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Cinco Continentes na Rádio Observador, todas as semanas viajamos pelo mundo para analisar a geopolítica internacional, sempre com a ajuda do historiador Bruno Cardoso Reis. Bom dia, Bruno, bem-vindo.

Olá, bom dia, obrigado.

Já sabe que agora o Cinco Continentes tem duas partes num programa de uma hora. Bruno, na segunda parte vamos fazer um balanço à Assembleia Geral da ONU, mas nesta primeira parte, como é habitual, vamos às guerras e à Europa. Começamos com a guerra no Médio Oriente, Bruno, e muitas vezes falámos em Gaza. Ora, agora o foco está no Líbano, com a iminência de um ataque terrestre de Israel ao país. Tivemos agora também informação de que o líder do Hezbollah terá morrido nos ataques de Israel. Pergunto-te que impacto é que esta morte pode ter e também qual o histórico das relações entre Israel e o Líbano.

Realmente é um pouco um paradoxo, porque o Líbano e Israel começaram por ser, a seguir à Segunda Guerra Mundial, quando ambos se tornam independentes, os dois únicos Estados no Médio Oriente que não têm uma população maioritariamente muçulmana. Ou seja, o Líbano é basicamente criado até como um refúgio, digamos assim, sob proteção francesa, de grupos cristãos, maronitas, sejam da linha ortodoxa, seja até da linha católica, e também de uma série de grupos, vamos pôr assim entre aspas, "heréticos" do Islão, por exemplo, os drusos e depois também os próprios xiitas. De facto, o Líbano e Israel começam por ter uma série de décadas, basicamente até o final dos anos 60, início dos anos 70, várias décadas em que têm relações relativamente boas, pelo menos bastante melhores com os outros estados árabes. É talvez a fronteira mais estável e com menos problemas de Israel. Muito como resultado disso, o Líbano teve uma participação muito limitada na guerra contra a independência de Israel em 1948, em que os estados árabes tentam eliminar Israel logo à nascença, e depois disso nas seguintes. Isso começa realmente a mudar quando a OLP começa a ter uma presença cada vez maior no Líbano, a partir de final da sua própria fundação e da sua crescente atividade também com ataques contra Israel, a partir do final dos anos 70 e sobretudo a partir de 1971, quando é expulsa da Jordânia, onde tenta tomar o poder contra o rei Hussein, o pai do atual rei da Jordânia, e realmente passa para o Líbano. Isso vai criar uma dinâmica de desestabilização que é crucial depois na própria Guerra Civil Libanesa, a partir de 1975. E Israel vai realmente começar a envolver-se cada vez mais e sobretudo em 1982, faz uma invasão em grande escala, tenta ocupar até a capital libanesa também para forçar a expulsão dos palestinianos. Desde aí, sucedem-se uma série de décadas de guerras, de envolvimento de Israel no Líbano, sobretudo no sul do Líbano, onde Israel se mantém até 2000, portanto, até ao final do século XX, e onde voltou depois em 2006. Realmente nessas guerras é que o Hezbollah vai emergir, a partir do início dos anos 80, como o grande movimento de resistência mais eficaz contra Israel, e é aí também que vai emergir esta figura de Nasrallah. Ele é o número dois do movimento, do Hezbollah, do Partido de Deus, é isso que quer dizer Hezbollah, criado muito com o apoio do Irão, do novo Irão revolucionário da República Islâmica, criado em 1979, e depois assume a chefia do movimento em 92, quando o líder anterior é morto também por Israel. Realmente, o Hezbollah não é um movimento como os outros na relação com o Irão, ou seja, não é como a Hamas ou como os Houthis. É um movimento especialmente próximo, especialmente importante, especialmente próximo até em termos religiosos. Hassan Nasrallah não é, por exemplo, um líder secular como era Ismail Haniyeh, o líder do Hamas, que aliás é um movimento sunita. É um clérigo xiita, é alguém que tem uma relação até religiosa com o próprio guia supremo do Irão. Portanto, numa república de aiatolás que é o Irão, no fundo, Nasrallah é muito um deles. E portanto, isso, do meu ponto de vista, torna realmente muito mais provável uma escalada bastante perigosa. Israel realmente mostrou aqui ter um nível de informações muito superior em relação ao Hezbollah do que tinha em relação, por exemplo, ao Hamas. Fez uma operação de decapitação sem precedentes. Muitas vezes Israel tem assassinado líderes destes movimentos do Hamas, do Hezbollah, mas neste caso, basicamente, foram assassinados ou estão gravemente feridos todos os principais dirigentes do Hezbollah. Portanto, é um nível de decapitação sem precedentes. Isso provavelmente torna mais difícil a sucessão e também uma direção estratégica clara. Isso, do meu ponto de vista, também significa que o papel do Irão será aqui especialmente importante. Eu resisto muito a esta ideia, esta visão muito simplista da política internacional, que é, no fundo, há umas potências que mandam em tudo e depois o resto é tudo marionetas. E, portanto, não acho que o Hezbollah seja simplesmente um instrumento do Irão, mas é realmente muito mais próximo do que a maior parte dos outros movimentos que estão aliados ao Irão na região. E neste momento, eu diria que está numa situação de grande fragilidade por causa desta decapitação da sua liderança e, portanto, como eu dizia, acho que aqui realmente a decisão do Irão será crucial. O Irão realmente não tem boas opções, porque claramente Israel tem informações muito boas sobre o Hezbollah, tem um nível de penetração no movimento muito superior ao Hamas, portanto pode realmente, provavelmente causar muitos estragos ao movimento se houver aqui uma decisão de escalada, de uma guerra em grande escala entre o Hezbollah, o Irão e Israel. Provavelmente também tem informações e uma penetração grande no próprio Irão. Eu recordo que o líder do Hamas foi assassinado em plena capital iraniana. Não é por acaso que estão a aparecer notícias de que o guia supremo O Ayatollah Khamenei está refugiado em parte incerta.

