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Está de regresso o Cinco Continentes na Rádio Observador. Já sabe que é aqui que todas as semanas viajamos pelo mundo para analisar a geopolítica internacional e sempre com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bem-vindo de volta, Bruno.

Bem-vindo. É um horário um bocadinho diferente, não é?

Obrigado. Sim, o horário é um bocadinho diferente.

Dá para dormir um pouco mais agora, não é? Porque já percebemos que agora vais partir para outras andanças, que vai-te fazer acordar um bocadinho mais cedo, mas agora um bocadinho mais tarde aqui em Portugal, não é?

Sim, exatamente. Quando estiver nos Estados Unidos, vai ser madrugar.

E neste regresso do Cinco Continentes, temos aqui novidades. A partir de hoje, o Cinco Continentes fica a dobrar. Passamos a ter duas partes num programa de uma hora. Bruno, o que é que podemos esperar desta nova versão do Cinco Continentes?

Bem, garantidamente mais tempo. Espero que consigamos usá-lo bem. Também um pouco com base em algum feedback, em algum retorno dos ouvintes, talvez um pouquinho mais de história por trás da atualidade, por trás de alguns destes pontos de atualidade que vamos referindo. Já tentámos fazer um pouco isso, mas teremos um pouco mais de tempo para isso ser possível. Também ocasionalmente um convidado, para não se fartarem de me ouvir. E também tentaremos incluir uma recomendação para ver, para ouvir ou para ler no final. E também havendo o interesse da parte dos ouvintes, começar a introduzir a possibilidade de colocarem uma questão e portanto, termos um elemento de resposta ao ouvinte, vamos dizer assim.

O nosso e-mail é ouvinte@observador.pt.

Ouvinte@observador.pt. O Bruno cá estará para responder a todas as perguntas. Bruno, na segunda parte vamos falar da suspensão do antigo Twitter no Brasil e também da ida de Maria Luiza Albuquerque para a Comissão Europeia, mas nesta primeira parte do novo Cinco Continentes, vamos olhar para os principais conflitos um pouco por todo o mundo. Vamos começar pela guerra na Ucrânia. Tivemos reunião do Fórum Econômico do Oriente na Rússia, com Putin e o primeiro-ministro da Malásia a trocarem elogios. Qual é a história por detrás da relação destes dois países e que implicações poderá ter um estreitar de relações entre a Rússia e a Malásia?

Eu penso que isto é muito significativo de uma certa mudança de alinhamentos e de uma tendência para aquilo que eu costumo designar uma Segunda Guerra Fria, que não será exatamente igual à primeira, mas no fundo para a constituição de blocos, que é algo que muitos destes países, sobretudo a China, mas mesmo a Rússia, dizem que estão contra, mas na verdade, depois procuram ativamente fazer. Digamos aqui a história mais remota. Começa logo com a própria fundação de Vladivostok, da principal cidade ou a segunda maior cidade em população e talvez a principal cidade do Extremo Oriente russo. Esta cidade fica no Pacífico, fica a pouco mais de 100 quilômetros da fronteira com a China. Só é criada em 1860, portanto, este território é anexado pela Rússia só já na segunda metade do século XIX. E portanto, temos aqui uma das ironias de toda esta situação, que é a China, muitos países da Ásia queixam-se muito do imperialismo ocidental, mas pelos vistos o imperialismo russo não conta. Ou seja, a China, por exemplo, fala do século de humilhações e das perdas territoriais para países como a Grã-Bretanha, mas a Grã-Bretanha devolveu Hong Kong. A Rússia foi o país para quem a China mais território perdeu no contexto desses conflitos do século XIX e nunca recuperou esse território. Portanto, obviamente, isto também mostra aqui as limitações de simplesmente olhar para a história ou deixar que a história dá respostas simples para conflitos atuais. Em relação às relações entre a Malásia e a Rússia, realmente a Rússia começou, a partir de 2015, a organizar este fórum para procurar, no fundo, retirar benefícios do crescimento econômico do Extremo Oriente, da Ásia, portanto, ainda antes da Guerra da Ucrânia. Com a Guerra da Ucrânia, isso tornou-se ainda muito mais importante, no fundo, a única solução possível para tentar alguma alternativa aos mercados ocidentais que foram perdidos por causa das sanções e, portanto, a Malásia claramente está interessada em aproveitar isso. Isso é a história mais próxima. Em termos da história mais remota, isto corresponde realmente a uma mudança de alinhamentos da Malásia. A Malásia tornou-se independente como uma federação de reinos, de sultanatos, em 1957, independente da Grã-Bretanha, mas manteve-se alinhada com o bloco ocidental durante a Guerra Fria. Isto porque ela torna-se independente no contexto de uma guerra de guerrilha a partir do final da Segunda Guerra Mundial, logo a partir de 1946, em que há uma guerrilha comunista apoiada pela China, pela Rússia comunista, pela União Soviética, essencialmente da etnia chinesa, portanto, os chineses são uma minoria muito importante na Malásia e portanto, isso cria logo desconfiança com as elites malaias, além do fato de ser uma guerrilha comunista que aumenta ainda essa desconfiança. E portanto, durante a Guerra Fria, realmente, a Malásia foi um país do bloco ocidental, muito hostil ao comunismo, e realmente lentamente, depois começa a aproximar-se da China por razões econômicas, mas até muito recentemente, até o atual primeiro-ministro Anwar Ibrahim procurou sempre ter uma postura de um certo equilíbrio, por exemplo, no modelo também da Indonésia e de outros países da ASEAN, desta grande associação regional do Sudeste Asiático. E portanto, isto parece significar que a Malásia decidiu que quer apostar muito mais neste bloco oriental, embora negue que está aqui a aderir a um bloco. Nas palavras de Anwar Ibrahim, neste fórum, realmente o sul global está a crescer e nós queremos acompanhar esse crescimento.

