Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Está na hora de seguir viagem pelos cinco continentes. É por aqui na Rádio Observador que todas as semanas analisamos a geopolítica internacional. Esta semana junta-se a mim o Miguel Cordeiro. Olá, Miguel.

Olá.

Mas isto também não se faz sem o historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bem-vindo mais uma vez. Como é que estás? Tudo bem?

Olá, obrigado. Sim, tudo bem.

Vamos a isto, mais uma semana e vamos começar a nossa viagem no Médio Oriente. A Rússia iniciou uma retirada em grande escala de equipamentos militares e tropas da Síria após a queda do ex-presidente sírio Bashar al-Assad. Bruno, será esta uma retirada total das bases na Síria e há alternativas, ou o que é que podemos esperar desta atitude da Rússia?

Para já, pelo que nós percebemos, há uma retirada do que nós poderíamos chamar de destacamentos, ou seja, pequenas bases, pequenos aquartelamentos de tropas russas por vários pontos do país, inclusive na própria capital também. Mas não estamos a falar das duas grandes bases russas que ficam junto à costa. Enfim, uma é uma base naval, portanto obviamente fica mesmo na costa, em Tartus, e a outra é uma grande base aérea também próxima dessa base naval que correspondem a grandes objetivos estratégicos de há séculos da parte da Rússia, ou seja, esta ideia da Rússia chegar aos mares quentes. Penso que nós já falámos aqui várias vezes disso, esta questão da Rússia ter uma costa enorme. Aliás, a Rússia é o maior país do mundo, o maior país do mundo de longe. Tem quase o dobro do seguinte que é o Canadá, o que torna um pouco paradoxal esta opção com a expansão, mas realmente tem uma costa enorme, mas toda voltada para o lado errado e portanto um dos objetivos históricos da expansão russa foi chegar aos chamados mares quentes, ou seja, mares que estavam acessíveis, seguros à navegação durante todo o ano. Conseguiram isso no Báltico, mas o Báltico é um mar quase fechado. Conseguiram no Mar Negro, também é um mar quase fechado. Mas por exemplo, no Mediterrâneo, a única base naval russa importante é realmente na Síria desde os anos 70 e portanto aqui é um objetivo estratégico importante. A confirmar-se que é uma retirada total, e para já ainda não temos a certeza disso, mas o novo governo sírio que ainda tem sido muito prudente e tem mostrado uma grande abertura também na grande procura de compromisso na sua postura internacional, no entanto já veio sinalizar que o seu porta-voz que achava que as bases russas não faziam sentido, que tinham sido um pilar do apoio à tirania dos Assad e que não lhes parecia que fizesse sentido que continuassem. Parece-me evidente que não há grande interesse das novas autoridades em que se mantenham, até porque o ditador sírio está refugiado em Moscovo. Já há também reclamação da parte do novo governo de que ele deveria ser julgado por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Não se vê muito a Rússia a ceder nesse ponto. A confirmar-se essa retirada, seria realmente uma perda de uma posição importante para Moscovo, quer em termos de uma capacidade de manter uma presença naval permanente no Mediterrâneo, até porque a sua frota do Mar Negro está ocupada com outras questões, ou seja, com a guerra da Ucrânia. Além de que não pode transitar à partida sem autorização da Turquia, porque estamos num período de guerra pelos estreitos. E também a base aérea é bastante importante em termos do apoio logístico à presença militar russa cada vez mais forte em vários pontos da África, por exemplo, na zona do Sahel, no Mali, no Níger, no Sudão. A possibilidade que se tem discutido é que houvesse aqui uma transferência pelo menos de parte destas funções e de parte destes equipamentos para a Líbia, onde a Rússia apoia também uma das fações na guerra civil e que isso poderia pelo menos em parte substituir as funções da Síria. Historicamente não seria muito de espantar porque o Stalin logo a seguir à Segunda Guerra Mundial tentou transformar pelo menos uma parte da Líbia numa colónia soviética. Na verdade, os países ocidentais acabam por decidir que é melhor dar a independência à Líbia do que arriscar transformar-se numa colónia e numa base soviética, russa ou soviética, mas no fundo seria aqui uma espécie quase de regresso ao passado.

