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Esta é a história do dia da Rádio Observador: A eleição mais louca de sempre, parte dois.
As pessoas não estão a escolher o Marques Mendes? Façam uma campanha melhor. Estão a escolher outros? Vejam o que os outros estão a fazer. Não critiquem o TikTok ou isto ou aquilo outro, façam melhor, façam por si. Por que estão a criticar o oposicionário?
Esta cotovelada de João Cotrim de Figueiredo à máquina do PSD mostra que à direita as coisas estão ainda mais esquisitas do que à esquerda. É uma estranheza diferente, mas é ainda mais imprevisível, porque aqui o eleitorado parece estar completamente dividido.
A minha convicção segura é de que eu vou passar à segunda volta em primeiro lugar.
Marques Mendes mostra uma confiança que as sondagens não lhe dão. Ele chegou a estar à frente para vencer as presidenciais, mas agora parece estar em queda livre. Nada está ganho, nada está perdido, mas a tendência não é a mais reconfortante, agora que entramos na reta final da campanha.
Vamos dar outra vez o voto de presidente a quem vai bloquear as nossas leis de imigração, as leis de nacionalidade? Aí fica na consciência do primeiro-ministro e do líder do PSD.
Claro que Ventura aproveita para fazer pressão. Ele que parece ter um eleitorado fiel, não sobe muito, mas também não desce, e que com esses eleitores tem boas hipóteses de garantir a passagem à segunda volta. A menos, claro, que o almirante lhe venha baralhar as contas, mas Gouveia e Melo, tal como Marques Mendes, tem, sobretudo, para dar e vender, uma boa dose de confiança.
Eu quero passar à segunda volta. De preferência, era bom que se resolvesse à primeira volta.
Ora, como a segunda volta é praticamente inevitável, ficam as dúvidas: por que o candidato mais previsível não cola? O que explica a subida consistente de Cotrim de Figueiredo? E como é que André Ventura conseguiu transformar este caos numa oportunidade clara de passagem à segunda volta? Para percebermos o que está a acontecer à direita, eu vou conversar com o Miguel Santos Carapatoso, editor-adjunto de política do Observador. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 12 de janeiro. Olá, Miguel, bem-vindo.
Olá, Pedro.
Tu és um dos autores daquele podcast do Observador, quem não ouviu, recomendo que oiça, que é a campanha mais louca de sempre, sobre a eleição que opôs Mário Soares e Freitas do Amaral. Tendo em conta aquilo que está a acontecer nesta campanha eleitoral, achas que esse título desse podcast envelheceu depressa?
Acho que pode ficar desatualizado em breve. De facto, foram umas eleições, as de 86, muito imprevisíveis. Eram outros tempos, com outra mobilização, com outra adesão natural das pessoas à política e àqueles candidatos em particular. Não se pode dizer que isso hoje seja uma evidência.
Pelo contrário, até, não é?
Pelo contrário. Mas sim, se há um paralelo que se pode traçar entre uma e outra eleição, é esse, é o caráter imprevisível desta corrida. Se quisermos ser um bocadinho mais criativos, podemos dizer que se em 86 a esquerda estava muito dividida e foi isso que tornou aquela eleição mais emocional e mais intensa, aqui, 40 anos depois, a direita está muito fragmentada e é isso que torna tão interessante a corrida a que estamos a assistir.
Vamos olhar para essa direita fragmentada. Há aqui um fenómeno curioso, que olhando para as sondagens, nós vemos que Marques Mendes, que era à partida o candidato, e quando eu digo à partida é quando se começou a falar mais intensamente de presidenciais e antes da pré-campanha, era à partida o candidato que à direita conseguiria agregar mais votos e depois antevia-se ali um duelo com Gouveia e Melo. Curiosamente, estão os dois muito perto de chegar à segunda volta, mas digamos que se houvesse apostas, eles estariam com menos dinheiro nas duas candidaturas. Por que achas que isto acontece?
Há seguramente demérito dos candidatos que referiste, Luís Marques Mendes e Henrique Gouveia e Melo, e podemos falar disso mais à frente, e há seguramente mérito de João Cotrim Figueiredo, que soube montar uma campanha muito profissional do ponto de vista comunicativo. Mesmo tendo feito uma maratona de debates não muito interessante, não muito bem conseguida, conseguiu recuperar a tendência positiva que vinha a ter e, de facto, entra aqui o fator anímico. A partir do momento em que João Cotrim Figueiredo começa a ser o favorito do campo do centro-direita, as campanhas de Luís Marques Mendes, sobretudo essa, mas também de Henrique Gouveia e Melo, entraram num desnorte muito pouco recomendável. Estamos a deixar de fora outra personagem da direita.
