Há uma narrativa instalada sobre o turismo de saúde em Portugal que me incomoda. A de que somos competitivos porque somos baratos. Que o paciente estrangeiro nos escolhe porque o custo é menor do que em França, na Alemanha ou no Reino Unido. É uma meia verdade que nos pode sair caro.
Quando um paciente americano ou britânico agenda um tratamento e viaja até Lisboa para o fazer, raramente o faz apenas porque é mais económico. Faz porque há confiança no protocolo clínico, porque reconhece a reputação científica dos profissionais, porque existe um ecossistema de qualidade que justifica a viagem. O preço pode ser o argumento que fecha a decisão, mas não é o que a inicia.
Esta distinção importa muito. Um país que se posiciona como destino de saúde com base no preço constrói um modelo frágil, sujeito a ser ultrapassado por qualquer mercado emergente com mão-de-obra mais barata. Um país que se posiciona com base na qualidade, na inovação e na experiência do doente constrói algo duradouro.
Portugal tem as condições para ser esse segundo país. O turismo de saúde cresceu de forma robusta em Portugal nos últimos anos. As clínicas privadas, os hospitais internacionais, os centros de medicina estética e dentária recebem cada vez mais pacientes de fora. Os números mostram-no e a realidade operacional confirma-o.
Mas este crescimento tem sido maioritariamente impulsionado por operadores privados que investiram na qualidade dos seus serviços, que formaram equipas internacionais, que desenvolveram protocolos reconhecidos pela comunidade científica global. Não houve uma política nacional estruturada de posicionamento de Portugal como destino de excelência em saúde. Houve boas iniciativas avulsas e muito trabalho individual.
A comparação com outros países é reveladora. Países como a Turquia, a Hungria ou a Tailândia têm estratégias nacionais explícitas de atração de turistas de saúde, com marcas de destino, parcerias com seguradoras internacionais e programas de facilitação de visto e logística. Portugal, com uma proposta de valor claramente superior em termos de qualidade técnica e de experiência global de visita, ainda não produziu um equivalente.
Médicos de dezenas de países vêm a Portugal, todos os anos, aprender. Vêm aprender protocolos, participar em programas de formação avançada, colaborar em investigação clínica. E este é, a meu ver, o argumento mais poderoso que Portugal tem para se afirmar no turismo de saúde. Não somos apenas um país onde se podem fazer bons tratamentos a um custo razoável. Somos um país onde se faz investigação de referência, onde se desenvolvem novos protocolos clínicos, onde a comunidade médica internacional quer estar.
Transformar isso numa vantagem competitiva nacional exige que o Estado reconheça este ativo e trabalhe com o setor privado para o projetar internacionalmente. Não é difícil imaginar o que seria possível com uma parceria estruturada entre as principais unidades clínicas privadas, as universidades e o Turismo de Portugal, focada especificamente neste segmento.
Existe também uma questão que diz respeito à forma como o setor de saúde privado e o turismo de saúde em particular se tem de reinventar internamente.
O paciente que viaja para fazer um tratamento de saúde tem expectativas diferentes do paciente local. Não está apenas a comprar um procedimento clínico, está a comprar uma experiência que começa no primeiro contacto digital, passa pela logística da viagem, pela qualidade do acolhimento, pela clareza da comunicação em vários idiomas, e termina no acompanhamento pós-tratamento. Qualquer falha nesta cadeia faz a diferença.
A digitalização dos processos clínicos e de gestão não é apenas uma questão de eficiência operacional, é uma questão de competitividade no turismo de saúde. Um paciente que vem dos Estados Unidos ou do Norte da Europa espera o mesmo nível de experiência, ou melhor, que tem nos melhores serviços de saúde do seu país. Este é um investimento que o setor tem de continuar a fazer, com urgência.
Há quem veja a internacionalização das unidades de saúde portuguesas com alguma desconfiança, como se crescer noutros mercados significasse desviar recursos ou atenção do que se faz em Portugal. A lógica é precisamente a inversa. A presença em mercados como a Polónia, com a sua dimensão demográfica e o dinamismo económico que tem vindo a consolidar, não só alarga a base de operação como reforça a exigência de qualidade que se aplica a toda a rede. Quando se tem de cumprir os mesmos padrões clínicos e de experiência do paciente em Varsóvia e em Lisboa, o nível sobe. E, do ponto de vista do turismo de saúde, ter uma marca com presença internacional é, paradoxalmente, um argumento para atrair pacientes a Portugal.
O nosso país está, neste momento, numa posição de vantagem real no mapa europeu da saúde. Temos profissionais de excelência, investigação reconhecida internacionalmente, um contexto de vida que atrai tanto pacientes como talento médico, e uma reputação que foi construída com décadas de trabalho. Mas as vantagens competitivas não se mantêm por inércia. Outros mercados estão a investir, a organizar-se, a posicionar-se. Se Portugal não tomar uma decisão consciente de transformar o turismo de saúde numa prioridade estratégica, com política pública, com investimento em marca e em infraestrutura digital, com uma parceria real entre setor privado e Estado, o momento vai passar.
Não precisamos de ser os mais baratos. Precisamos de ser os melhores. E temos tudo para o ser.