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Vamos pegar nas malas, porque está na hora de viajar pelos cinco continentes na Rádio Observador. É aqui que todas as semanas fazemos a análise da geopolítica internacional, sempre com o historiador Bruno Cardoso Reis. Bem-vindo, Bruno. Bom dia.

Bem-vindo, Bruno. Como estás?

Olá, bom dia.

Bom dia. Bruno, hoje começamos com a guerra na Ucrânia. Esta semana esteve em especial destaque o ataque russo à cidade de Odessa. Um ataque que coincidiu com a visita do primeiro-ministro da Grécia e que esteve perto de correr muito mal. Houve mísseis a cair a cerca de 200 metros do governante e também de Volodymyr Zelensky. Bruno, pergunto-te: achas que foi propositado? Ou também pergunto como está a correr esta dimensão aérea da guerra?

Parece-me evidente que o ataque a Odessa foi deliberado e realmente faz sentido no contexto atual da guerra, em que inclusive a Ucrânia está com uma certa vantagem nesta guerra mais aeronaval, em particular na luta pelo controlo do Mar Negro e pelo desencravamento estratégico da Ucrânia, que já falamos aqui várias vezes, ou seja, garantir que a Ucrânia consegue realmente ter acesso ao mar, ter portos que funcionam, isso é fundamental para a autonomia estratégica de qualquer país. Não vejo que fizesse qualquer sentido a Rússia não só eliminar Zelensky, isso se calhar até podia fazer algum sentido, mas de caminho matar também o primeiro-ministro de um país membro da União Europeia e da NATO, que era a Grécia. Não me parece que faça sentido realmente pensar que houvesse um ataque deliberado com esse alvo, embora seja verdade que a Rússia muitas vezes faz ataques em cidades onde sabe que estão visitantes estrangeiros. Isso aconteceu, por exemplo, logo no início da guerra com António Guterres. É possível que aqui o ataque tenha acontecido demasiado perto desses visitantes e que poderia ter realmente corrido bastante mal. Em todo caso, o que me parece bastante seguro é que há aqui uma contradição fundamental na narrativa e na propaganda russa a este respeito, e com ecos cá também, que é esta ideia de que sempre que há um ataque que vitima ucranianos civis, como foi o caso com este ataque, isso é o resultado das defesas antiaéreas ucranianas, não é um ataque deliberado russo e essas coisas acontecem nas guerras. E tudo isso é verdade, embora me pareça também absolutamente impossível que sejam sempre as defesas antiaéreas ucranianas a ter algum problema. O que depois não faz sentido é virem dizer que não foi um ataque deliberado, mas se a Rússia quisesse atingir estes alvos, se quisesse atingir Zelensky e o primeiro-ministro grego, tinha atingido.

Ou seja, a Rússia sai sempre a ganhar, no fundo, nas duas.

Contraditório com todo esse discurso. Aparentemente, a eficácia das forças russas já era de 100%, e quando eles querem atingir uma coisa, atingem, e se atingem uma coisa é porque querem atingir. Claramente esse discurso não bate certo com essa propaganda. A mim parece-me bastante evidente que esta guerra mostrou que as Forças Armadas russas estão longe de ter 100% de eficácia, que aliás, é uma coisa que não existe na guerra em nenhuma das forças armadas, mesmo nas mais eficazes. E neste caso, estamos muito longe disso. As Forças Armadas russas revelaram aqui enormes deficiências. E terminava dizendo, em todo caso, o que também parece claro é que apesar de a Ucrânia ter conseguido alguns resultados interessantes nesta guerra mais aérea e naval, nomeadamente tem estado a abater muitos aviões de combate russos, provavelmente porque eles estão a arriscar mais também nesta fase mais ofensiva da guerra por parte da Rússia. Mas a verdade é que isso não quer dizer que se consiga defender melhor. A guerra aérea tem duas dimensões, uma ofensiva e uma defensiva. Parece-me que dos dois lados, a dimensão ofensiva está a ser mais eficaz e a dimensão defensiva menos. O facto de a Ucrânia estar a conseguir aqui, como eu digo, resultados interessantes, não quer dizer que na dimensão defesa das suas cidades e das suas populações, não esteja a ter mais problemas. Já tivemos dados que apontavam para mais de 80% de capacidade de interceção dos ataques russos. Temos dados agora que apontam para números como 50 ou 60%. Isso provavelmente é um reflexo de alterações nas táticas russas para terem mais eficácia, mas também certamente é um reflexo na redução de fornecimento de material, nomeadamente munições pelos países ocidentais e, em particular, pelos Estados Unidos.