Ora bem, vamos acompanhar aqui também no Cinco Continentes, como é óbvio. Bruno, também neste fórum tivemos Vladimir Putin a deixar uma revelação relacionada com as eleições nos Estados Unidos da América. Vamos ouvir.

O nosso favorito era o atual presidente Joe Biden. Ele foi retirado da corrida, mas pediu aos seus apoiantes para apoiarem Kamala Harris. Ora, é isso mesmo que vamos fazer. Vamos apoiá-la a ela também. Ainda por cima, o riso dela é tão expressivo e contagiante que só pode querer dizer que ela o está a fazer bem.

Aqui a revelação de Vladimir Putin com muitos risos e aplausos vindos da tribuna. Putin nesta semana declarou que apoio, entre aspas, não é, Bruno, Kamala Harris contra Donald Trump. Este apoio de Putin a Harris é credível e que peso é que têm tido os outros continentes na campanha eleitoral?

O peso na campanha eleitoral das questões externas tem sido pequeno. Por exemplo, nesta entrevista recente a Kamala Harris, que foi esperada com alguma expectativa, porque ela dá relativamente poucas entrevistas, houve basicamente uma pergunta sobre política externa, um tema que tem gerado muita controvérsia e até disputas políticas internas até no interior do Partido Democrático, que foi sobre a questão de Gaza, de Israel, da Palestina. Portanto, foi a única questão. Vamos ver agora se no debate desta próxima semana surgem mais questões de política externa, mas realmente nós sabemos que, por regra, as campanhas são decididas por questões de política interna, muitas vezes até sobretudo política econômica, e muito menos sobre questões de política externa, a não ser que haja uma grande crise, uma guerra, que esteja a correr muito mal, aí eventualmente tem um peso maior, mas por regra é assim em todos os países e também nos Estados Unidos, apesar de depois a política externa dos Estados Unidos ter uma enorme importância para o resto do mundo, para todos nós na Europa e não só. Portanto, desse ponto de vista, nada de muito inesperado, exceto talvez ainda menos política externa do que muitas vezes é costume. Em relação a esta declaração de Putin, acho que muito pouco do que Putin diz é credível. Enfim, basta recordar que literalmente-

Em português corrente, muito sonsa esta declaração, não é?

Sim, eu acho que muito pouco é credível sempre. Basta recordar que ele horas antes da invasão da Ucrânia estava a garantir que tudo aquilo passava de desinformação ocidental e que aquilo era um inocente exercício, portanto, toda aquela concentração de tropas era um inocente exercício e que ia acabar. Realmente, por regra, temos que desconfiar daquilo que diz Putin, mas eu acho que neste caso ele ou nem conseguiu ou nem tentou disfarçar muito que realmente aquilo não era para levar a sério, e acho que realmente não é para levar a sério. Temos muito bem documentado, há todo um processo judicial, investigação policial que mostra bem que logo em 2016, Putin, os serviços de informações militares russos, aquelas fábricas de informação, de bots, etc., foram usados para tentar favorecer Donald Trump. Ora, qual é a grande mudança desde 2016? É que entretanto temos uma guerra na Ucrânia que é absolutamente vital para o regime de Putin, uma guerra que está longe de correr como planeado, e uma das principais razões é a determinação dos ucranianos para resistir, mas também o enorme apoio dos países ocidentais, inclusive em termos militares, em particular na questão de apoio militar, de armamento dos Estados Unidos. Isso, obviamente, torna muito mais difícil a ação militar russa, aumenta muito a eficácia da resistência ucraniana. E sabemos que Kamala Harris apoiou essa política, garante que vai continuar a apoiar a Ucrânia militarmente e Donald Trump não apoia essa política e diz que vai acabar com a guerra num dia. Portanto, é evidente de que lado é que está o interesse de Putin e do atual regime russo.