Sim, está num local seguro, é a única coisa que sabemos.

Exatamente, mas mostra bem que há um receio real de que ele poderia ser um alvo e que Israel até poderia ter alguma ideia de onde ele estaria. Por outro lado, se o Irão não responder, também é uma enorme perda de face, é uma demonstração enorme de impotência, de incapacidade de proteger estes movimentos, que no fundo são seus aliados, de reagir em relação a Israel, de concretizar estas ameaças que faz sistematicamente de uma retaliação sem precedentes e, portanto, realmente é difícil ver que o Irão deixe de reagir, ou seja, que haja aqui realmente uma escalada, mas há realmente um risco de que aparentemente Israel consiga ter aqui um nível de informações e de eficácia, que, por exemplo, não conseguiu ter com o Hamas. Mas portanto, isto realmente torna muito mais provável uma escalada perigosa e uma intensificação do conflito no Médio Oriente e o alargamento também do conflito em termos regionais.

Bruno, vamos agora à guerra da Ucrânia. Volodymyr Zelensky foi finalmente aos Estados Unidos, é uma visita que se aguardava com muita curiosidade, já que Zelensky também elevou a expectativa com o tão falado plano para a vitória. E é verdade que sai daqui com um novo apoio, mais de 7 mil milhões de euros. Podemos dizer que Zelensky sai dos Estados Unidos da América com aquilo que queria à partida para a viagem?

Eu acho que não podemos dizer isso, embora provavelmente também os objetivos declarados correspondem muito a este esforço da Ucrânia para procurar apoios, sendo que os dirigentes ucranianos sabiam que era pouco realista. No fundo, condições para uma vitória implicava a revisão pela administração Biden das famosas linhas vermelhas, portanto, não só um reforço do apoio, mas sobretudo uma eliminação de algumas destas linhas vermelhas no emprego de armamento mais sofisticado, mais avançado, com mais alcance. Isso não aconteceu. E também não aconteceu uma outra questão que era procurar garantir um apoio consensual, ou seja, bipartisan, como se diz na linguagem política americana, ou seja, dos dois grandes partidos, do Partido Democrático e do Partido Republicano. É verdade que continua a haver senadores e congressistas republicanos que apoiam fortemente a Ucrânia, mas a verdade é que o atual líder do Partido Republicano, Donald Trump, o seu vice-presidente, J.D. Vance, estão muito longe de ser apoiantes da Ucrânia. Muitas vezes parecem até reproduzir a narrativa mais da Rússia do que propriamente da Ucrânia. E desse ponto de vista, realmente a viagem não resolveu esse problema. Eventualmente, até o pode ter agravado um pouco, porque houve setores no Partido Republicano que se irritaram com a visita de Zelensky a uma fábrica de munições na Pensilvânia, já falamos aqui algumas vezes disso ao longo da semana. É uma visita que faria todo sentido, é recordar que muito do apoio militar americano à Ucrânia, muito do dinheiro destes milhares de milhões de dólares são usados para comprar armamento a empresas americanas, portanto, não saem, na verdade, dos Estados Unidos, embora sejam vitais para a Ucrânia, não deixam de ser muito bons para a economia americana, para a indústria americana, que são aparentemente grandes preocupações de Donald Trump. Mas realmente, isso foi uma visita em Scranton, na Pensilvânia, que é um Estado oscilante e, portanto, esses setores reagiram de forma muito crítica. Isto mostra bem como realmente, pelo menos um setor importante e que está a ganhar peso e que tem o candidato presidencial do Partido Republicano, realmente não tem simpatia com a Ucrânia. E portanto, desse ponto de vista, acho que esta visita não alterou esses dados fundamentais, embora não tenha sido completamente inútil, porque trouxe mais ajuda, que vai ajudar um pouco a reforçar as defesas antiaéreas da Ucrânia, mas sempre nesta lógica de manter uma resistência eficaz, uma defesa eficaz, mas longe desta ideia de uma dinâmica de vitória.

Bruno, e mesmo antes da visita de Zelensky aos Estados Unidos, Vladimir Putin anunciou uma revisão da doutrina nuclear da Rússia, agora a incluir ataques aéreos massivos. Bruno, será que está a falar dos ataques de Kiev com drones e mísseis? Qual é o histórico da Rússia como potência nuclear? E também pergunto qual é o significado de tudo isto.

