabalho, dos serviços de saúde e sociais, da mobilidade, das cidades e das políticas públicas, de forma a garantir a sustentabilidade social e económica de todo o sistema.

Em 2018, a esperança média de vida era de 83 anos para as mulheres e 79 anos para os homens. Dos cerca de 500 milhões de cidadãos da União Europeia, 19,2% (cerca de 100 milhões) tinham 65 anos ou mais. Na Europa, o agregado mais comum é a ocupação individual (33,4% do total de domicílios), sendo que um número crescente de idosos vive sozinho. Em Portugal em 2016, 24,4% dos idosos vivia sozinho.

O envelhecimento da população conduz a profundas mudanças e a desafios importantes nos sistemas sociais e de saúde, no planeamento e na prestação de serviços de saúde, mas também na formação de cuidadores formais e informais. Cada vez é maior o número de pessoas que vivem com síndromes de fragilidade, multimorbilidade (três ou mais doenças crónicas) e incapacidade, com sofrimento e baixa qualidade de vida no final da vida.

A pandemia COVID19 expôs, ainda mais, a vulnerabilidade dos idosos. Foram os mais velhos que apresentaram maior gravidade dos sintomas e maior mortalidade, sobretudo os institucionalizados, onde a taxa de transmissibilidade era elevada. Nos não institucionalizados observou-se, com o confinamento, aumento do sedentarismo e da solidão, associados a maior número de problemas mentais, cardiovasculares, respiratórios e musculo-esqueléticos.

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É, por isso, um enorme desafio manter e alargar a resposta à população idosa, criando novos modelos de prestação de cuidados adequados às próximas gerações de idosos, que terão um perfil, condições e necessidades muito distintas das atuais.

À semelhança da atual, a próxima geração de idosos irá sofrer de várias comorbilidades, será polimedicado, terá excesso de peso e será pouco ativa. Contudo, a próxima geração ainda tem margem para modificar os seus estilos de vida, aumentando assim o número de anos de vida saudável e ativa.

A próxima geração, pela sua maior inclusão digital, poderá aceder, com mais facilidade, a teleconsultas e monitorização dos seus parâmetros de saúde à distância, comunicando com os serviços de saúde por via digital. Assim, poderá usufruir de soluções de monitorização e de apoio à alta mais precoce, ou que evitem mesmo o internamento hospitalar. As novas tecnologias podem promover a adesão à terapêutica nos doentes polimedicados com múltiplas doenças crónicas e podem, também, ter um papel no suporte à reabilitação física, cognitiva e sensorial de doenças associadas ao envelhecimento. Os idosos do futuro irão querer continuar a morar nas suas próprias casas, que deverão ter condições habitacionais que o permitam, podem querer fazer compras online e utilizar outros serviços online, comunicar facilmente entre si e com familiares através dos meios de comunicação digitais e utilizando as redes sociais. Mas estas ofertas devem ser efetuadas de forma integrada e centrada no idoso.

Cabe às gerações adultas atuais, desenvolver organizações sociais e de saúde, para preservar a qualidade de vida de uma população que envelhece e sustentar os sistemas de saúde a médio e a longo prazo. Os serviços de saúde e os sistemas de apoio social devem ser integrados, bem como os vários níveis de cuidados de saúde e as várias equipas de profissionais de saúde. Os serviços têm de ser humanizados. Os cidadãos devem ser envolvidos, com a promoção da literacia em saúde e a participação ativa na gestão da doença, na adesão à terapêutica, na investigação e inovação biomédicas e na promoção de uma vida mais ativa e saudável.

Cada indivíduo tem características próprias e é envolvido por circunstâncias específicas, que o tornam único. Os cuidados ao idoso devem respeitar essa individualidade, contribuindo para uma sociedade mais inclusiva e sustentável.