Mas ainda sobre esta questão da Síria, tivemos esta semana o fim do silêncio de Bashar al-Assad. Falou na rede social Telegram, foi lá que divulgou um comunicado. Neste momento em que quebrou o silêncio falou desde que caiu o regime pela primeira vez e garantiu que não quis fugir da Síria, mas que acabou por ser retirado de forma imediata pela Rússia. Bashar al-Assad considera até que a Síria está nas mãos, nesta altura, de terroristas e portanto aqui a pergunta é: como é que fica a Síria depois de tudo isto? O que é que podemos também esperar da Síria no futuro, sendo que há vozes que apontam que a Síria nunca teve um passado como Estado independente, nunca teve, na verdade, essa estrutura até porque vem agora de um regime muito longínquo que terminou com esta fuga de Bashar al-Assad.

São várias questões interessantes, mas por um lado, o primeiro ponto é esta confissão de Bashar al-Assad. Como já disse aliás, até pode ser que o próprio Bashar al-Assad se tenha convencido disto um bocadinho como o nosso D. Manuel II. Quando ele se retira na Ericeira, vai para o iate real também, a intenção inicial era ir para o Porto para continuar a combater o golpe ou a Revolução Republicana, mas depois disseram que já não tinha tropas, portanto, era melhor retirar para um país amigo, neste caso a Grã-Bretanha. Até acredito que Bashar al-Assad se tenha convencido disso. Agora, a verdade é que isto mostra como sobretudo nos últimos anos, o regime estava de facto cada vez mais dependente dos apoios externos. Era praticamente um fantoche, quer dizer, um líder de um país supostamente orgulhoso da sua soberania e independência que diz Que se retirou porque recebeu ordens de outros países para sair. Isso diz tudo sobre o grau de dependência e de influência da Rússia na fase final do regime de Assad.

E basta ver um caso recente. Só para detalhar isso, basta ver um caso recente. Zelensky quando foi invadido pela Rússia também teve muitas ordens de retirada e o que ele disse foi: "Eu não preciso de ajuda para sair daqui, preciso é de armas para combater". Fazendo aí a comparação.

Sim, exatamente. Isto mostra bem realmente o grau de dependência extrema a que tinha chegado o regime nesta fase final. Em relação à segunda pergunta, à questão do terrorismo. É verdade que as origens deste movimento estão em movimentos terroristas. Mas também é verdade que o regime de Bashar al-Assad, por um lado, praticava o terror de Estado, isso ficou bastante evidente com a queda do regime, ainda de forma mais gráfica, a libertação de presos em prisões em condições terríveis, valas comuns, vestígios de execuções sumárias. Sabemos que usou armas químicas contra a sua própria população. Portanto, a ideia de que Bashar al-Assad está muito preocupado com os direitos humanos ou com a segurança dos civis não é muito crível. Além de que o próprio regime de Assad, o próprio regime sírio, era um dos principais aliados na região do Irão, que é o grande financiador de grupos armados que inclusive praticam atos terroristas, por exemplo, o Hezbollah ou a Hamas. Desse ponto de vista também é difícil dar grande crédito a essa preocupação. Agora, é verdade que realmente, como eu referi, este movimento que agora parece dominante, o Hayat Tahrir al-Sham e o seu dirigente máximo, Al-Julani, que era o seu nome de guerra, agora prefere, se calhar é um bom sinal, diria eu, prefere ser chamado já não pelo nome de guerra, porque quer paz, mas pelo seu nome de família, Ahmed a-Shara. Mas realmente ele foi encarregado por Bagdadi, pelo homem que acaba por criar e se autodesignar califa do dito Estado Islâmico, o Daesh, é encarregue por ele de, em 2011, aproveitar o início da guerra civil na Síria para estabelecer a Al-Qaeda no Iraque e no Levante, se quisermos no Iraque e na Síria, reforçar a sua posição na Síria. Agora, muito rapidamente, ele entra em choque com Bagdadi, acaba por se distanciar quer da Al-Qaeda, quer do dito Estado Islâmico, aliás, de uma forma bastante violenta. Temos nestes últimos anos notícias de vários choques violentos, de vários conflitos violentos entre este movimento e o Daesh. Até há alegações de que o movimento teria de alguma forma colaborado com os americanos, por exemplo, na própria eliminação de Bagdadi em 2019. Enfim, não sei se isso é credível ou não. Agora, não deixa de ser um movimento extremamente conservador, com uma visão muito fundamentalista, se quisermos, muito tradicionalista do Islão, apesar de tudo, com algumas diferenças que o próprio Al-Julani ou Ahmed a-Shara aponta para explicar isso para a própria história da Síria. Ou seja, realmente é verdade que a Síria, como dizias, não foi um Estado-nação independente antes da Segunda Guerra Mundial, fez parte de grandes impérios islâmicos, a certo momento Damasco até foi a capital do califado ainda no século VIII, mas realmente o próprio Al-Julani diz isso, não é uma sociedade tribal como o Afeganistão, é uma sociedade altamente urbanizada, com milhares de anos de grandes cidades como Damasco, Antioquia, etc. Aquilo que nós também percebemos das zonas que eles já governavam em Idlib são sobretudo duas coisas, que é, por exemplo, comparando com os Talibã ou mesmo com o Daesh, ele não massacrou as minorias cristãs, drusos, etc. Sobretudo no caso dos cristãos, usou a tradição islâmica para dizer que são cidadãos de segunda, não têm plenos direitos em termos de culto, e têm que pagar um imposto suplementar, portanto são na verdade cidadãos de segunda, mas não foram expulsos, não foram maltratados, não foram massacrados. Em relação às mulheres, também ele continua a defender, por exemplo, o direito das mulheres à educação, embora separada dos homens, portanto com uma discriminação e também com estatuto de menorização em relação aos homens. Não temos nenhuma razão para acreditar que será um grande democrata, nem que teremos uma democracia pluralista a curto prazo na Síria. Eu penso que neste momento, quer para os países vizinhos, quer mesmo para os países ocidentais, o principal era garantir que a Síria não era novamente uma ameaça para a região, para a Europa, não era uma fonte de ataques terroristas mortíferos contra a Europa, como aconteceu com o Daesh, e também não era uma fonte de ameaça para a sua própria população, ou seja, tínhamos um regime menos repressivo, mais tolerante, um pouco mais pluralista. Nesse último aspecto, acho que teremos de ver com muita atenção se será realmente assim, se isso não é uma coisa mais tática para consolidar no poder este grupo e depois se não assistiríamos a um endurecer à medida que se sentem mais sólidos, mais fortes no poder.