Vamos ao Médio Oriente, Bruno. A pressão externa para um cessar-fogo aumentou nos últimos dias, com os Estados Unidos à cabeça. Contudo, em sentido contrário, Netanyahu declarou esta semana que um cessar-fogo não está próximo. Quem é que tem razão, afinal?

Eu acho que este é um bom exemplo de como realmente o mundo, os tais cinco continentes, são muito mais complicados do que simplesmente estas teorias, muitas vezes da conspiração ao próximo, de que os Estados Unidos é que decidem tudo, mandam tudo, são responsáveis por tudo, ou outra grande potência, Rússia ou China ou Irã, ou o que seja. Realmente, ser uma grande potência não é a mesma coisa que ser onipotente e muitas vezes estas grandes potências têm grande dificuldade em impor aquilo que seriam os seus interesses, as suas prioridades, até em relação a países aliados, até em relação a aliados próximos, como é o caso de Israel em relação aos Estados Unidos. É bastante evidente que os Estados Unidos querem realmente um acordo. Aliás, há muitos meses que insistem nisso. É evidente que isso seria muito bom para a sua imagem internacional em termos globais, em termos da própria região do Médio Oriente. É evidente que isso seria politicamente muito bom para Biden e Harris, no contexto da campanha eleitoral. Sabemos que a maioria dos democratas é cada vez mais hostil a este grau de apoio a Israel, mas a verdade é que não conseguem e a principal razão é realmente a intransigência de Benjamin Netanyahu, este grande sobrevivente da política israelita, que parece apostado em continuar no poder custe o que custar, inclusive implicando isso recusar um acordo, continuar a adiar a libertação de reféns. Eu recordo que por via militar, Israel conseguiu libertar oito reféns, matou entre três e cinco, e por via negocial conseguiu libertar 105 reféns. Agora, realmente, temos de um lado Israel esta enorme intransigência, da parte de Netanyahu e mais ainda dos seus parceiros indispensáveis de coligação, que são aqueles partidos de extrema-direita, e depois também do lado do Hamas, que atualmente é liderado pelo elemento mais duro da ala mais dura, o senhor Sinwar, e que está disponível, por exemplo, para coisas como executar sumariamente reféns, como aconteceu ainda na semana passada. E, portanto, eu acho que neste caso, realmente tenho que concordar com Netanyahu, até porque ele saberá que o seu acordo é indispensável para um acordo e, portanto, se ele diz que o acordo está distante, provavelmente é porque o acordo está infelizmente distante.

Claro. Bruno, viajamos agora até a Ásia-Pacífico, vamos até à visita do Papa à região. Começamos pela Indonésia. Aliás, o Papa começou pela Indonésia, Cingapura, Timor, também Papua Nova Guiné. Por que estes países, Bruno? Por que o Papa Francisco escolheu visitar estes países e também qual é que achas que vai ser o impacto da visita nesta região?