O significado é que isto não é verdadeiramente uma revisão séria da doutrina nuclear. Aliás, até formalmente, a doutrina nuclear não se faz uma revisão com uma declaração do presidente da Rússia. É um documento com outra dignidade. Mas sobretudo e mais substantivamente, isto não é realmente uma revisão séria da doutrina, é mais um episódio desta tentativa da Rússia de fazer chantagem nuclear sobre os países ocidentais. Aparentemente, eles estão convencidos que estão a conseguir ter agora algum efeito, sobretudo em países como a Alemanha. Realmente, a própria União Soviética, a Rússia comunista, quando se torna uma potência nuclear, a partir de 1949, também tenta em várias ocasiões fazer isso, fazer esta chantagem nuclear. Também temos manifestações em vários períodos, por exemplo, nos anos 70 foram muito intensas e nos anos 80 também, com esta ideia "mais vale vermelho do que morto", portanto, evitar a guerra a todo o custo, fazendo todo tipo de cedências à União Soviética. Essas posições nunca tiveram vencimento. Se tivessem tido, por exemplo, e já que estamos a falar da Alemanha, Berlim Ocidental, Berlim Livre, teria sido perdido, teria sido ocupado por tropas soviéticas durante muitas décadas, porque realmente houve em várias ocasiões crises que pareciam ir levar a uma Terceira Guerra Mundial e a União Soviética ameaçava com isso, depois nunca concretizou essas ameaças. Mas realmente a lógica que prevaleceu sempre na doutrina e na prática, mas nem sempre nas declarações da União Soviética, foi a lógica da dissuasão, ou seja, da não utilização de armamento nuclear, até porque há outras potências nucleares também e, portanto, há sempre o risco de que essa utilização levasse realmente a uma Terceira Guerra Mundial nuclear, que seria o suicídio para toda a gente. É verdade que seria terrível para os países ocidentais, mas não seria menos terrível para Para a Rússia ou, neste caso, para a União Soviética. Portanto, aquilo que eu acho que é fundamental sublinhar é que, realmente, em termos do histórico, e já agora recordar este ponto que é importante, a União Soviética chegou a ter mais de 40 mil ogivas nucleares. Atualmente, a Rússia continua a ser o país com mais armas nucleares, mas chegou a ter dezenas de milhares de armas nucleares e mesmo nessa altura, os países ocidentais, os Estados Unidos, as potências nucleares europeias, a Grã-Bretanha, a França, os seus aliados, nunca cederam essa chantagem. Portanto, aqui o ponto que eu acho que é de sublinhar é o que o histórico mostra é não há nenhuma razão racional para esperar que essa escalada aconteça. Ela nunca aconteceu, mesmo em conflitos em que a União Soviética estava a perder o conflito, por exemplo, no Afeganistão, contra atores não estatais que não tinham, obviamente, armas nucleares, como os Estados Unidos também nunca fizeram recurso a armas nucleares no Vietnã ou na Coreia, por exemplo, onde a União Soviética apoiou não só com o armamento, mas até com pilotos e aviões o ataque da Coreia do Norte às tropas norte-americanas. Portanto, isso seria uma escalada absolutamente sem precedentes na história. É algo que é rejeitado, que é criticado até por aliados, países próximos da Rússia, como a China ou a Índia, já foi publicamente sinalizado isso por várias vezes, e seria completamente injustificado, injustificável, mais uma vez, uma violação ainda mais grave da lei internacional, um agravar desta guerra de agressão contra a Ucrânia, que tem sido sempre sistematicamente rejeitada pelas Nações Unidas e pela maioria dos países das Nações Unidas. Em todo o caso, a haver uma escalada, mesmo que nuclear, parece-me que isso seria contra a Ucrânia e, portanto, têm de ser os ucranianos, sobretudo, a gerir esses riscos, até onde é que querem ir. Um ataque nuclear contra as potências ocidentais seria realmente, no fundo, um suicídio coletivo. Acho que isso é completamente irracional. Seria achar que Putin já perdeu completamente a cabeça, vamos dizer assim.

Bruno, vamos fechar esta primeira parte na Europa. Apanhamos voo até a Alemanha, onde houve eleições regionais no Brandemburgo. Ora, vistos os resultados, afinal, a AFD não ganhou. E pergunto se afinal podemos dizer que está tudo bem em Berlim, Bruno?