Bruno, vamos continuar a falar da Rússia, mas agora mais propriamente sobre a guerra na Ucrânia, do assassinato em Moscovo de um general russo responsável pelo armamento químico. A Ucrânia já assumiu a autoria do atentado, Moscovo promete retaliar. É legítimo este ataque por parte da Ucrânia e faz sentido nesta fase em que estamos do conflito?

São duas questões distintas e com respostas eventualmente uma mais clara, outra menos clara. Que é um alvo legítimo, isso é bastante evidente. Vir aqui falar de terrorismo realmente não faz nenhum sentido. Ele é um militar em funções, é responsável pelas armas químicas, foi acusado não só pela Ucrânia, mas por vários outros países de utilização inclusive de armas proibidas no contexto da Ucrânia. Mas em todo caso, independentemente disso, no essencial é esta questão, é um general, é um comandante, é um general no ativo, no quadro de um conflito ativo, de uma guerra ativa e portanto, o país que está a ser atacado tem toda a legitimidade para visar militares do país que o está a atacar e portanto, neste caso, a Ucrânia tem toda a legitimidade para visar um general russo. Eu recordo que a Rússia, quando vem falar de turismo, está basicamente a arrasar cidades inteiras. Está a fazer ataques completamente indiscriminados contra a população civil. Temos muitas provas de crimes de guerra, de massacres de população civil desarmada. Depois, por outro lado, faz sentido ou não? Bem, aqui, na verdade, a Ucrânia neste momento não tem boas opções. A lógica por trás disto parece ser mostrar à Rússia e aos russos que a guerra não vai ficar apenas nas fronteiras, que também pode atingir Moscovo. Este ataque foi levado a cabo na capital russa, e que não há também ninguém que possa escapar ao conflito, ou seja, que isto não é simplesmente uma questão de carne para canhão, de pobres soldados das zonas mais pobres da Rússia, mais periféricas da Rússia, mas pode atingir também alvos na própria elite russa e portanto houve vários ataques terroristas, usando táticas terroristas, quisemos por parte da Ucrânia, mas visando estes alvos perfeitamente legítimos. Eu diria todos esses ataques, alguns são mais questionáveis, por exemplo, quando estamos a falar da filha de um intelectual, de um pensador russo, aparentemente ele próprio é que seria o alvo, é um dos grandes ideólogos do regime, mas isso parece-me eventualmente mais questionável. Agora, neste caso, estamos a falar realmente de um alvo claramente militar. Se isso terá grandes resultados, se esta lógica, se esta ideia de Kiev, de que isto terá um efeito significativo na Rússia, se isso será verdade ou não, tenho mais dúvidas. Ou seja, para mim parece-me evidente que para Putin, tirando ele próprio e eventualmente pessoas muito próximas, é-lhe um pouco indiferente quem é que é sacrificado em nome deste objetivo de poder afirmar, poder arrancar aqui algum tipo de vitória face à Ucrânia.