Em termos do histórico, a questão realmente é interessante perceber que os papas passaram de ser os últimos chefes de Estado a fazer viagens ao exterior, a fazer viagens de Estado. É verdade que durante grande parte da história, os soberanos, os líderes viajavam relativamente pouco, as viagens eram muito difíceis, demoravam muito tempo, mas realmente no século XX isso começa a mudar. Os papas são realmente, como eu digo, os últimos a começar. Basicamente, as viagens papais começam com o Papa Paulo VI nos anos 60. Ele faz, apesar de tudo, apenas nove viagens, inclusive, por exemplo, uma viagem a Fátima em 1967. Mas é interessante destacar que logo nesse primeiro papa viajante, vamos dizer assim, a sua última viagem importante, em 1970, é precisamente a esta região da Ásia e inclui, por exemplo, uma paragem na Indonésia. Por que estes países são importantes? São importantes por razões diferentes. A Indonésia é especialmente importante por ser o país com mais população muçulmana no mundo, é o país onde há mais muçulmanos. Nós tendemos a associar o Islã, os muçulmanos ao Médio Oriente, ao coração árabe do Médio Oriente, que é realmente a região, a península arábica, onde o Islão tem a sua origem. Mas a verdade é que os países com mais população muçulmana não são países do Médio Oriente, não são países árabes, são países como o Paquistão, como a própria Índia, onde os muçulmanos são uma minoria, mas a Índia é o país mais populoso do mundo atualmente, e países também como a Indonésia. E aqui o que é importante também é que é um Islão bastante mais tolerante tradicionalmente. E isso permite, por exemplo, ao contrário daquilo que acontece na Arábia Saudita, onde ainda hoje qualquer expressão pública de outra religião que não seja o Islão é proibida, permite, por exemplo, que na capital Jakarta, a catedral católica esteja literalmente do outro lado da rua da principal mesquita. Esse é um dos focos da visita do Papa, que se encontrou com o grande imã desta grande mesquita de Jakarta. E portanto, aí a principal mensagem é esta mensagem da importância da tolerância, do respeito mútuo, do diálogo inter-religioso. Depois, Timor-Leste, que nos é muito familiar, é um dos raros países de maioria católica desta região, juntamente com as Filipinas e a Coreia do Sul. Seria aqui uma paragem indispensável, também para mobilizar e reconhecer essa importância do catolicismo. E depois a Papua Nova Guiné é das regiões onde o catolicismo está a crescer mais. A Papua Nova Guiné é a maior ilha deste universo polinésio e tem uma enorme população animista ainda, com religiões tradicionais, e há aí um esforço missionário bastante eficaz da parte da Igreja Católica. Há atualmente à volta de cinco milhões de católicos, mas de facto há um crescimento muito acelerado e certamente o Papa quer aqui encorajar esse trabalho missionário.

Um olho no futuro, não é?

Exatamente. Também na Ásia, o mercado em termos religiosos está a crescer muito.

Está a crescer. Bruno Cardoso Reis, vamos fazer uma pausa no Cinco Continentes, porque o programa tem a partir de agora a duração de uma hora. Na segunda parte voltaremos com mais viagens. Vamos até ao Brasil com o fecho do Twitter e até França com a escolha do novo primeiro-ministro. Até já, Bruno.

Até já, Bruno.

Até já.

Segunda parte do Cinco Continentes na Rádio Observador, é o programa onde olhamos para a geopolítica com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis e que a partir de hoje dura uma hora. Bem-vindo de novo, Bruno.

Obrigado.

Bruno, antes de irmos à Nova Zelândia e ao Brasil, deixa só anunciar uma novidade. Os ouvintes podem enviar-te questões para o endereço ouvinte@observador.pt. Venham daí as questões dos nossos ouvintes. O Bruno Cardoso Reis promete responder aqui no ar, não é, Bruno?

Sim, o melhor possível, depende é de saber, mas perguntas de preferência que tenham a ver com a geopolítica internacional.

Muito bem. Bruno, na primeira parte falámos sobre a visita do Papa à região Ásia-Pacífico. Vamos continuar por esta região do nosso mundo. A Nova Zelândia tem uma nova rainha Maori, mas a dúvida é a seguinte: não era suposto a Nova Zelândia ser um dos reinos do Rei Carlos III de Inglaterra? Qual é que é a história por trás desta questão? E a Nova Zelândia não é um país demasiado longínquo de Londres para merecer atenção.