Bruno, e depois da invasão da Ucrânia, a Suécia decidiu pôr de lado finalmente a neutralidade histórica. O processo de adesão foi concluído esta semana em Washington. Pergunto qualé que é também a importância desta adesão da Suécia?

Em primeiro lugar, vem nos lembrar a centralidade dos Estados Unidos em tudo isto. Não é por acaso que foi nos Estados Unidos, em Washington, que foi assinado o tratado fundador em abril de 1949, e também simbolicamente, mas significativamente, é em Washington, é na capital americana, que são depositados os instrumentos de ratificação e é aí que realmente termina o processo de adesão. É por isso que o primeiro-ministro sueco foi aos Estados Unidos entregar os papéis para realmente passar a ser membro de pleno direito da NATO. A NATO realmente foi o sinal de que os Estados Unidos tinham mudado de forma muito significativa a sua cultura estratégica e iam realmente aceitar ser, de forma duradoura, a garantia da ordem liberal na Europa Ocidental. Esperemos que isso continue a ser assim. Como sabemos, vamos ter eleições em novembro e um dos candidatos com grandes possibilidades, o Donald Trump, não parece propriamente comprometido com essa tradição de muitas décadas. Em segundo lugar, vem nos lembrar também que a centralidade dos Estados Unidos não é omnipotência. Ou seja, é verdade que nada decisivo se faz na NATO sem o acordo dos Estados Unidos, inclusive a adesão da Suécia, mas não é uma simples formalidade os outros Estados membros, atualmente 32 com a Suécia, realmente terem um voto e terem um veto. Portanto, isto é uma aliança voluntária de Estados livres e soberanos, não é uma coligação forçada de Estados satélites, de Estados vassalos, que é aquilo que a Rússia geralmente faz, fez com o Pacto de Varsóvia em resposta à NATO, e depois da queda da União Soviética voltou a tentar refazer com a chamada Organização do Tratado de Segurança Coletivo. Isso ficou claro com, por exemplo, a Turquia a demorar muito a adesão da Suécia em troca de uma série de concessões por parte da Suécia em relação à questão dos receios do terrorismo curdo e também por parte dos Estados Unidos, por exemplo, em relação ao fornecimento de F-16. Por último, em terceiro lugar, esta opção realmente representa uma revolução estratégica no Mar Báltico. Ou seja, é uma enorme derrota para a Rússia naquilo que é um objetivo do país desde pelo menos o século XVI e XVII. A Suécia foi durante vários séculos o grande rival da Rússia, combateu com ela várias guerras. Aliás, a última guerra em que a Suécia se envolveu, antes de decidir por esta neutralidade histórica, precisamente há 200 anos, foi precisamente com a Rússia e dela resultou a perda da Finlândia. A neutralização da Suécia nessa altura e desde aí foi uma grande vitória da Rússia. Realmente desde os grandes czares, como Pedro, o Grande, procura aumentar o seu peso no Báltico, reduzir o número de inimigos que tem no Báltico, aumentar o número de Estados neutros ou aliados da Rússia. Ora, atualmente, e com a adesão da Suécia, que é um país absolutamente central na geoestratégia do Báltico, basta olhar pro mapa, a Rússia é o único país que não é membro da NATO no Mar Báltico. Portanto, todos os outros países ribeirinhos do Mar Báltico são países membros da NATO. Depois de uma invasão em que uma das grandes justificações estratégicas para a invasão da Ucrânia era supostamente travar a adesão da NATO, o alargamento da NATO, o alargamento da NATO dá-se exatamente numa das zonas piores possíveis para os interesses estratégicos da Rússia.

Já no Médio Oriente, em Gaza, as negociações do cessar-fogo estão num impasse. Bruno, achas que ainda é realista haver um cessar-fogo até o Ramadão? E pergunto também se será que o porto humanitário anunciado por Joe Biden faz sentido e fará sequer alguma diferença?