Sinto que ainda relacionado com este conflito, tem-se falado muito dos ataques a infraestruturas críticas no Báltico, começando claro, com o Nord Stream, mas com a destruição, por exemplo, de cabos digitais nos últimos meses. Como é que está esta questão neste momento? Já temos indicações de responsáveis?

Este é o tipo de ataques cujo perfil é exatamente... eu estive até na semana passada numa conferência no Colégio de Defesa da NATO em Roma, precisamente sobre este tema, que são os chamados conflitos na zona cinzenta, no fundo, ou seja, abaixo do limiar da guerra, utilizando muitas vezes métodos não convencionais. E qual é que o grande objetivo? É exatamente limitar a escalada, dificultar a escalada, dificultar a resposta, fazendo ataques em que há este elemento chamado deniability em inglês, ou seja, no fundo, uma negação credível da responsabilidade direta. E portanto, aqui no caso do Nord Stream, foi atacado, por exemplo, o Nord Stream 2, que ainda não funcionava, não foi atacado o gasoduto que funcionava, e portanto, isso seria muito mais grave e provavelmente era muito mais provável que levasse a uma escalada perigosa. Por exemplo, no caso mais recente, o corte de cabos de comunicações a partir da Suécia no Mar Báltico. Por exemplo, esse ataque é feito não nas águas territoriais suecas, mas na zona já económica exclusiva, ou seja, águas internacionais. Isso torna muito mais questionável a capacidade da Suécia responder, em termos legais, inclusive. Depois, aparentemente, o principal suspeito, que está agora a ser investigado, é um navio civil chinês, mas que vinha de um porto russo. E portanto, a ideia é que pode ter usado a âncora para, arrastando a âncora, cortar esses cabos. Portanto, a questão é: isso é um acidente ou foi deliberado? Há muita gente que diz que é muito estranho não terem notado isso, porque é quase como conduzir um carro com o travão de mão puxado. Portanto, é algo que se nota muito. Mas realmente não é um navio de guerra, não é sequer um navio russo. Portanto, que Estado é que está envolvido ou foi simplesmente um acidente? Portanto, tudo isto torna bastante mais difícil a resposta. No caso do Nord Stream, eu diria, também para ser claro, aliás, já referi isso, não me parece que a questão dos Estados Unidos faça nenhum sentido. Isso parece bastante confirmado com os indícios disponíveis. Era muito contrário à postura de grande prudência da administração Biden. Eu sempre achei que era possível que fosse um dos dois beligerantes, ou pelo menos grupos ligados a eles, ou à Rússia, embora fosse um pouco paradoxal, ou à Ucrânia. Aparentemente, os indícios atuais apontariam para grupos próximos da Ucrânia, mas mais uma vez, não sabemos se diretamente do Estado, se um grupo mais autónomo que assumiu aqui este protagonismo. Isto é o característico precisamente deste tipo de ataques e é o que os torna particularmente complicados de gerir e de responder.

Muito bem. Bruno, terminamos por aqui a nossa primeira parte. Na segunda parte ainda vamos até à Europa, à Geórgia, à situação e à eleição que tem suscitado muita polémica. Também a queda do governo alemão e ainda aos Estados Unidos. Há muitos assuntos para dar destaque ainda. É logo depois das notícias. Até já.

Segunda parte do Cinco Continentes na Rádio Observador. Contamos com o historiador Bruno Cardoso Reis numa viagem pelos cinco continentes e com vários temas em destaque nesta segunda parte. E Miguel, começamos pela Geórgia.

É outro país influenciado pela Rússia, como falamos na primeira parte. A Geórgia, a presidente cessante do país pede apoio imediato da União Europeia após a eleição de Mikheil Kavelashvili, uma eleição que tem suscitado muita polêmica. E pra começar, Bruno, queria tentar explicar quem é este homem que assume agora a presidência e que os opositores acusam de ter uma posição pró-russa e também o que deve fazer a União Europeia, tendo em conta um possível cenário de instabilidade na Geórgia.

É pena não estar aqui o André, porque realmente ele é que é o grande especialista de mais futebol, mas ele basicamente era um futebolista, não é?