Calma, que é o André Ventura.
Que é André Ventura, que está também, ou arrisca-se também a ser ele o campeão das direitas numa eventual segunda volta.
Não, mas eu quando falava de Gouveia e Melo e de Marques Mendes, não era porque sobretudo Gouveia e Melo fosse um representante desta direita fragmentada, porque não é aí que ele se posiciona, naturalmente. Ele está mais no centro-esquerda, embora também queira captar alguns votos do Chega, e o Chega chegou a equacionar apoiá-lo numa candidatura presidencial.
Mas se me permites, Pedro, porque era interessante falarmos sobre isso, sobre como Henrique Gouveia e Melo começou por fazer esse caminho de se posicionar ao centro Durante a maratona de debates, aproximou-se ou tentou colar-se à família socialista. Naquele debate com António José Seguro, isso foi evidente.
Sobretudo porque esse campo estava vago.
Na altura, se não estava vago, estava muito descoberto. E agora, em meio da campanha, já percebemos a necessidade da campanha de Henrique Gouveia e Melo de publicar um manifesto de apoio à sua candidatura de personalidades do PSD e do CDS. De repente, Henrique Gouveia e Melo, que começou no centro, foi para o centro-esquerda, agora está a tentar chegar ao centro-direita.
O que faz sentido, que era apanhar o maior número de eleitores que for possível. Aliás, há um artigo n'"O Observador" que tem a ver com os bastidores da máquina partidária de cada um dos candidatos e é notável olhar para aquilo que se passa com Gouveia e Melo, que de repente encontramos ali, sobretudo pessoas de bastidores que o cidadão comum não conhece, mas os jornalistas que fazem política conhecem bem, e que já estiveram em campanhas opostas, literalmente a apoiarem candidatos opostos ou dentro do mesmo partido ou de partidos diferentes, no caso PS e PSD, e agora estão todos a trabalhar em conjunto na candidatura de Gouveia e Melo.
Sim, é muito curioso. Henrique Gouveia e Melo conseguiu rodear-se de figuras que estiveram com antigos chefes de governo do Partido Socialista, António Guterres, José Sócrates, António Costa, tem assessores dessas mesmas figuras, tem ao mesmo tempo aquilo que se pode assumir como sendo o rioeiro em estado puro. Os homens do aparelho do Rui Rio estão a ajudar ativamente a campanha de Henrique Gouveia e Melo e isso mostra, de facto, que não tendo uma máquina partidária, no sentido convencional do termo, a apoiá-lo, tem muita gente experimentada a fazer a campanha do almirante. É uma coisa muito profissional e para levar a sério.
E achas que nesse sentido ele deveria estar um pouquinho mais à frente nas sondagens do que aquilo que está?
Acho que Henrique Gouveia e Melo foi vítima de uma estratégia que assumiu, mas que tinha muitos riscos. Quando Henrique Gouveia e Melo começa a perceber, de alguma forma, que as coisas não estavam a correr particularmente bem, quando começa a afundar nas sondagens, há uma mudança de atitude. E isso foi muito evidente no debate com Luís Marques Mendes, em que Henrique Gouveia e Melo partiu para o ataque, fez acusações duríssimas a Luís Marques Mendes, depois viu-se envolvido ele próprio numa história que também tinha o papel e o dedo do Ministério Público. Passou ali uns dias entre acusações e defesa da honra com uma linguagem muito agressiva. E qual era a maior vantagem de Henrique Gouveia e Melo até estas eleições? Era posicionar-se acima da refrega política, acima da politiquice, acima dos partidos. Quando desceu ao nível do combate mais puro, duro e feio que se faz na política.
O mito desvaneceu-se.
O mito desvaneceu-se.
Sendo que foi eficaz o ataque que fez a Marques Mendes, porque isso é seguramente uma das razões que explica por que Marques Mendes tem vindo a descer nas sondagens com alguma frequência.
Foi eficaz, mas sujou as mãos, era esse o meu ponto. É verdade que foi eficaz tirar alguma força a Marques Mendes, teve este lado negativo de o enfraquecer, enfraquecer Henrique Gouveia e Melo. Quanto a Luís Marques Mendes, de facto, é uma campanha para esquecer do social-democrata. Nós não sabemos como é que vai acabar, não sabemos se Luís Marques Mendes passa ou não à segunda volta.
Essa possibilidade existe.