Muito rapidamente direi que não. O Ramadão começa segunda-feira, penso eu. Eu sempre me mostrei muito cético sobre estas novas fases de negociação e de acordo. O Hamas parece-me que está convencido que o tempo a favorece, porque pode usar a tragédia humanitária crescente da população civil de Gaza, em relação à qual esta liderança do Hamas claramente é indiferente, como uma espécie de arma de arremesso para aumentar a pressão sobre Israel, por parte, em particular, dos países ocidentais, dos Estados Unidos, dos países europeus, e isso realmente está a acontecer. Por outro lado, o chefe do governo de Israel, Benjamin Netanyahu, também não é propriamente alguém muito sensível ao sofrimento da população palestiniana e também considera que não tem margem política para fazer algumas das cedências que o Hamas está a exigir e que no fundo praticamente significavam reconhecer o fim da guerra e que o Hamas continuará a ser a entidade que controla Gaza. Esperemos que a pressão internacional crescente dos países ocidentais, nomeadamente sobre Israel, dos países árabes moderados sobre o Hamas, produza aqui algum efeito para bem da população de Gaza. Enquanto isso não acontecer, eu acho que se tem que tentar continuar a encontrar mecanismos para reforçar essa ajuda. Enfim, não serão os ideais, mas acho que seja pela via aérea, seja pela via marítima, com os problemas e as limitações que têm, tudo o que seja mais ajuda é muito importante. Também há, aparentemente, a boa notícia de que haverá mais ajuda por via terrestre a partir do norte, uma vez que até aqui toda a entrada de ajuda era a partir do sul, e isso também foi uma das razões que explicou aquela tragédia recente no norte de Gaza, na distribuição de ajuda.

E Bruno, olhando ainda para uma das notícias da semana, pela primeira vez um ataque dos Houthis fez vítimas mortais no Mar Vermelho. Achas que é a altura dos Estados Unidos e dos aliados terem uma mão mais pesada nesta zona e também com este grupo?

Acho que sim, mas sobretudo acho que era fundamental que o resto da comunidade internacional tivesse aqui uma posição muito mais assertiva, começando pelas próprias Nações Unidas e também pelos países da região, que muitas vezes nós em privado percebemos que são muito críticos do que está a acontecer, percebem que isto é inaceitável e é contrário aos seus interesses, a começar pela Arábia Saudita, por exemplo, mas publicamente não dizem nada porque têm receio do impacto disso em termos da sua imagem. Portanto, os Houthis têm sido extremamente hábeis em manipular a situação em Gaza para se afirmar como líderes nesta região, para condicionarem a navegação numa zona absolutamente vital. Como eu fui avisando e como se concretizou, isto era uma questão de tempo até estes ataques acabarem por ter vítimas mortais. Ora, eu acho que é absolutamente inaceitável que, por exemplo, as Nações Unidas ou o resto da comunidade internacional critique ataques a civis em Gaza, mas depois não critique ataques a navios civis e a marinheiros civis no Mar Vermelho, porque isso é feito em nome da defesa de Gaza. Portanto, acho que isso é absolutamente inaceitável, é uma violação flagrante das leis da guerra e o resultado está à vista, ainda com este dado, que é atualmente a maior parte das marinhas mercantes vivem de marinheiros dos países pobres do sul global e, portanto, as vítimas não são propriamente israelitas, que são supostamente o alvo dos Houthis, mas são marinheiros filipinos e vietnamitas, neste caso Três, com mais alguns em estado grave. Portanto, como eu temi, a situação só poderia continuar a agravar-se. Espero que sim, que haja uma resposta militar mais dura da parte dos Estados Unidos, mas sobretudo acho que faz falta que o resto do mundo também reaja. Já agora, o navio que foi atingido transportava aço da China, não para Israel, mas para a Arábia Saudita, ou seja, não tinha absolutamente nada a ver com o conflito em Gaza.

E Bruno, vamos agora falar de dois continentes ao mesmo tempo, América e África. O Haiti numa situação cada vez mais caótica. O presidente Ariel Henry foi ao Quênia garantir apoio no combate aos gangues e depois foi impedido de voltar.