É isso mesmo.

E a sua carreira, pelos vistos, foi sobretudo na Suíça e depois também na própria Rússia, mas levou-o a querer ser presidente da Federação de Futebol da Geórgia. Só que pra isso era preciso, aparentemente, de acordo com os estatutos, ter licenciatura, ele não é licenciado e portanto foi a partir daí que se virou do futebol para a política, ou se quisermos, da política futebolística para a política populista. Mas realmente faz parte desta coligação, embora não seja realmente um membro do partido do sonho georgiano, mas do poder georgiano, portanto, é um pequeno partido, mas próximo destes movimentos nacionalistas populistas, e que se identifica muito com esta ideia de que a aposta certa pra Geórgia é a aproximação à Rússia de Putin e o afastamento da Europa e da União Europeia. E portanto, à partida corresponde, no fundo, a uma hegemonia do sistema político georgiano deste movimento, o que vai de par com acusações de fraude, de violência, enfim, algumas no caso de violência e da fraude também documentadas por parte da oposição, da oposição pró-europeia, inclusive a atual presidente em funções que diz que as eleições são ilegítimas e portanto coloca-se a questão, a partir de aí ela deveria sair a 29 de dezembro, vai aceitar sair ou não voluntariamente, portanto podemos ter aqui ainda um escalar nesta crise, provavelmente vamos ter. Agora, o que é bastante evidente é, por um lado, realmente que este movimento tem algum apoio popular que terá. Também parece claramente disponível a usar meios não legais para se manter no poder. A União Europeia tem aqui uma capacidade de influência limitada. Se olharmos pro mapa, é fácil perceber que o Cáucaso é ainda mais complicado do que a Ucrânia, por exemplo, de apoiar. Então se estivermos a falar militarmente, ainda muitíssimo mais. Basicamente não há continuidade territorial entre o resto da Europa, se quisermos, entre a Europa da União Europeia e esta região. Ela está aqui entalada entre a Turquia e a Rússia. Foi, aliás, muito essa a história da Geórgia, entalada entre os grandes poderes da Sul, o Império Persa ou o Império Otomano, e grandes poderes da Norte, o Império Russo. Desde 1801, a Rússia dominou esta região até ao fim da União Soviética, em 1991, e claramente quer recuperar esse papel e realmente, de momento, parece estar em vantagem, graças também a estes aliados locais, como o novo presidente eleito, se quisermos.

E Bruno, continuamos na Europa, mas para falar agora da queda do governo alemão, uma moção de confiança derrubou o governo de Olaf Scholz. Mas Bruno, este governo já não tinha caído. Pergunto-te o que é que se segue e o que é que podemos esperar dos próximos capítulos desta crise política que já temos falado aqui há várias semanas também no Cinco Continentes.

Sim, se nós achamos que as coisas em política demoram muito em Portugal, acho que realmente comparado com a Alemanha, somos relativamente rápidos.

É algo que já se arrasta há algum tempo.

Exatamente, ou seja, tudo demora muito tempo na política alemã. Há muitas regras, são regras muito rígidas, os alemães também tendem a ser muito rígidos na aplicação das regras. Isso tem uma história, obviamente tem a ver com o trauma do passado nazi, portanto esta ideia de que é preciso ter calma, é preciso dar tempo e é preciso ter tudo muito regulado, muito regulamentado, muito calendarizado para evitar que haja abusos de poder, mas tem este custo, que é realmente uma enorme dificuldade em resolver rapidamente os problemas. E portanto, neste caso, no fundo, esta era uma morte mais do que anunciada. Há dois meses, basicamente, que se está a falar da queda do governo, que isso é completamente visto como inevitável, até porque os parceiros governamentais já estão completamente ao ataque. Quer dizer, neste discurso da moção de censura, o atual chanceler, o chefe do governo, Olaf Scholz, um dos principais alvos nem foi o principal partido da oposição, foi os seus parceiros de coligação, nomeadamente os liberais. Mas realmente, formalmente, só agora é que foi a altura para se votar a moção de censura e portanto para se formalizar a queda do governo. E portanto só agora é que começa a contagem do tempo até às eleições, que só serão em fevereiro. E depois ainda teremos a seguir, provavelmente alguns meses, vamos ver se não serão longos meses, mas pelo menos alguns meses para formar uma coligação, porque mais uma vez aí a tradição alemã é não só de coligações, e elas parecem inevitáveis olhando pras sondagens, nenhum partido tem mais do que 30 e poucos por cento dos votos, mas além disso nas coligações alemãs há também a tradição de acordos muito detalhados de coligação, e isso implica meses de negociações para se chegar a esses acordos. Isso significa, em suma, que vamos continuar a falar da Alemanha, da crise na Alemanha, vamos continuar a falar do governo alemão fraco, num contexto internacional em que era muito importante, por exemplo, pra capacidade de resposta europeia A Putin ou a Trump haver um governo à mão forte, mas não vamos ter isso durante bastantes meses.