Bem, Berlim realmente é historicamente até a capital do Brandemburgo, embora, na verdade, na atual organização federal alemã não seja assim. Berlim é uma cidade-estado, como também Bremen e Hamburgo, mas realmente é basicamente a região de Berlim, portanto, a região em torno de Berlim. Aquilo que acabou por acontecer foi que a AFD realmente subiu muito, passou de 23% para quase para 29%, mas ao contrário do que as sondagens previam, o SPD conseguiu subir ainda mais e conseguiu manter a liderança deste estado, portanto passou também de 26 para 30,9%, 31%, se quisermos, dos votos. Isto mostra que, apesar de tudo, a ascensão da AFD não é imparável, não é impossível a outros partidos, inclusive o SPD, que tem tido dificuldades em várias regiões também, ter resultados eleitorais interessantes, recuperar votos. Agora, realmente está longe de significar que está tudo bem. A AFD continua a subir bastante, a quebrar recordes, digamos assim. Mesmo no contexto deste estado, o SPD tem agora um trabalho muito difícil de criar uma coligação viável e provavelmente isso implica negociar com outro movimento populista de esquerda, que atingiu os 13% e passou a ser a terceira maior força. E portanto, realmente o populismo está a crescer na Alemanha. Isto também nos recorda, já agora, é uma nota importante, que a Alemanha continua a ser uma Alemanha federal. Nós, no tempo da Guerra Fria, falávamos da Alemanha federal para distinguir a Alemanha Ocidental da Alemanha comunista, da Alemanha dita democrática. A Alemanha democrática não era nada democrática, mas a Alemanha federal era mesmo federal e continua a ser. Ou seja, realmente isso é importante para perceber, nomeadamente, muitas vezes, alguma fragilidade do governo central de Berlim, que nos parece muito poderoso, porque a Alemanha é realmente central e tem um peso econômico enorme no contexto europeu da União Europeia. Mas em termos da dinâmica política alemã, tem de contar muito com estas dinâmicas estaduais, estados muito poderosos, muito ricos. Portanto, realmente a Alemanha é mesmo um Estado federal e isso significa também que é um parceiro às vezes mais complicado em termos de política internacional, em termos de política europeia, porque tem que contar com estas diferentes sensibilidades e isso complicou-se ainda muito mais com a absorção da dita Alemanha de Leste, com a reunificação alemã em 1991. Não é por acaso, por exemplo, que a AFD é sobretudo um partido desta Alemanha de Leste, que está muito melhor do que estava em 1991, mas que continua a estar bem pior na maior parte das regiões do que a Alemanha mais ocidental, muito mais rica, muito mais próspera, e isso gera aqui frustrações que tornam esta região mais suscetível ao populismo e depois isso cria problemas, lá está, em termos de dinâmicas de criar um consenso nacional para conduzir uma política externa mais eficaz e mais coerente.

Muito bem, Bruno. Ficamos por aqui nesta primeira parte, mas agora relembro, já sabe, temos duas partes de cinco continentes. Já voltamos daqui a pouco aqui a este Cinco Continentes, Bruno, até já.

Até já

Segunda parte do Cinco Continentes na Rádio Observador, agora sempre com uma hora de programa para analisar a geopolítica internacional. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo de volta. Nesta segunda parte vamos, aliás, começamos com a reunião anual plenária da Assembleia Geral da ONU, que ocorreu esta semana em Nova York. Bruno, vamos começar pelos básicos. Afinal, o que é a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas e que parte tem na história da ONU?

Olá a todos novamente. É realmente o mais democrático dos órgãos das Nações Unidas. As Nações Unidas basicamente funcionam no seu núcleo duro do chamado sistema das Nações Unidas, funciona com a Assembleia-Geral, que é uma espécie de parlamento global. Portanto, todos os 193 Estados membros das Nações Unidas têm igual voz e igual voto, mais uns quantos observadores. O Vaticano voluntariamente é um observador sem direito a voto, porque até para votar, mesmo para se abster, teria que tomar posição. A Palestina, pelas circunstâncias que conhecemos, e também a União Europeia. Obviamente, isso não é assim no Conselho de Segurança, que é o órgão mais poderoso, é o único que pode emitir resoluções vinculativas e também o único que pode lidar, como indica o seu nome, com questões de paz e de guerra e que inclusive pode mandatar, autorizar, legitimar uma ação militar, uma ação contra um Estado que esteja em violação dos princípios da carta, etc. O Conselho de Segurança é claramente o mais poderoso, mas como sabemos, aí estão apenas 15 Estados, sendo que cinco membros permanentes não só têm um voto, mas têm o veto. Portanto, podem impedir que essas resoluções sejam aprovadas. É aqui claramente o órgão mais democrático, mais representativo, estão todos os Estados em igualdade de circunstâncias. Depois há outros órgãos, o secretário-geral, por exemplo, que é eleito aliás pela Assembleia-Geral, portanto também tem esse poder, e o seu secretariado, no fundo, a burocracia permanente das Nações Unidas, e depois também o Tribunal Internacional da Haia, cujos juízes também são escolhidos pela Assembleia-Geral em concertação com o Conselho de Segurança. É realmente um órgão bastante democrático e como eu digo, representa todos os Estados-membros. Funciona durante todo o ano com embaixadores, os chamados representantes permanentes, mas depois tem este momento alto em setembro, por tradição, desde a criação das Nações Unidas em 1945, que é a sua reunião plenária e aí, por tradição também, os Estados fazem-se representar por chefes de Estado e de Governo, às vezes por ministros, mas temos mais de 140 chefes de Estado e de Governo de todo o mundo nesta reunião plenária. Isso significa que sobretudo esta reunião em setembro, que marca o início do ano diplomático, não é do ano letivo, é realmente bastante importante. Tem sobretudo duas dimensões, a Assembleia-Geral e soprattutto esta reunião plenária, que é, por um lado, diplomacia pública, se quisermos diplomacia parlamentar, os Estados publicamente dizerem ao que vão, quais são as suas grandes preocupações, as suas grandes prioridades. Portanto, permite fazer aqui uma síntese do que é que são as grandes prioridades para a maioria dos Estados. Evidentemente, podem também aprovar resoluções, que não sendo vinculativas, não deixam de ter um peso político grande, sobretudo se forem aprovadas com grandes maiorias. E depois também é uma ocasião para a diplomacia discreta, paralela, nos corredores, às vezes até nas salas de reunião, em que os Estados se encontram com os Estados que querem, bilateralmente com outros Estados, muitas vezes em grupo. Por exemplo, há uma reunião sempre dos Estados da CPLP em Nova York, no fundo também para coordenar posições dos Estados da União Europeia. Há aqui múltiplas reuniões em múltiplos formatos e isso também é uma dimensão mais discreta, mas não menos importante, inclusive porque muitas vezes permite encontros entre Estados que até nem têm relações diplomáticas normais, por exemplo, os Estados Unidos com o Irão ou com Cuba, etc. É realmente também desse ponto de vista bastante útil, embora tenha esta limitação de base, que é realmente, à partida, as suas decisões, as suas resoluções, têm peso político, ajudam a legitimar ou deslegitimar, mas de facto não têm força vinculativa, não se tornam lei internacional.