Sim, no fundo ele é o presidente em exercício, é o primeiro-ministro. O Haiti é um país de 11 milhões de pessoas, portanto é dos mais populosos do Caribe, é também o mais pobre de todas as Américas. Já estava a caminhar mais ou menos lentamente pro caos, pra anarquia, desde o fim da ditadura militar, que já teve 19 chefes de governo, chefes do Executivo. Agora, aparentemente, esse caminho acelerou-se bastante. Ou seja, temos um Estado em que se estimava que na capital os gangues violentos, os gangues armados controlavam talvez 80% da capital, agora parece ser mais 100%, inclusive o próprio aeroporto, impedindo o regresso do primeiro-ministro que tinha ido ao Quênia também, algo que já tínhamos falado aqui, para assinar um acordo para garantir a legalidade do envio de 1000 polícias do Quênia, como parte de uma missão das Nações Unidas para aumentar a estabilidade, no fundo, combater estes gangues violentos no Haiti. Os gangues reagiram a isso, fizeram uma espécie de golpe de Estado e exigem a demissão do primeiro-ministro, que diga-se, é bastante impopular. Ele realmente exerce, na prática, o controle do Estado, daquilo que ainda resta do Estado no Haiti, desde julho de 2021, altura em que o presidente eleito foi assassinado no Palácio Presidencial por criminosos. Não se sabe exatamente quem foram os mandantes, mas certamente mostra até que ponto vai este nível de violência criminosa organizada no Haiti. O lado irônico da questão e que nos deve chamar a atenção pra importância desta dimensão, aliás, já falamos disso a respeito de vários países, é que o Haiti, em termos das estatísticas oficiais, e se calhar o problema está na falta de reporte, mas nas estatísticas oficiais, o Haiti nem sequer é o país mais violento desta região da América Central, do Caribe, da América do Sul. É apenas o sétimo país mais violento em termos de homicídios por 100 mil habitantes, é ultrapassado por vários países, inclusive a Jamaica, inclusive, por exemplo, o Equador, que também já falamos aqui. Agora, o problema é que realmente no Haiti, neste momento, parece que estamos perante o completo colapso do Estado e a comunidade internacional tem grande renitência realmente em agir com a robustez que seria necessária e a explicação pra isso também é fácil de perceber. Houve várias missões ao longo das décadas das Nações Unidas no país. A última foi desde 2004 a 2017. O Brasil teve aí um papel importante. Isso estabilizou alguma coisa o país na altura. Foi alvo também, depois, de muitas críticas, inclusive completamente esfarrapadas, de que a missão tinha levado a uma epidemia de cólera, o que mesmo que fosse verdade, obviamente não era uma coisa deliberada. Mas a verdade é que essa missão saiu e desde aí a situação só tem piorado. Portanto, vamos ver o que é que ainda será possível fazer. Imagino que se começar a haver uma vaga de refugiados ainda maior do que já acontece, provavelmente os países da região, inclusive os próprios Estados Unidos, vão ser forçados a fazer mais alguma coisa.

Bruno, temos de avançar e acelerar. Vamos aos Estados Unidos da América, uma semana também muito mexida. Tivemos o discurso do Estado da União, de Joe Biden, mas também tivemos a Super Terça nas primárias, sempre um momento marcante em cada eleição. Em ambos os casos, tivemos aqui mensagens, também vitórias esperadas. Não podemos dizer que houve propriamente surpresas nestes dois momentos, não?

Sim, nada de muito inesperado, ou seja, na Super Terça-feira confirmou-se que realmente teremos em novembro uma eleição novamente enfrentando Joe Biden e Donald Trump, mas também confirmamos que os dois têm níveis elevados de rejeição. Donald Trump venceu a sua única concorrente, Nikki Haley, mas Nikki Haley até ganhou num dos estados, o Vermont, e atingiu percentagens muito significativas de apoio nesta altura, ou seja, entre 25 e 40% de eleitores nas primárias republicanas votaram por outro candidato que não Donald Trump. Por outro lado, Biden também continua a ser bastante impopular. Nas sondagens aparece uma taxa de rejeição de 56%. E portanto, eu acho que no fundamental, em novembro, vamos perceber qual deles é quem realmente mais impopular, qual é que tem mais rejeição por parte dos eleitores norte-americanos. Perante isto, Biden precisava realmente de fazer uma certa prova de vida política, porque uma das razões da sua impopularidade é a sua idade muito avançada, 81 anos, e eu acho que ele conseguiu realmente fazer isso, ou seja, foi um discurso bastante bem escrito, e isso não é de espantar, porque obviamente há uma grande tradição de retórica política nos Estados Unidos e grandes equipas de redatores que ajudam o presidente a fazer um discurso muito bem feito. Mas independentemente disso, em termos da forma como ele fez o discurso, acho que mostrou grande vitalidade, grande convicção, uniu muito bem estes temas da defesa da democracia no mundo, por exemplo, na Ucrânia e também nos Estados Unidos, face ao movimento liderado por Donald Trump. E portanto, acho que fez aquilo que precisava de fazer nesta altura. Vamos ver se é suficiente para alterar as sondagens e sobretudo para as eleições que serão só em novembro.