Vamos falar um pouquinho dos Estados Unidos. Vamos para o continente americano e para uma relação entre Estados Unidos, que provavelmente é boa, Estados Unidos e Canadá. Trump já disse que quer tornar o Canadá o 51º estado dos Estados Unidos da América, seria uma ótima ideia. A pergunta que importa fazer neste momento é se Trump quer deliberadamente provocar uma crise política no Canadá ainda antes de tomar posse e se esta ideia faz algum sentido.

Se não quer, parece estar a fazer tudo nesse sentido. Realmente, o atual primeiro-ministro canadiano, o Justin Trudeau, está numa posição bastante frágil. Trump sabe isso. Também sabe, porque foram publicados muitos textos, muitas memórias, que Trudeau não tinha propriamente uma grande opinião dele no seu primeiro mandato entre 2016 e 2020. Inclusive foi apanhado uma vez até nas câmaras numa cimeira do G7 a trocar piadas sobre Trump com outros colegas. Trump tende a ser muito ciumento do seu ego, da sua imagem e provavelmente está aqui a vingar-se desse tipo de episódios. Trudeau está numa posição realmente muito frágil e é bem possível que o governo acabe por cair antecipadamente. Nomeadamente perdeu a sua vice-primeira-ministra e ministra das Finanças, que era alguém que defendia uma linha dura com Donald Trump, ou seja, esta ideia de que Trump só percebe a linguagem da força, neste caso, em termos económicos, obviamente, mas defensor de uma linha muito mais de ameaçar retaliar do que propriamente procurar a qualquer custo negociar, que foi a linha que Trudeau seguiu sem grande resultado, como se está a ver. E em relação a ser o 51º Estado, essa ideia tem realmente uma longa história. Começa logo com a Guerra da Independência dos Estados Unidos. Há muitos pais fundadores que acham que o Canadá devia ser como o resto da América inglesa, devia ser independente também, devia juntar-se aos estados que defendiam a independência, mas a verdade é que isso não aconteceu. Pelo contrário, o Canadá foi o refúgio dos lealistas, de muitos norte-americanos que não quiseram passar a ser independentes e continuaram leais à Coroa. Isso foi um elemento fundacional da sua identidade. E apesar de outras tentativas, também na guerra de 1812 ou mesmo no período da Guerra Civil, há um raide contra o Canadá, e o secretário de Estado, portanto, o responsável da diplomacia do presidente Lincoln, o Seward, defendia um conflito quer com o Canadá, quer com o México, o alargamento da guerra para reforçar a unidade dos Estados Unidos, mas realmente isso nunca se concretizou, e parece difícil hoje em dia. Ou seja, a identidade canadiana é muito feita por contraste com os Estados Unidos. Ainda recentemente estive com uma colega canadiana que alguém a confundiu com uma americana e ela deixou muito claro que nem pensar. Mas em todo caso, nunca seria o 51º estado. O Canadá também é uma federação, também tem as chamadas províncias, que são na prática estados, é um país ainda maior do que os Estados Unidos, ligeiramente maior, é o segundo maior país do mundo. A haver aqui alguma fusão, seria com vários estados e não apenas com um estado e provavelmente teria como impacto uma viragem à esquerda da política norte-americana, seria bastante contraditório para o Trump e para o trumpismo defender essa ideia, mas obviamente Trump aqui não está a pensar nesses termos.

E Bruno, continuamos nos Estados Unidos, mas agora com ligação à Ásia. Donald Trump convidou Xi Jinping para estar presente na sua tomada de posse, vai ser em janeiro. O presidente chinês não confirmou a presença, esteve foi em Macau esta semana. Bruno, queria te perguntar qual é o significado deste gesto. Podemos ver uma melhoria nas relações entre estes dois países no futuro? Acreditas nisso?