Bruno, vamos avançar ainda para aquilo que foi o conteúdo desta Assembleia-Geral. Desde o discurso da Palestina, passando pelo discurso de Benjamin Netanyahu, tivemos aqui vários destaques. Diria que esse destaque também vai muito para o primeiro-ministro de Israel. Foi vaiado, sublinhou que o país está a ganhar a guerra. A minha pergunta é: os destaques andaram todos mais ou menos à volta dos conflitos, quer aqui no Médio Oriente, quer também na Ucrânia e noutras paragens, como já aqui falámos?

Eu diria que muito sim, ou seja, foram claramente os aspetos que tiveram mais eco e também das intervenções que tiveram mais eco, Mahmoud Abbas pela Palestina. A Palestina, como eu digo, pode falar, é um observador, não pode votar, mas pode falar. Do primeiro-ministro de Israel, quem falou-se muito também da questão da Ucrânia. Para minha surpresa positiva, falou-se até mais, por exemplo, do Sudão, desta guerra civil terrível no Sudão, a maior crise humanitária que estamos a viver, até do que tem acontecido no passado, mas falou-se da Birmânia. Houve um grande foco nos conflitos armados, que realmente são o maior desafio, que depois têm imensas implicações em termos de refugiados, de destruição, pobreza, etc. Mas não se falou apenas disso, falou-se de outras questões. Eu destacaria este pacto para o futuro. O secretário-geral mostrou aqui uma grande proatividade e até alguma popularidade também, a sua capacidade de fazer pontes, mesmo num contexto onde essas pontes são cada vez mais difíceis por causa de conflitos entre grandes potências. E aí eu destacava até uma derrota significativa da Rússia, que foi a única grande potência que se opôs a esse pacto para o futuro, no fundo, uma agenda de reformas das Nações Unidas, inclusive a reforma do Conselho de Segurança, mas também, por exemplo, avançar para a governação do espaço digital, da inteligência artificial, mais iniciativas também no campo do combate às emergências climáticas, que foi outro tema que também surgiu muito. E realmente a Rússia tentou descarrilar isso à última hora, foi extremamente criticada pela União Africana, pelo México, por uma série de países do sul global Que muitas vezes até não são muito críticos da Rússia e teve uma derrota esmagadora e significativa, 143 votos contra a sua resolução, que no fundo anulava esta iniciativa, com apenas outros seis estados pária a votar ao lado dele, da Rússia, como a Coreia do Norte, a Venezuela, enfim, digamos, os suspeitos do costume. E, portanto, eu acho que apesar de tudo, é de destacar esta capacidade de António Guterres de, em circunstâncias muito difíceis, apontar para o futuro, apontar para uma reforma, por exemplo, do Conselho de Segurança, o seu alargamento. É realmente escandaloso, por exemplo, não haver membros africanos permanentes no Conselho de Segurança. Isso tem uma explicação histórica. O Conselho de Segurança, como as Nações Unidas, foi criado em 1945 e basicamente reflete os vencedores da Segunda Guerra Mundial e também o facto de, na altura, África basicamente estar ainda sob governação, sob dominação, sob a opressão colonial. Apenas dois Estados africanos foram membros fundadores das Nações Unidas. As Nações Unidas tinham apenas 51 Estados-membros, agora têm 193. Só a Libéria e a Etiópia é que eram Estados africanos independentes nessa época e, portanto, houve, apesar de tudo, aqui espaço para outras questões, mas realmente as guerras dominaram completamente a discussão e aí não houve realmente grande acordo, ou seja, houve posições muito desencontradas, refletindo aqui estas alianças, estes blocos também em formação de uma dinâmica um pouco de Segunda Guerra Fria, que torna realmente bastante mais difícil o trabalho das Nações Unidas, sobretudo em conflitos onde estejam envolvidas grandes potências.

Já Portugal, Bruno, discursou pela voz de Luís Montenegro. O primeiro-ministro falou pela primeira vez em Nova Iorque e apelou a uma ação mais eficaz da ONU no conflito no Médio Oriente.

Estamos também profundamente preocupados com a situação humanitária e a perigosa escalada na região do Médio Oriente. Face aos acontecimentos no Líbano, apelamos à máxima contenção das partes para evitar o aumento da escalada. Condenamos firmemente os horríveis ataques terroristas executados pelo Hamas e exigimos a libertação de todos os reféns. É igualmente imperativo retomar negociações com vista à implementação da solução dos dois Estados, a única que poderá trazer estabilidade à região.