Bruno, mais uma vez vamos acelerar, pôr aqui a mudança para irmos mais rápido, porque já estamos mesmo a chegar ao fim do nosso programa. Vamos rapidamente até à Ásia e uma China que está cada vez menos transparente. Agora deixa de haver a habitual conferência de imprensa do primeiro-ministro chinês no final da reunião anual do Parlamento, numa altura que fica também marcada pelas declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, que voltou a deixar críticas aos Estados Unidos, Bruno.

Sim, o que podemos retirar daqui é que a China realmente é, sempre foi, mas é cada vez mais um partido de Estado, ou seja, é o Estado que está subordinado ao partido. Quem realmente manda e decide é cada vez mais claramente o Partido Comunista e o seu líder Xi Jinping. As decisões-chave não são tomadas realmente no Parlamento, nem sequer no governo, são em comitês, em comissões do Partido Comunista. Realmente temos este paradoxo como resultado disso, que é o maior Parlamento do mundo, ou seja, quase 3000 deputados, diríamos nós, mas é o Parlamento com mais membros e com menos poder efetivo, provavelmente só reúne durante pouco mais de uma semana, uma vez por ano e portanto é basicamente um ritual político de legitimação de decisões tomadas noutro lado. Apesar de tudo, o primeiro-ministro, o chefe do governo, que obviamente está subordinado ao presidente Xi, que é muito visto como tendo a tarefa, sobretudo, de liderar a economia, apresentava aqui um relatório anual, uma espécie de estado da nação, e depois fazia também uma conferência de imprensa um pouco mais aberta do que era costume, inclusive com a presença da imprensa internacional, para explicar sobretudo as questões da economia. Isso agora terminou, portanto acabou-se com essa tradição. É mais um sinal da crescente opacidade chinesa, também provavelmente que não há grandes notícias a dar, pelo menos não boas notícias a dar, na dimensão da economia. Isso faz também com que o Ministro dos Negócios Estrangeiros e responsável dos Negócios Estrangeiros no partido, Yang Jiechi, seja cada vez mais a voz de Xi Jinping para o exterior e realmente vai fazer algumas críticas, nomeadamente à política económica protecionista dos Estados Unidos. Mas neste contexto, eu diria que aqui o ponto fundamental a sublinhar é este crescente fechamento da China perante notícias económicas cada vez piores.

Bruno, muito rapidamente mesmo, o vídeo-árbitro dá um minuto de compensação. Terminamos com a 13ª reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio. Houve um acordo, mas não quanto ao essencial. O que ficou a faltar neste acordo, na tua opinião?

A Organização Mundial de Comércio vai fazer agora 30 anos, representou um passo adicional na globalização, na abertura do comércio mundial, mas está realmente em dificuldades crescentes. Foi renovado um acordo para o comércio eletrónico, que tem realmente importância, mas apenas por dois anos, portanto aqui a dois anos terá de se ver se se mantém ou não. Mas não houve, por exemplo, qualquer avanço quanto ao bloqueio no mecanismo arbitral, uma espécie de tribunal arbitral, para resolver diferendos e no fundo violações das regras do comércio livre. Aí o bloqueio é sobretudo um resultado de uma opção dos Estados Unidos, que foi iniciada por Trump, mas que se mantém com Joe Biden, que tem realmente também uma política económica muito mais protecionista e nacionalista do que era o caso, da parte de um país que foi o grande impulsionador da criação da Organização Mundial do Comércio nos anos 90, antes disso a sua antecessora do GATT, logo a seguir à Segunda Guerra Mundial, e portanto, hoje em dia, essa potência que foi a grande defensora do comércio livre, é uma das que se virou cada vez mais para o protecionismo e eu acho que isto é um sinal revelador de uma desglobalização parcial. Não é total, lá está, por exemplo, no comércio eletrónico continua a haver aqui alguma abertura, mas realmente há muito mais restrições, há uma tendência crescente para restrições no comércio internacional e isso é, por exemplo, uma das explicações para os problemas de inflação, de maior inflação que temos tido nos últimos anos.

Muito bem, Bruno, obrigada por mais um "Cinco Continentes". Nós regressamos na próxima semana. Até lá.

Até para a semana.

Obrigado.