Primeiro, uma breve nota sobre Macau, realmente são os 25 anos do fim do último vestígio do império português, foi há 25 anos que Macau passou para a administração chinesa novamente. Não houve aqui nenhuma participação visível de Portugal nestas cerimónias, poderia eventualmente ter havido, se calhar um certo esfriamento das relações entre os países europeus, em que Portugal acompanhou essa tendência e a China também ajudaria a explicar isso. Ou simplesmente temos aqui uma afirmação de uma linha muito mais nacionalista por parte de Xi Jinping, que é também muito clara. Sobretudo, ele foi a Macau elogiar Macau por contraste com Hong Kong, por ser uma província com grande autonomia, mas muito leal à China. Em relação à relação com os Estados Unidos, é realmente um convite sem precedentes, ou seja, por tradição não há convidados estrangeiros, não há presidentes, chefes de governo estrangeiros na posse do presidente americano, até para facilitar as coisas, porque depois quem é que não se convida?

Exato.

Portanto, Trump quebra aqui essa tradição de forma completamente improvisada. O segundo aspecto sem precedente é que geralmente não se anuncia, sobretudo estes convites publicamente, sem ter a certeza que o outro lado aceita. Ora, não há nenhuma certeza que Xi Jinping aceita. Por regra, o presidente da China também não participa neste tipo de cerimónias de posse. Mais uma vez para evitar a multiplicação de convites e uma gestão muito complicada da agenda. Agora, o que eu diria que podemos concluir já é que nada disto tem a ver com o futuro das relações entre os Estados Unidos e a China. Isto a mim parece-me ter sobretudo a ver com a imagem, a obsessão de Trump com a sua própria imagem, com o seu próprio ego e a ideia de que ele vai ter aqui a presença de líderes que nunca estiveram presentes antes. A razão para isso é porque nunca foram convidados antes, mas do ponto de vista da imagem dele e daquilo que ele pode dizer às massas, isso será eventualmente interessante. Parece-me que é isso que está em questão e não propriamente nenhum sinal de que Trump quer uma boa relação ou uma excelente relação com a China.

Poderia ser uma maneira de conseguir também validação com a presença desses líderes nesse momento. Falávamos aqui já um pouco da Ásia, falar aqui um pouco da Coreia do Sul. Tivemos um caos político nas últimas semanas. O presidente da Coreia do Sul foi mesmo afastado da presidência. Isso é definitivo e qual será o impacto desta destituição do presidente naquilo que é a política externa do país?

Não é definitivo formalmente, ou seja, o Supremo Tribunal tem seis meses para decidir, mas a maior parte dos especialistas e analistas acham que não há aqui volta a dar, até porque o próprio partido dele, portanto a direita coreana, entrou em choque com o presidente. O próprio líder do partido também se demitiu e o afastamento parece relativamente inevitável. Até isso ser decretado, no entanto, continua em funções como presidente o primeiro-ministro, Han, que é alguém muito experiente, já foi primeiro-ministro anteriormente, tem muita experiência também na parte externa, sobretudo económica. Mas a verdade é que temos obviamente um país muito importante neste contexto do Extremo Oriente, muito enfraquecido, com um governo sem qualquer tipo de força e, mais uma vez, num contexto global de grande incerteza, mais um fator de grande incerteza.

Ainda na Ásia, Bruno, vamos até às Filipinas. Na semana passada já falámos do choque de dinastias entre a vice-presidente e o presidente do país. Esta crise pode desencadear algum tipo de problemas para o país?

Temos este choque entre duas dinastias políticas. Aquilo que talvez interesse sublinhar é que, para já, aparentemente, o presidente procura desvalorizar a crise e portanto conter os seus efeitos. Mas sobretudo, temos este ponto importante que é eles parecem encarnar duas opções bastante distintas de política externa. Enquanto Marcos tem claramente uma linha pró Estados Unidos, em que a contenção da China é a prioridade, Duterte, filha, tenta ser muito mais pró-chinesa. Isso não correu nada bem no caso do pai e é paradoxal que esta tentativa se mantenha, mas a confirmar-se esta rutura e a ela ter reflexos em eleições futuras, pode significar que não há esse consenso nacional que seria fundamental para uma política estável de contenção da China e a China pode explorar estas divisões.

Vamos falar ainda um bocadinho de África, porque há aqui mais um episódio da crise da presença francesa neste continente. Aconteceu esta semana: a junta militar do Níger assumiu o controle da mina de urânio francesa no país. Que leitura fazemos desta situação? É um detalhe ou pode ter implicações geoestratégicas?