Realmente é uma história fascinante e a Nova Zelândia está literalmente nas antípodas. Em relação a Portugal e Espanha, realmente é literalmente do outro lado do mundo, é o sítio mais longe em que nós conseguimos ir na Terra se não sairmos da atmosfera, no próprio planeta. Mas não é só distante em relação a Portugal, é das zonas mais remotas realmente do mundo. Está à volta de 2 mil km da outra grande massa de terra próxima, que é a Austrália. Isso significa que a Nova Zelândia foi a última grande região habitável que foi colonizada por seres humanos. Os maoris só chegam à Nova Zelândia, não se sabe exatamente quando, mas será entre o final do século XIII e início do século XIV, mais ou menos na altura do reinado do nosso Rei D. Dinis em Portugal. Até essa altura, a Nova Zelândia era despovoada. É um território bastante grande, não parece, porque está muito longe, porque está muito próximo da Austrália, que é um país continente, mas a Nova Zelândia, em termos de área, é mais ou menos da mesma área da Grã-Bretanha. É substancialmente mais do que Portugal, embora só tenha metade da população de Portugal, à volta de cinco milhões de habitantes. E realmente, em termos de importância estratégica, ela tem aumentado Nos últimos tempos, já teve importância também noutros períodos, por exemplo, durante a Segunda Guerra Mundial, mas sempre que há conflitos na zona do Pacífico, a Nova Zelândia ganha importância, a par das duas grandes ilhas, a ilha do norte e do sul, a Nova Zelândia controla à volta de 700 ilhas, portanto, é um país realmente arquipélago, muitas delas com importância estratégica no Pacífico. É também um membro de pleno direito do Fórum das Ilhas do Pacífico, que tem sido um dos palcos desta disputa crescente pela influência nesta região entre a China e os Estados Unidos. E, portanto, é realmente um país que tem importância, apesar de bastante remoto e de nos parecer e ser realmente bastante distante. Em relação à questão desta nova rainha Maori e será que ela está em conflito com o Carlos III ou não, realmente, formalmente, a Nova Zelândia é um dos chamados reinos do Commonwealth, portanto, é uma monarquia constitucional. Isso tem a ver, obviamente, com o seu passado colonial. Desde 1840 que é realmente um território que está numa relação política com Londres, primeiro como colónia, depois como domínio e depois como reino plenamente independente, mas que realmente tem o mesmo rei, Isabel II, agora Carlos III, que a Grã-Bretanha. Esta rainha Maori, na verdade, não é reconhecida como tal por todos os Maoris. Uma das coisas que facilitou a ocupação britânica em 1840, através de um tratado com os Maoris, foi o facto de os Maoris não estarem unificados, haver guerras entre eles, de haver também um interesse crescente da França. A França acabou, aliás, por ocupar a Nova Caledónia nesta região, de que já falámos no passado. Mas este tratado do Waitangi entre os Maoris e a Grã-Bretanha supostamente daria alguma proteção aos Maoris, daria também alguns direitos de manter as suas terras, etc. Muito disso não foi cumprido e desde 1975 que há um processo para tentar reparar isso. A criação desta monarquia, uma espécie de federação de tribos, é uma resposta Maori precisamente a todos estes desafios, portanto, só surge depois da colonização britânica, até um pouco sim do modelo britânico. Isto é conhecido em Maori como Kiingi, ou seja, uma óbvia palavra tomada de empréstimo de king, portanto, rei britânico. Mas a verdade é que realmente esta dinastia, que era já uma dinastia de uma das principais tribos e que era reconhecida como especialmente importante, acaba por ser um interlocutor importante do governo da Nova Zelândia para as questões que têm a ver com os Maori e isso realmente tem importância em termos de dinâmicas internas, por exemplo, tem estas questões de gestão de terras, mas também do ponto de vista externo, sobretudo nesta dimensão de relações com as ilhas do Pacífico. Obviamente, os Maori são uma população polinésia, ou seja, partilham muitos aspetos da sua herança cultural, linguística, etc, com as populações das outras ilhas do Pacífico, com as quais a Nova Zelândia procura ter boas relações e, portanto, é importante também que, do ponto de vista da sua imagem na região, passe a imagem de que tem boas relações com a sua própria população polinésia.

Muito bem. Andaste a fugir, a tentar não dizer o nome da rainha. Ora, eu assumo, Nga Whairongo I te Po. Não é fácil.

Disse bem, Bruno.

Apanhado em flagrante.

Olha, Bruno, vamos agora a locais com nomes um pouquinho mais simples para nós. Vamos à língua portuguesa, vamos até ao Brasil, à América do Sul. Temos tido uma batalha por lá. O X, o antigo Twitter, foi suspenso no Brasil. Há uma luta entre o Elon Musk, o dono da rede social, e o Supremo Tribunal brasileiro. É uma frase que eu não estava à espera de dizer ao longo da minha carreira. Quem é que vai ganhar esta guerra, Bruno? É o Twitter, o X, Elon Musk ou é o Supremo Tribunal brasileiro?

