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"Ideias Feitas", na Rádio Observador, com Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.
Olá, Ricardo, obrigado.
E hoje queres falar de uma despedida, não a de Cristiano Ronaldo, mas a de Francisco.
A de Cristiano Ronaldo acho que já não é preciso falar. Deve ter para aí 50 mil comentadores a autopsiar e esmiuçar o caso. Portanto, a de Francisco, o senhor Francisco Rodrigues dos Santos, vulgo Chicão. Soube-se ontem ou anteontem que o senhor Chicão anunciou a sua saída do CDS. Deixou de ser militante do CDS e nos dias que correm, acho que já é difícil uma pessoa lembrar-se de que o CDS ainda existe, mas ainda é mais difícil lembrarmos que o senhor Chicão alguma vez existiu. Eu fiz uma pesquisa rápida no meu arquivo do computador, no arquivo de crónicas que escrevi nos últimos 10 anos, e apareceu-me um resultado: uma crónica em que eu mencionava o senhor Chicão, e mencionava de passagem. O arquivo não inclui as emissões de "Ideias Feitas", mas sinceramente não me lembro de alguma vez ter falado no sujeito. É possível, mas não é provável. Tenho, portanto, uma ideia muito vaga de quem o senhor Chicão é e no máximo dá-me a impressão de que foi alguém que passou pela liderança do CDS e na altura mostrava-se com um programa, uma atitude e um pensamento, vamos dizer isto, talvez conservador, um conservadorismo que ele tentava, acho que em vão, conciliar com aquele desejo primordial de certa direita portuguesa, o desejo de ser amada pela esquerda. Na altura, a estratégia não foi exatamente um sucesso e o senhor Chicão conseguiu não ser sequer eleito e conseguiu acabar com a representação parlamentar do partido. E tudo indicava que o país nunca mais ouviria falar do senhor Chicão, isto admitindo que o país alguma vez reparou nele. Mas não foi assim. Um dia, não sei em que dia, não sei em que altura, mas aqui há uns tempos, se calhar favorecido por uma velha amizade que pelos vistos ele mantém com aquele potente intelectual que é o filho do doutor Costa, o senhor Chicão juntou-se aos 7300 comentadores televisivos que repetem a cartilha que lhes enviam por WhatsApp e desatou a repetir a cartilha num canal televisivo qualquer. Como não tenho, pelo menos desse tipo, de perversões, nunca me ocorreu ouvir o que o senhor Chicão diz no seu espaço de comentário, mas de certeza absoluta que deixou de dizer o que dizia. Ou seja, acho que ele criticava o aborto, a dependência de subsídios, o excesso de imigração, os abusos das políticas identitárias, e passou a dizer o que quase todos os outros dizem. E como diz o que quase todos os outros dizem, o senhor Chicão alcançou enfim o direito à respeitabilidade social e conseguiu um emprego no comentariado nacional. É um emprego que dá jeito, sobretudo depois de ele ter ficado fora do Parlamento. E em cima disto tudo, após esta cambalhota que o levou do conservadorismo, do tradicionalismo nacionalista, ou o que queiramos chamar, para a esquerda, o senhor Chicão tem o espetacular descaramento de garantir que ele não mudou, os outros é que mudaram. Foi assim que ele explicou a sua saída do CDS. O senhor Chicão é o proverbial indivíduo que conduz na autoestrada enquanto critica todos os condutores que vêm na contramão. Do alto da sua profunda e inconveniente incoerência, o senhor Chicão é o exato oposto de outro Chico: o doutor Louçã, que uma destas noites, com o televisor ligado em casa de amigos, eles tinham a televisão ligada, hábito que eu não costumo ter, e verifiquei não apenas que o doutor Louçã ainda é vivo e continua a ser chamado às televisões para comentar a atualidade, como para cúmulo mantém a mesma visão das coisas que já exibia desde o infantário. Eu não prestei grande atenção aos desabafos do doutor Louçã, e também não seria necessário. Os desabafos são sempre os mesmos, mas notei com agrado a sua postura, e essa postura não mudou absolutamente nada. Ele fala com aquela excitação zangada de quem está constantemente à beira de uma apoplexia e a apoplexia nunca chega a acontecer. Felizmente, repito. Apesar de só proferir disparates, o doutor Louçã, o Chico Louçã, como alguns lhe chamam, profere os disparates que toda a vida proferiu. Ou seja, há aqui uma demonstração de coerência que é digna de relativa admiração. Já o senhor Chicão demorou a aprender os disparates e a perceber que os disparates, mais ou menos idênticos aos do doutor Louçã, são indispensáveis a uma carreira no interessantíssimo universo da análise política em Portugal. E quem diz análise política, diz a política propriamente dita e por isso não tarda o senhor Chicão será uma personalidade de relevo no PS e só não o veremos no Bloco de Esquerda, porque o Bloco de Esquerda hoje está reduzido a meia dúzia de campistas, que imagino que a esta hora o senhor Chicão já esteja a defender com empenho. Imagino que se já não defende a revolução, deve estar a meia dúzia de dias de o fazer. E portanto, apesar de um passado duvidoso e um bocado hesitante, o senhor Chicão tem então um enorme futuro à sua frente e nós teremos imenso tempo para continuar a não lhe ligar nenhuma. Eu pelo menos é o que tenciono fazer.
Eu fui aqui pesquisar os teus episódios do "Ideias Feitas" para saber se havia algum dedicado ao Chicão, e há. O "Chicão Não Pinta a Cara de Vergonha", de 11 de fevereiro deste ano, em que dedicaste a crónica desse dia à opinião de Francisco Rodrigues dos Santos sobre André Ventura. Dia 11 de fevereiro.
Portanto, tenho um "Ideias Feitas" sobre Chicão e uma crónica escrita sobre Chicão. Não é exatamente uma opção minha.
Até amanhã, Alberto.
Até amanhã, Ricardo. Obrigado.