Bruno, ouvimos aqui o apelo do primeiro-ministro, mas não foi essa a única prioridade de Portugal na Assembleia Geral das Nações Unidas. Bruno, como é que se saiu o nosso país?

Eu acho que se saiu relativamente bem, embora esta declaração não será provavelmente das mais eficazes, vamos dizer assim, mas acho que, por exemplo, em relação a Gaza, como ouvimos, a posição foi realmente bastante pertinente e equilibrada. Mas realmente o que eu destacaria aqui é, por um lado, algo que o próprio primeiro-ministro afirmou, que é uma linha de continuidade entre diferentes governos. Isso é cada vez mais difícil na política externa, pensemos no caso dos Estados Unidos, não é? Mas para um país, sobretudo como Portugal, um país médio na Europa, pequeno a nível global, mas com alguma vocação também de uma presença importante em vários continentes, realmente é importante, para compensar essa relativa fraqueza, termos pelo menos esta noção de alguma continuidade nas nossas prioridades, na nossa ação. Por exemplo, no apoio às organizações multilaterais, como as próprias Nações Unidas, à lei internacional, obviamente para os Estados pequenos e médios, que são a maior parte dos Estados do mundo, e aliás, isso foi referido no discurso, é fundamental que não se caia novamente numa lógica de poder, de imposição pela força, que se preserve o mais possível esse sistema internacional, em que apesar de tudo, há alguma ordem, algum papel para o direito e para as normas e para as organizações multilaterais. Desse ponto de vista, destacou o contributo de Portugal para missões de paz das próprias Nações Unidas, também da União Europeia. Eu destacaria, sobretudo, o papel de Portugal, e não só eu, a própria agência de notícias das Nações Unidas destacou no encontro entre o primeiro-ministro e António Guterres, o papel de Portugal na missão de paz na República Centro-Africana, em que as nossas tropas são as mais capazes e, portanto, eu acho que isso é uma lição também, ou seja, devemos apostar mais, se calhar em menos missões e numa presença mais significativa e mais eficaz, que nos dê maior visibilidade também e maior influência, por exemplo, nestas organizações. E depois terminou também falando do papel de Portugal como uma ponte, no papel de Portugal no combate às alterações climáticas, quer pelo trabalho de Portugal em Portugal, energias renováveis, etc., quer, por exemplo, ajudando países como São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Acho que tudo isso funciona bem do ponto de vista de uma prioridade importante, onde eu espero que o discurso tenha sido eficaz, que é da promoção da campanha de Portugal para ser eleito para o Conselho de Segurança. Falamos sempre muito dos cinco membros permanentes, mas há 10 membros eleitos para mandatos de dois anos por grupos regionais e Portugal está a concorrer novamente para 2027, 2028. Mais um exemplo de continuidade, isso é uma iniciativa do anterior governo, que agora é muito bem continuada e, portanto, acho que desse ponto de vista foi um discurso bastante eficaz. Onde eu duvido também que seja muito eficaz, mas é pertinente que a questão seja colocada, até em coordenação com o Brasil, portanto, foi exatamente assim que foi referido, em conversa também com o presidente Lula, esta ideia de procurar que o português passe a ser a sexta língua das Nações Unidas, a par do inglês, do francês, do espanhol, do russo e do árabe. É realmente uma língua muito internacional, é a quarta língua mais falada a nível global, mas aí há um problema que é a questão do dinheiro. E, portanto, Espanha, por exemplo, anunciou que vai aumentar em 25% a sua contribuição para o orçamento das Nações Unidas. Portugal não anunciou isso, provavelmente por razões que se percebem, o Brasil também não. Isso sim tem implicações financeiras e, portanto, eu duvido que seja muito fácil de concretizar.

Bruno, vamos avançar e passar para o resto do mundo. Vamos deixar a Assembleia das Nações Unidas e viajar até à América Latina, mais precisamente ao México, onde vamos ter a posse da nova presidente, Claudia Sheinbaum. Já falamos dela algumas vezes aqui no programa. A posse será no dia 1º de outubro, mas não vamos falar de Claudia Sheinbaum ao concreto. Vamos, sim, falar sobre a ausência do rei de Espanha na tomada de posse, que é uma presença habitual. Minha pergunta é: são apenas problemas de agenda do rei de Espanha ou é algo mais, Bruno?