Sim, e aí podemos não escapar a dizer o nome do Alexandre de Moraes, que é quem tem tido um protagonismo enorme no cruzamento entre a política e justiça no Brasil, desde aquela saída muito complicada do Bolsonaro e a sua substituição pelo presidente Lula. Mas realmente é incrível que sequer tenha de se colocar essa questão. O que é que vai prevalecer? Um Estado que, apesar de tudo, o Brasil é metade do continente sul-americano, ou uma empresa privada liderada por um destes tecnobarões de Silicon Valley, o Elon Musk. Mas realmente a questão tem de se colocar. Eu próprio há uns anos atrás chamei a atenção que me parecia que era evidente que esta enorme concentração de poder, de riqueza, de informação que estas empresas tecnológicas têm, e os seus donos muitas vezes são empresas recentes, criadas por um empreendedor carismático que teve um enorme sucesso, o que aumentou ainda mais o seu ego. Portanto, que realmente estes tecnobarões, estas empresas e os Estados inevitavelmente estavam no caminho para um certo choque. E isso tem-se confirmado nos últimos anos. Elon Musk, em particular, tem sido muito atraído a polémicas, também por causa da sua personalidade. Aqui, o que é que me parece fundamental? Por um lado, este dado, que isto corresponde a uma tendência mais ampla, de crescimento do poder destas empresas e do choque inevitável com os Estados. Por outro, neste caso, há aqui a questão da liberdade de expressão, que tem sido usada por Elon Musk. Eu realmente teria preferido que os juízes brasileiros, o juiz Moraes e os seus colegas do Supremo, tivessem, se calhar, optado por outras formas de sancionar o Twitter, que não interferissem com a liberdade de expressão das pessoas que usam o Twitter para exprimir as suas opiniões, por um lado. Por outro lado, parece-me evidente, não é muito crível esta postura de Elon Musk como grande defensor da liberdade de expressão. Ele não tem problemas em fazer cedências nesse campo quando quer fazer acordos com a China, por exemplo, ou mesmo noutros casos semelhantes Que aconteceram na Índia ou na Turquia. Portanto, isso não me parece muito credível, esse compromisso dele ser sobretudo com a liberdade de expressão. E também parece evidente que não é aceitável que qualquer empresa privada esteja acima da lei. Ou seja, estes regulamentos, estas regras, por exemplo, que cada empresa tecnológica tem que ter um representante legal no Brasil, são regras que já existiam para todas as empresas, não foram criadas por Alexandre Moraes para esta questão ou contra o Twitter, ou por causa do Twitter, e parecem regras razoáveis. Aliás, até em termos de cibersegurança, por exemplo, esta legislação brasileira é muitas vezes apresentada como um bom exemplo de evitar que estas empresas aproveitem o fato de ter aqui uma dimensão virtual para escaparem a ter algum tipo de resposta em termos legais aos Estados onde funcionam. Portanto, realmente, parece-me, como eu digo, infeliz que isto tenha chegado a este ponto e que tenha tido este reflexo na liberdade de expressão. Agora, qual será o desfecho? Eu diria o desfecho racional e razoável, até porque o Brasil é o terceiro mercado para o Twitter, seria haver aqui algum tipo de acordo. Agora, tendo em conta até o tipo de personalidade que está aqui em choque, de um lado Alexandre Moraes, do outro lado Elon Musk, eu acho que seria muito arriscado prever pelo menos um desfecho rápido e um compromisso rápido.

Muito bem. Vamos até África com uma escala na Ásia, isto porque vamos detalhar a Cimeira China-África. Pequim prometeu mais 50 mil milhões de dólares para África nos próximos três anos. Bruno Cardoso Reis, são boas notícias e são para quem?

O histórico da relação entre a China e a África é muito antigo. Portanto, nós temos nos recordar que a China enviou grandes frotas, sobretudo para esta costa da África Oriental, no início do século XV, 1420, 1430, bastante décadas antes dos navios portugueses lá chegarem, do Bartolomeu Dias ou depois do Vasco da Gama, no final do século XV. No século XX, a China comunista, a China reunificada de Mao Tsé-Tung, apoiou também os movimentos anticoloniais nesta região, inclusive, por exemplo, a FRELIMO ou mesmo a UNITA. Portanto, há realmente aqui um histórico longo. Com a China a apostar na economia de mercado, temos a partir basicamente do início do século XXI, realmente reuniões regulares com os Estados africanos. A partir de 2006, eles começam a ter este formato de cimeira de chefes de Estado e de governo, de três em três anos, e portanto, este é mais um encontro desse tipo. A China já investiu de várias formas, já emprestou, já investiu ao volta de 150 mil milhões de dólares, portanto, a China tem muito dinheiro e pode prometer algo como 50 mil milhões. Agora, aí a questão é: isto não é dinheiro de cooperação, não é dinheiro dado a fundo perdido, como muitas vezes acontece, por exemplo, no modelo de cooperação da União Europeia com África. A Europa continua a ser, de longe, o principal polo a fornecer ajuda desse tipo à África. A China, basicamente, o que promete são empréstimos, são investimentos, são empréstimos eventualmente com juros bonificados, etc. Aí o grande problema é: será que estes países têm capacidade para se endividar ainda mais? Já há uma série de países com enormes dificuldades de excesso de dívida, em particular em relação à China, por exemplo, o Quênia. Falamos também várias vezes da crise política que está ligada à crise financeira, à crise orçamental, à necessidade de austeridade, que tem a ver exatamente com isto. Portanto, no fundo, eu diria, atirar mais dinheiro ao problema não é necessariamente uma boa notícia, embora eu perceba que qualquer país em África, na Europa, etc, quer atrair investimento estrangeiro, se lhe oferecem, entre aspas, dinheiro, a tentação é grande para aceitar, mas portanto, acho que isso é um pouquinho mais complicado. Eventualmente, mais interessante será uma nova promessa da China de que desta vez vai mesmo abrir o mercado chinês sem taxas alfandegárias às exportações africanas. Se isso concretizar, eu diria que será, de facto, extraordinário, será ótimo. Ainda assim, não garante que depois haja compradores para os produtos africanos, portanto, é sempre um pouquinho mais complicado, mas seria realmente uma ótima notícia e uma grande mudança na postura tradicional da China, que há muitos séculos caracteriza, tem como um dos pilares da sua cultura estratégica, da sua postura em termos diplomáticos, resistir o mais possível a abrir o seu enorme mercado ao exterior. Sabemos dos inúmeros conflitos que isso gerou no passado e também em tempos mais recentes, por exemplo, com os Estados Unidos ou com a União Europeia.

