Há dez anos, a Maia tornou-se pioneira num dos mais ambiciosos projetos de inovação pedagógica do país, o Projeto SUPERTABi. Nasceu com uma ideia simples, mas transformadora, colocar a tecnologia ao serviço da pedagogia, da autonomia e da criatividade dos alunos. O que começou com a introdução experimental de tablets em salas do 1.º Ciclo do Ensino Básico, evoluiu para um verdadeiro ecossistema de aprendizagem digital, onde professores, alunos e famílias exploram novas formas de ensinar e aprender. Ao longo da última década, o SUPERTABi consolidou-se como um laboratório vivo de práticas educativas, promovendo a formação contínua de docentes, o uso crítico e responsável da tecnologia e a integração de metodologias ativas que tornam a aprendizagem mais significativa e humana, mas também na formação de professores em relação a práticas pedagógicas inovadoras e na alteração dos espaços físicos e virtuais de aprendizagem.
E se o problema não fossem os ecrãs nas salas de aula, mas a forma como os usamos? Durante um ano letivo, 22 alunos do 3.º ano mostraram-me que a tecnologia pode ser a maior aliada da aprendizagem, quando há pedagogia a suportar uma intenção.
Num final de tarde, uma aluna criou espontaneamente um chat da turma para partilhar descobertas sobre os conteúdos trabalhados em sala de aula. Outro aluno desafiou os colegas a experimentar um jogo que tinha programado no Scratch. Não era distração, era apenas resposta a desafios e a aprendizagem em ação. Estas experiências resumem o que vi ao longo de um ano no Projeto SUPERTABi, que há uma década transforma o modo de aprender nas escolas do 1.º Ciclo do Ensino Básico, no Concelho da Maia.
A experiência que desenvolvi acabou por ter-me dado o argumento para realizar mais formação profissional e integrei este projeto numa investigação realizada durante o Mestrado em Ciências da Educação – Tecnologias Educativas da Universidade do Minho. Com uma turma de 22 alunos do 3.º ano, apliquei o modelo pedagógico Explore First, Atividades Exploratórias através de Obras Literárias, inspirado nos estudos do Professor Mike Sharples, que defende que a aprendizagem acontece quando os alunos exploram e constroem significado antes da explicação formal e aprendem melhor quando controlam aquilo que aprendem.
A metodologia adotada nesta intervenção pedagógica assenta na exploração de obras literárias como ponto de partida para o desenvolvimento de aprendizagens interdisciplinares. A literatura funciona como eixo agregador de saberes, permitindo estabelecer pontes entre as diferentes áreas curriculares — da leitura e escrita à matemática, do estudo do meio às expressões artísticas e tecnológicas. Ao partir de uma narrativa, como a história do Sr. Pascoal em busca da felicidade, os alunos são conduzidos a contextos significativos de aprendizagem que despertam curiosidade e sentido para o conhecimento. Esta abordagem promove a integração entre o pensamento crítico, a criatividade e a resolução de problemas, estimulando a autonomia dos alunos. A utilização de recursos digitais — como o Google Earth, a Escola Virtual, o Kahoot ou o Animoto — potencia a interdisciplinaridade, ao transformar a leitura em ação, a escrita em produção multimédia e a interpretação em descoberta. Assim, a obra literária deixa de ser apenas um texto a analisar para se tornar um pretexto pedagógico que mobiliza diferentes linguagens, saberes e competências, aproximando os alunos de uma aprendizagem ativa, colaborativa e com sentido.
Os resultados foram evidentes, 87,5% dos alunos afirmaram compreender melhor quando exploravam primeiro, ou seja, têm acesso aos conteúdos definidos pela professora e fidedignos, de modo que permitem que a professora tenha tempo para trabalhar com os alunos que mais precisam, permitindo autonomia aos que seguem os guiões de exploração autónoma. O modelo alcançou uma pontuação média de 81,2% pontos numa escala de 0 a 100, classificada entre “Bom” e “Excelente”.
Mais do que números, ficaram as vozes: “sinto-me livre”, “fico feliz porque assim podemos tentar, errar e voltar a tentar”. Um aluno com necessidades educativas especiais descobriu nas ferramentas de voz a sua melhor forma de expressão. Quando a tecnologia serve a pedagogia, a autonomia floresce e a inclusão torna-se real.
É verdade que se trata de um estudo de caso, mas estudos de caso mostram possibilidades replicáveis. Este revelou uma evidência inegável: quando o digital é usado com intenção pedagógica e supervisão, potencia a motivação, o pensamento crítico e a autonomia, logo a eficácia na aprendizagem.
Não podemos confundir a recente proibição dos telemóveis nas escolas (compreensível pelos abusos que perturbam a concentração), mas seria um erro vê-la como um regresso ao passado. O problema não está nos ecrãs, mas no modo como são usados. A escola deve ser o espaço onde se aprende a usar o digital com propósito, sob a orientação do professor, para investigar, criar e resolver problemas. Um telemóvel sem orientação é distração; um tablet com intencionalidade é ferramenta de descoberta. A diferença está na mediação pedagógica.
Durante as sessões de exploração, o papel do professor transforma-se. De transmissor, passa a facilitador da aprendizagem, alguém que acompanha, questiona e orienta. Essa mudança não diminui o seu papel, reforça-o. A tecnologia não substitui o professor, mas liberta-o para ensinar melhor. Um professor deverá alterar o papel do que concretamente deve fazer, como planificar tarefas digitais com um objetivo pedagógico claro, ensinar competências de pesquisa e verificação de fontes, supervisionar e refletir sobre o uso das tecnologias e investir em formação contínua de professores.
Dez anos após ter entrado no Projeto SUPERTABi, o seu legado é claro, a tecnologia, quando colocada ao serviço das metodologias ativas, torna a aprendizagem mais significativa e humana.
O futuro da educação portuguesa não está em desligar os ecrãs, mas em ligar a curiosidade à descoberta do conhecimento.
Carla Maia é professora do 1.º ciclo no AEGMMaia, mestre em Tecnologias Educativas e desenvolve projetos interdisciplinares com uso pedagógico do digital. Finalista do Global Teacher Prize Portugal 2025.