Não é realmente um detalhe. A França é o país europeu com mais centrais nucleares, tem mais de 50 centrais nucleares, é um grande consumidor de urânio. À volta de 25% vem do Níger e tinha a vantagem de ser também uma mina francesa. Na verdade, esta mina surge já no período a seguir à independência, não é aquela narrativa assim tão simples de que continua simplesmente a influência e a presença francesa nos mesmos termos que no período colonial. O Níger obviamente era uma colónia francesa até àquela vaga de independências na África francófona em 1960, mas depois mantém-se relativamente próxima da França. Aquilo que é bastante claro é, por um lado, esta crise na influência francesa na África francófona, sobretudo em termos de presença também militar. O Chade acabou também de anunciar um corte nessa cooperação. O Senegal, de uma forma um pouquinho mais civilizada e diplomática, também já sinalizou que queria discutir o fim da presença militar francesa no Senegal, de uma base militar. Essa crise é bastante evidente. Tem este lado também irónico que corresponde por parte da França a um esforço que vem tendo lugar há duas décadas, basicamente para se afastar do chamado sistema Focart, daquele sistema de relações muito próximas, de grande cumplicidade com as elites francófonas africanas, garantindo a segurança dos regimes, muitas vezes ditadores africanos, desde que eles fossem simpáticos para os interesses franceses, com o apoio militar, com o apoio em termos de informações, etc. A verdade é que o que nós vemos é a substituição. A França deixou de querer fazer isso, mas isso gerou grandes conflitos, desconfiança, etc. E quem passou a querer fazer isso, a estar disposto a fazer isso, foi sobretudo a Rússia, mas mesmo a China. No fundo temos uma espécie de sistema Focart agora em versão russa e isso parece ser muito mais interessante para certas elites africanas. Além disso, isto também permite a essas elites africanas jogar a cartada nacionalista, da rutura com a França. E é verdade que em muita opinião pública africana, na África francófona, há esta ideia de que a cooperação com a França não foi uma verdadeira opção depois da independência, foi uma imposição depois da independência, ao contrário, por exemplo, do que aconteceu na África lusófona, em que Portugal não tinha nenhumas condições para impor qualquer tipo de cooperação e os países cooperam com Portugal porque querem, de forma livre e no caso da África francófona isso é bastante menos evidente. Em termos do urânio em si, é um recurso estratégico muito importante. Há alternativas, mas as alternativas vêm sobretudo do espaço ex-soviético, do Cazaquistão em primeiro lugar, mas também da própria Rússia e isso pode criar à França a necessidade de fazer opções difíceis na gestão dos seus recursos estratégicos.

Vamos ver como fica essa situação também para o lado francês. Estamos quase a terminar, temos dois minutos. Bruno Cardoso Reis, temos tempo ainda para uma recomendação natalícia. Que prenda traz para os nossos ouvintes?

Eu pensei em termos de uma série, agora que talvez haja um pouquinho mais de tempo com o período das férias e das festas para algum binge watching. Para quem ainda não viu, acho que há uma grande série realmente este ano, que é a série "Shōgun", passada no Japão, como o nome indica, ou seja, o Japão do século XVII, finais do século XVI, início do século XVII. É uma série que tem este lado interessante, que é baseada no livro de um escritor inglês, portanto os ingleses são os heróis e os portugueses, os jesuítas portugueses, sobretudo, são os vilões, são os grandes adversários da relação futura entre a Inglaterra e entre as potências protestantes e o Japão. Mas eu diria que sobretudo é uma série bastante sofisticada, nuanceada e que transmite alguma coisa do que é também a cultura quase apresentada um pouco nesses termos, como uma mistura de sofisticação, beleza, civilização e depois também uma enorme violência, uma enorme brutalidade, um nível de violência que mesmo para a Europa do século XVI, XVII, às vezes era um bocadinho chocante. Acho que é algo interessante para perceber um outro continente ou pelo menos um outro país importante num outro continente.

Já teve muitas nomeações, já ganhou muitos prémios também esta série. É uma ótima recomendação, certamente.

É uma prenda no sapatinho para os nossos ouvintes. Bruno, ficamos por aqui nesta nossa viagem pelos cinco continentes. Deixamos ainda também o convite a deixarem uma pergunta ao Bruno Cardoso Reis sobre História ou geopolítica internacional. Podem fazê-lo através do e-mail ouvinte@observador.pt. Bruno, temos encontro marcado no próximo sábado, ainda antes de terminar o ano 2024. Um feliz Natal, muito obrigado e até à próxima semana.

Um abraço.

Muito obrigado.