Existe, evidentemente. Não sabemos se Luís Marques Mendes pode ou não ser o próximo presidente da República. Agora sabemos que a campanha está a correr mal. Está a correr mal a Luís Marques Mendes. Começou com algum conforto. As sondagens anteriores ao período oficial de campanha davam uma vantagem teórica a Luís Marques Mendes. Depois há ali um primeiro fim de semana de campanha estranho, em que aparece Luís Montenegro, primeiro-ministro em funções, a fazer um apelo ao voto útil muito dramático. E isso, para quem está habituado a acompanhar campanhas, foi logo um sinal de estranheza. Geralmente, esse esforço de apelo ao voto útil surge nos últimos dias. A partir do momento em que a figura maior do PSD aparece naqueles termos a apoiar Luís Marques Mendes, soaram alguns alarmes. Seria o indício de que as coisas não estavam particularmente famosas para Luís Marques Mendes. E depois foi vê-lo a ziguezaguear ao longo dos dias. Primeiro, começa por assumir a derrota, assumir o risco da derrota, melhor dizendo. Foi logo ali nos primeiros dias de campanha em que Luís Marques Mendes assumiu que isso era uma possibilidade real, o que é impensável para quem está em campanha e numa campanha tão renhida. Depois desatou a atacar Henrique Gouveia e Melo e João Cotrim Figueiredo, mais para frente até mais focado em Cotrim Figueiredo. Agora, nos últimos dias de campanha, já tem procurado assumir-se como um discípulo de Mitterrand, estando acima dessa refrega partidária e política, querendo ser uma força tranquila e dizendo aliás que vai passar à segunda volta e vai ficar em primeiro na primeira volta.
A confiança também é importante.
Mas era importante tê-la coerentemente desde o início e não andar nesta montanha-russa de emoções.
Achas que ele está a ser vítima do sucesso, pelo menos nas sondagens de Cotrim Figueiredo, que está a conseguir, de facto, falar esse eleitorado de centro-direita que seria o eleitorado natural de Marques Mendes?
Eu acho que Cotrim Figueiredo tem uma vantagem que é não ser Marques Mendes. João Cotrim Figueiredo tem uma imagem, uma forma de se apresentar, uma linguagem diferente daquilo a que estamos habituados. Tem uma liberdade que Luís Marques Mendes não tem e que António José Seguro não teria se o governo fosse um governo do Partido Socialista. João Cotrim Figueiredo tem capacidade de imagem, de criticar e fazer reparos ao governo de Luís Montenegro, que Luís Marques Mendes não tem. Faz parte ou representa um partido que ainda tem alguma novidade. A Iniciativa Liberal teve sempre essa capacidade de se apresentar de uma forma mais disruptiva. E portanto, o João Cotrim Figueiredo tem características pessoais e políticas que fazem dele um candidato interessante e tem, e eu acho que este ponto é importante, um especial condimento de não ser Luís Marques Mendes. Acho que a chave para perceber a timidez nas intenções de voto de Luís Marques Mendes é mesmo essa. Há muita gente, por vários motivos, do PSD, do CDS, da grande família de direita, que não se identifica com Luís Marques Mendes, que não o aprecia particularmente, e isso torna o voto muito mais livre. Quando surge alguém com as características de João Cotrim Figueiredo, numa corrida em que a AD não tem um candidato tão forte, tão agregador como era e como foi Luís Montenegro, é normal que estas oscilações aconteçam de forma muito orgânica.
E achas que há alguma surpresa no caso do André Ventura à vista ou basicamente é isto, vai se manter ali com o seu eleitorado de base?
Nós sabemos que o que André Ventura procura nesta campanha é o seu momento Le Pen, é passar à segunda volta e ser ele a disputar a fase final das presidenciais com qualquer outro candidato que tiver pela frente. Se conseguir fazer isso, é um inevitável e inegável vencedor destas. Um, não disse o, um inevitável e inegável vencedor destas presidenciais.
Miguel, obrigado por teres estado neste episódio que eu vou chamar "A Corrida Mais Louca de Sempre Parte 2", achas bem?
Acho lindamente.
Muito bem, obrigado.
Muito obrigado.
O Miguel Santos Carapatoso é editor adjunto de política do Observador. Ele sabe bem do que falamos quando falamos de campanhas imprevisíveis. Ele é o autor do podcast Plus, "A Eleição Mais Louca de Sempre". E só para fechar este assunto, hoje entramos nos últimos dias da campanha presidencial, com os candidatos a darem o tudo por tudo, porque os lugares para a segunda volta ainda estão completamente em aberto. Hoje também é inaugurada a sede da nova direção executiva do SNS, numa cerimónia que vai contar com o primeiro-ministro e a ministra da Saúde. Ambos continuam debaixo de forte pressão política. Arranca também o julgamento do deputado do Chega, Pedro Frazão, que é acusado de difamação do agora coordenador do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, num processo relacionado com alegações de abusos sexuais. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Pedro Oliveira, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.