Não é um problema de agenda e, desta vez, nem foi apresentado como tal, porque às vezes isso é usado como desculpa. Não houve aqui nenhum disfarce. Ou seja, realmente isto é um bom exemplo do impacto negativo do populismo na política externa. No caso do México, temos no antecessor, mentor e grande apoiante de Claudia Sheinbaum, o presidente Obrador, o atual presidente do México, um exemplo de populismo de esquerda radical, se quisermos, e isso gera muitas tensões, muitas crises desnecessárias e depois difíceis de encerrar. Neste caso, Obrador decidiu exigir publicamente desculpas da coroa espanhola pela conquista do México no século XVI. Obviamente, se isso tivesse sido feito de forma discreta, provavelmente seria possível acertar alguma coisa, alguma declaração, etc. Agora, o governo de Espanha entendeu que isto era deliberadamente uma estratégia de humilhação populista de Espanha para servir os interesses políticos de Obrador e, portanto, rejeitou esse pedido de desculpas. O que é alegado é que, como não houve uma resposta do rei a essa carta, satisfatória, vamos dizer assim, e ainda por cima quem respondeu foi o governo de Espanha, então o México optou por convidar o presidente do governo espanhol, o chefe do governo espanhol, e não o chefe de Estado de Espanha, o rei de Espanha. Obviamente, tudo isso é um disparate. O México não tem nada que mandar em quem a Espanha manda ou deixa de mandar à sua posse, não tem de decidir quem é o chefe de Estado em Espanha e, obviamente, numa monarquia constitucional e parlamentar, quem define a política externa não é o monarca. Enfim, pode ser ouvido, escutado, aconselhado, mas é evidentemente o governo de Espanha que foi quem naturalmente tomou posição. Mas, sobretudo, acho que o que é de destacar aqui é que isto confirma algo que, pelo menos para já, vamos ver depois se muda, que é algo que os próprios comentadores mexicanos, entre os quais podemos dizer Jorge Castañeda, de quem eu aprecio bastante, também destacaram, que é: isto, sobretudo, mostra que, em vez de a nova presidente aproveitar isto para virar a página, recomeçar de novo as relações com um país importante para os países de fala espanhola, como é a Espanha, um parceiro importante também no contexto da União Europeia, etc., em termos económicos, etc., em vez de aproveitar isso, realmente faz aqui uma demonstração de fidelidade ao seu protetor, ao seu mentor, ao seu promotor, Obrador. Portanto, no fundo, confirma esta suspeita de que Sheinbaum será quase que uma marioneta do presidente anterior. Vamos ver se ela consegue ultrapassar isso, mas, para já, eu diria que, neste caso, pelo menos perdeu a oportunidade para fazer isso e mostrou-se uma fiel seguidora do seu antecessor.

Bruno, pegamos nas malas e vamos agora até à Ásia. O Japão tem um novo primeiro-ministro, o Shigeru Ishiba, é quem sucede. Falamos de um antigo ministro da Defesa. Bruno, o que é que nos podes dizer sobre ele?

Ele realmente, como dizias, já foi ministro da Defesa, portanto, é um veterano da política japonesa. Já é a quarta vez que ele concorreu à chefia do Partido Liberal, que domina historicamente a política no Japão desde a Segunda Guerra Mundial. É alguém que é visto como relativamente conservador, até com um discurso um pouco populista, mas ao mesmo tempo reformista em relação à questão da corrupção, em relação aos excessos da partidocracia, do peso do aparelho do próprio Partido Liberal. Ele é bastante mais popular fora do partido do que dentro e, portanto, esta sua eleição parece ser uma tentativa de recuperar apoio entre a população, entre a opinião pública. Portanto, vamos ver se ele consegue concretizar algumas dessas prometidas reformas. Em termos de diplomacia, realmente aqui o que é mais importante é que é claramente um veterano muito experiente, com esta background e um grande interesse e expertise até na área da defesa e segurança. Ora, numa região que está cada vez mais instável, mais tensa, mais propensa a crises, com a Coreia do Norte sistematicamente a lançar mísseis, a fazer experiências nucleares, com a China, como sabemos, também com tensões crescentes com vários vizinhos, inclusive as Filipinas. Portanto, tudo isso provavelmente também terá pesado na sua escolha e, desse ponto de vista, o que se espera é uma linha de grande continuidade ou até de reforço da aliança com os Estados Unidos, onde também há incerteza, como sabemos, e sobretudo, ele tem esta linha também de procurar reforçar as alianças com outros países vizinhos, que às vezes são difíceis por causa do histórico imperial do Japão, não é? Nomeadamente durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, com a Coreia do Sul, com as Filipinas. Portanto, ele é alguém que é conhecido por defender muito essa linha e até, no fundo, ter aqui um nível de ambição se calhar excessivo, do meu ponto de vista, mas revelador, de criar uma espécie quase que de NATO na Ásia. Desse ponto de vista, também é expectável que ele não seja muito popular na China, que vê estes desenvolvimentos, a criação de uma rede de alianças muito sólida, evidentemente voltada para tentar conter o poder militar chinês, com maus olhos.

Bruno, antes de avançarmos e vamos nos manter na Ásia, vamos até ao Sri Lanka, mas antes de avançarmos, dar apenas esta nota de que o Hezbollah já confirmou a morte do líder. Há pouco estávamos a falar que tínhamos esta informação e que está a ser veiculada, mas que apenas tínhamos confirmado que o Hezbollah admitia que não conseguia contactar o líder do grupo desde o dia de ontem, desde o final da noite de ontem, mas agora chega mesmo essa confirmação. Um tema que já falámos há pouco, mas dar apenas essa nota para os nossos ouvintes. Bruno, vamos avançar agora até ao Sri Lanka, onde houve eleições. Vamos ter o primeiro presidente de esquerda radical da história do país. É uma grande novidade A minha pergunta é: podemos esperar grandes mudanças na política interna e externa do país, do Sri Lanka?

