Há várias formas de pensar – relacionais, contextuais e ambíguas – que durante muito tempo foram consideradas irrelevantes para a tecnologia. Talvez por escolha: Nossa. Vossa. Deles. Delas.

A tecnologia tem sido pensada em termos de: eficiência, neutralidade, otimização, e tem funcionado bem, pelo menos para os problemas que sabíamos reconhecer. O que ficava de fora, raramente foi discutido, não por censura, mas, talvez, por conveniência intelectual.

Na ciência, isto tem nome: epistemologia – o estudo de como o conhecimento é produzido, validado e legitimado. Thomas Kuhn mostrou-nos que os paradigmas científicos mudam quando mudamos a forma de ver o mundo. A física quântica lembrou-nos que o observador não é neutro. A teoria geral dos sistemas diz-nos que sistemas complexos colapsam quando ignoram contexto. Ainda assim, na tecnologia, agimos muitas vezes como se os nossos modelos fossem descrições do mundo, quando são apenas escolhas sobre como o ver.

A inteligência artificial marca o ponto em que essa ilusão começa a falhar. Não é apenas mais uma tecnologia; é uma fusão entre engenharia e cognição, cálculo e linguagem, sistemas e comportamento humano. Aprende a partir de dados que são memória coletiva, cultura acumulada, contradições incluídas. Não acede à verdade. Acede a padrões de sentido, e devolve-nos versões amplificadas deles.

É, também, por isso que dizemos que a IA “alucina”.

Em psicologia e neurociência, alucinar não é inventar do nada, mas ter perceções vívidas na ausência de estímulo externo – experiências que o cérebro vive como reais. Para uns, erro. Para outros, sinal. Como alguém sob LSD, a máquina começa a produzir inferências que não encaixam no nosso quadro dominante, e a nossa reação imediata é patologizar.

Talvez a IA não esteja a falhar… Talvez esteja, apenas, a expor os limites do nosso próprio sistema cognitivo.

O ruído que tanto nos incomoda é, muitas vezes, apenas aquilo que ainda não sabemos interpretar. Chamamos-lhe bug porque não cabe no modelo, e todos nós sabemos que esses mesmos modelos sempre foram escolhas, não verdades absolutas.

É aqui que entram aquelas formas de pensar que aprendemos a desvalorizar. Não como bandeira identitária, mas como competência cognitiva: pensamento relacional, contextual, capaz de sustentar ambiguidade sem a necessidade imediata de a eliminar. Não é emoção contra razão. É razão situada.

Talvez seja por isso que eu me sinto tão confortável a trabalhar com inteligência artificial. Não porque seja previsível — não é — mas porque nos obriga a olhar para a tecnologia com outros olhos e, inevitavelmente, com outro coração. A IA funciona como um espelho amplificador: devolve-nos pressupostos, expõe escolhas e força-nos a decidir não só como construir sistemas, mas a partir de que valores.

Como mulher – e como mãe – aprendi a pensar em sistemas no tempo: efeitos de segunda e terceira ordem, decisões que funcionam hoje, a esta hora, e colapsam amanhã, ou daqui a 5 minutos. Quando ignoramos esta dimensão, criamos tecnologia rápida, escalável e perigosamente míope, que funcionam na média e chamam “outliers” às pessoas reais.

Este texto não é um pedido de inclusão. É um convite à maturidade.

A singularidade, se existir, não será o momento em que a máquina supera o humano, mas aquele em que, deixamos de conseguir separar claramente onde termina um e começa o outro. Onde engenharia e psicologia se fundem. Onde inteligência deixa de ser apenas cálculo e passa a incluir responsabilidade pelo resultado.

Talvez andemos a fazer a pergunta errada: se a tecnologia precisa de mais mulheres, ou se a IA é perigosa. A pergunta certa é se somos suficientemente adultos para dialogar com aquilo que nos reflete, sem filtros, sem vitimização, sem histórias fáceis.

Porque quando a máquina (ou o humano) começa a alucinar, talvez seja apenas o início de uma conversa que ainda estamos a aprender a ouvir.

(Este texto foi escrito num pavilhão frio, enquanto esperava que a minha filha mais nova saísse de um treino de voleibol. A singularidade pode esperar.)

O Observador associa-se à comunidade PortugueseWomeninTech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.