Bruno, vamos agora viajar um pouco mais perto, vamos à Europa, mais concretamente a França. Não houve novo primeiro-ministro francês durante os Jogos Olímpicos, mas houve durante os Jogos Paralímpicos. Michel Barnier foi o escolhido de Emmanuel Macron. Falamos de um político experiente, 73 anos, que se destacou como chefe do grupo de trabalho pós-Brexit da Comissão Europeia. Esta escolha de Michel Barnier faz sentido, na tua opinião?

Desde logo, é uma mudança da juventude para a veterania. Passamos do primeiro-ministro mais jovem de sempre da história de França, o Gabriel Attal, para um veterano. Realmente, como dizias, ele já foi praticamente tudo, já foi ministro de inúmeras pastas, desde a Agricultura aos Negócios Estrangeiros. Começou a sua carreira ministerial em 1993, já foi comissário europeu, foi como dizias também, o último cargo importante, relevante, foi esta negociação do Brexit com a Grã-Bretanha, portanto, é um veterano da política francesa, da direita francesa. No entanto, parecendo uma escolha segura, é de facto uma escolha um pouco estranha e eu diria arriscada, embora, para mim, isso é importante também sublinhar, é uma escolha constitucional e legal. E acho que aí, por exemplo, a esquerda, mesmo o atual líder do Partido Socialista, Olivier Faure, que veio falar de uma crise de regime, acho que devia talvez ser mais cuidadosa, tendo em conta que temos aí à espreita esta nova frente nacional, o novo partido da Marine Le Pen. E portanto, realmente, a França tem um sistema constitucional diferente Portugal e de vários outros países europeus, em que o presidente pode livremente nomear o primeiro-ministro que entender e depois cabe ao Parlamento eventualmente aprovar ou não uma moção de censura. E aqui o problema todo foi exatamente esse, é isso que Macron argumenta em sua defesa, que é: ele tinha indicações de que a candidata a primeira-ministra indicada pelo bloco que teve mais votos e mais deputados, esta chamada Nova Frente Popular, seria rejeitada pelos outros dois grandes blocos. E realmente, no essencial, o resultado das eleições legislativas francesas foi a criação de três blocos com resultados muito próximos, com o número de deputados muito próximos. É verdade que a Nova Frente Popular tem mais, mas a seguir vem o bloco centrista próximo de Macron e logo a seguir vem este partido da senhora Marine Le Pen. E portanto, aquilo que Macron diz é: com este primeiro-ministro, apesar de tudo, eu tenho a indicação de que ele será aceitável pela direita conservadora, será aceitável pelos centristas, pelo bloco mais próximo dele, e eventualmente esta Nova Frente Nacional da Marine Le Pen não votará contra automaticamente. E portanto, seria uma hipótese de ter aqui um governo com alguma viabilidade. Agora, será sempre um governo extremamente frágil e será uma péssima notícia para a França, que tem grandes problemas para resolver, desde logo orçamentais, e será uma péssima notícia para a União Europeia e em particular para os países do sul da União Europeia, como Portugal. A França aí é claramente o país com mais peso e que tem mais interesses convergentes. E, por exemplo, vamos ter negociações muito difíceis do próximo orçamento da União Europeia, se Barnier lá chegar. É bem provável que caia antes, mas estas crises constantes em França vão enfraquecer muito a posição negocial da França e por arrastamento também deste bloco dos países mais do sul.

Muito bem, vamos continuar na Europa, na reta final do Cinco Continentes, que agora tem uma hora, para olhar para a escolha do governo português para o cargo de comissária europeia, Maria Luísa Albuquerque. Recebeu muitas críticas, Bruno, à esquerda, e elogios à direita. O que achaste da escolha do governo português e pergunto se Maria Luísa Albuquerque pode ter uma boa pasta?