Vamos ter realmente um primeiro presidente não de esquerda, mas de esquerda radical, um partido marxista, Anura Kumara Dissanayake, espero ter pronunciado mais ou menos bem. Não é um daqueles casos, há muitos no Ceilão, que agora se chama Sri Lanka, com nomes portugueses. Realmente Portugal teve uma presença muito importante, ocupou partes importantes do território da ilha no século XVI, mas realmente há aqui alguma expectativa de grande mudança. O Sri Lanka, ainda conhecido como Ceilão, tornou-se também independente, tal como o Bangladesh, que falamos na semana passada, depois na sequência da independência da Índia, que era a grande colônia britânica nesta região, portanto, o Bangladesh, o Paquistão e Índia em 47, depois a Birmânia em 48 e o Ceilão também em 48. Obviamente, é uma ilha muito estratégica, basta olhar para o mapa em termos do Índico, muito central. Manteve-se relativamente próxima de Londres, do Ocidente, nas suas primeiras décadas, mas depois a partir dos anos 70 começou, no fundo, a entrar um pouco em rutura com essa linha, a entrar numa linha mais de não alinhamento, de um certo neutralismo crítico até do Ocidente, mas sobretudo aqui o grande dado na história do país é a guerra civil extremamente sangrenta entre 1983 e 2009, sobretudo com a população minoritária, mas que está muito concentrada no norte dos tâmil, face aos chineses, mas também teve esta dimensão política. Por exemplo, este movimento a que pertence o atual presidente também esteve envolvido na luta armada desde 1987. Depois houve um processo de paz que permitiu que este movimento voltasse a ser um movimento político, mas a questão aqui é perceber quais são as implicações mais do ponto de vista interno e externo. Eu diria, em termos internos, muitas dificuldades em fazer grandes mudanças, porque este país de 22 milhões está numa situação de austeridade extrema. Já vimos isso também em Portugal, ou seja, excessivo endividamento, sobretudo em relação à China, que aliás tomou conta do principal porto que tinha construído no país, mas também mesmo em relação à Índia. Portanto, aí mesmo o presidente muito à esquerda terá dificuldades em fazer mudanças radicais. Em relação à questão externa, há a expectativa de que alguém muito à esquerda tenha eventualmente mais simpatias com a China do que com a Índia, mas a verdade é que tradicionalmente o Sri Lanka nunca alinhou completamente com uma ou com outra, tentou equilibrar ou contrabalançar o peso enorme da Índia nesta região, aproximando-se mais da China, mas também não pode dispensar completamente os laços próximos com a Índia.

Bruno, temos mesmo de acelerar. Faltam duas perguntas, mas temos de as fazer, por isso vamos tentar ser super-rápidos. Bruno, terminamos a nossa viagem em África, temos de voltar a falar da guerra civil no Sudão, que começou nas últimas semanas a ter mais visibilidade global. Bruno, houve algum desenvolvimento relevante?

Sim, muito brevemente, houve basicamente uma ofensiva nova do exército. Portanto, vamos aqui recordar, o Sudão teve novos golpes de Estado, o último foi em 2021. As várias facções militares começaram a disputar o poder violentamente numa guerra civil em 2023, que é algo que também acontece quando há golpes de Estado, mas basicamente as forças armadas regulares contra umas milícias que eles criaram, as Forças de Apoio Rápido. Agora o exército está a atacar novamente na zona da capital. O problema é que isso provavelmente vai significar ainda mais vítimas civis, o agravar da crise humanitária. Portanto, os apelos internacionais, infelizmente, a maior visibilidade internacional, para já, ainda não resultou num processo de paz ou numa situação mais segura para a população civil.

Bruno, por fim, muito rapidamente, vamos à recomendação da semana e há pouco falávamos da ONU. Vais trazer-nos aqui dois livros sobre a história das Nações Unidas.

Exatamente, são dois autores, dois colegas que eu admiro bastante. Um deles é até um bom amigo. O primeiro é o Paul Kennedy, "O Parlamento do Homem: História das Nações Unidas". O segundo é o Mark Mazower, "Governar o Mundo: história de uma ideia de 1815 até ao presente". Eu diria que se complementam muito bem. O livro do Paul Kennedy é quase uma história oficial. O Paul Kennedy fez parte, aliás, parte de um painel, digamos, de intelectuais para, a certa altura, para reformar, lá está, esta ideia que existe há muito tempo de reformar o sistema das Nações Unidas, mas não deixa de ser uma história muito informativa, muito bem escrita. O Mark Mazower é muito mais crítico, mas também não deixa de mostrar alguma simpatia com o enorme problema que é tentar coordenar a resposta aos grandes desafios globais quando vivemos num mundo de Estados que têm interesses e histórias muito diferentes. Mas são realmente dois livros muito bem escritos e muito interessantes para quem se interessa por estes temas.

Muito bem, Bruno Cardoso Reis, muito obrigada. Nós voltamos no próximo sábado, agora já sabe, com uma hora de "Cinco Continentes". Já sabe também, pode e deve enviar as suas perguntas para o Bruno através do e-mail ouvinte@observador.pt. Bruno, até ao próximo fim de semana.

Até para a semana, Bruno.

Obrigado. Até para a semana