Bem, são os dois pontos cruciais. Eu acho que é evidente, em termos de análise distanciada, que a priori é uma boa candidata. Quer dizer, eu percebo perfeitamente que a esquerda faça grandes críticas ao seu desempenho como ministra das Finanças, mas ela foi ministra das Finanças, portanto, objetivamente, é um cargo muito importante. Mais as críticas que lhe são feitas em Portugal, como eu digo, perfeitamente compreensíveis da parte de muita esquerda, algumas críticas até que eu posso partilhar, mas a questão é: ela é criticada por ter tido excessivo empenho em cumprir aquilo que foi acordado com as instituições europeias. Ora, isso, mais uma vez, é um bom cartão de visita para alguém que vai desempenhar um cargo nas instituições europeias. Portanto, eu acho que objetivamente, em termos de currículo, é uma boa escolha. Eu diria, eventualmente, o problema, e isto liga com a segunda questão, é que será, se calhar, uma candidata demasiado boa, ou seja, a expectativa é que ela tenha uma pasta económica importante. Por exemplo, no Político, nesta publicação de Bruxelas, a especulação é que exatamente ela poderá ter a própria pasta de economia. Eventualmente, eu diria outras pastas ligadas aos fundos de coesão, etc, também seria uma boa pasta e muito importante para Portugal. Mas, por exemplo, também surge a possibilidade de ela ter o cargo que foi ocupado por Carlos Moedas da Ciência e Tecnologia. É um cargo que eu acho que é muito importante, tem muito a ver até com as questões em que eu trabalho, mas objetivamente não é da mesma importância dessas pastas econômicas mais centrais. E, portanto, eu acho que aí vamos ver se ela realmente terá uma pasta que corresponderia naturalmente a ter um bom currículo e, portanto, se ocupará uma destas pastas econômicas mais relevantes ou se ficará por uma pasta um pouco mais de segunda linha.

Bruno, vamos fechar o Cinco Continentes, este renovado Cinco Continentes, e temos aqui outra novidade. A fechar o programa, e sempre que se justificar, vais dar uma recomendação para os nossos ouvintes, um livro, um filme, uma série. Esta semana é um livro, não é? O que vamos folhear, Bruno?

Olha, vou recomendar um livro e não é sequer um ensaio ou uma obra mais ligada, pelo menos de forma evidente, à geopolítica. É uma espécie de pequena memória, testemunho do Salman Rushdie, "Knife", Faca, que eu li durante as férias. No fundo, é o testemunho do seu ataque por um extremista, que o tocou com uma faca, que acabou por levar ele a perder a visão de um dos seus olhos.

A visão de um dos olhos.

A visão de um dos seus olhos e a ter ferimentos terríveis. Esteve muitas semanas entre a vida e a morte. E portanto, é realmente um testemunho impressionante por causa disso. Tem a ver com os nossos temas nesse sentido, que é uma mensagem muito poderosa contra os perigos do extremismo, contra o que é viver uma vida décadas altamente condicionada simplesmente por ter escrito um livro, um romance, que se pode gostar ou não gostar, ser mais ou menos bem escrito, mas obviamente é algo que nós na Europa nos habituamos a ver como natural, como parte dos nossos direitos fundamentais e realmente continua a ser assim, pelo menos em termos legais, constitucionais, formais, mas na prática é preciso cada vez mais coragem, realmente, para se exprimir livremente. O que é muito impressionante no livro é que Rushdie continua a ter essa coragem, continua a acreditar muito também nos poderes transformadores da escrita. E para quem teve problemas de saúde sérios, como foi também o meu caso, também teve passagens prolongadas por hospitais, realmente também tem esse lado interessante e engraçado, um certo humor negro, do que é que é um pouco passar por essas experiências de muitas semanas em hospitais. Portanto, foi um livro que eu gostei bastante e recomendo vivamente.

E a capa da edição inglesa tem uma ilustração muito boa. Convido os ouvintes a irem procurar "Knife: Meditations After an Attempted Murder" de Salman Rushdie. Bruno Cardoso Reis, chegamos ao fim do Cinco Continentes. Muito obrigado, foi um ótimo regresso. Para a semana estamos de volta e agora já sabe, com uma hora de Cinco Continentes, pode e deve dirigir perguntas e dúvidas para o Bruno Cardoso Reis através do e-mail ouvinte@oobservador.pt. Bruno, obrigado, bom fim de semana e até ao próximo sábado. Obrigado.

Até para a semana.