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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a LiveMode e a revolução nas transmissões de futebol.

Malta, nós estamos trabalhados com a federação.

E agora pedimos para fazerem a onda, vamos ver se está deste lado.

Ei.

Neste mundial, muitos portugueses descobriram uma nova forma de ver futebol. As televisões continuaram a transmitir os jogos, mas apareceu no YouTube um novo operador com uma linguagem mais próxima das redes sociais do que da televisão tradicional.

Olá, Cristiano. Tiago e Luana, aqui em directo para a LiveMode TV. Boa noite, grande jogo, parabéns. Tu agora és acionista da LiveMode, recentemente adquiriste parte da LiveMode. Portanto, tecnicamente, tu és o nosso patrão.

Essa empresa chama-se LiveMode. Cristiano Ronaldo já investiu nela e Portugal é o primeiro mercado europeu a testar este modelo.

Queria te perguntar se com o evoluir da nossa relação, dá pra ter carro da empresa, pode ser qualquer um dos teus.

Hoje vou conversar com a editora de economia do Observador, Alexandra Machado. Vamos perceber como nasceu esta revolução, o que já se sabe sobre a aposta em Portugal e se estamos mesmo a assistir ao início de uma nova forma de ver grandes eventos desportivos. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de segunda-feira, 13 de julho. Olá, Alexandra.

Olá, Pedro.

É a primeira vez que estamos a fazer aqui esta história do dia. Pronto, então temos aqui uma estreia.

A primeira de muitas.

A primeira de muitas. Esperemos que sim. Ainda por cima vamos começar logo aqui a falar de uma potencial revolução no mercado dos media. Nós, há uns meses, eu já nem digo os portugueses, estou a falar mesmo em ambientes de redação onde nós estamos atentos às coisas que vão surgindo, ninguém fazia ideia o que era a LiveMode. E agora, de repente, quase toda a gente sabe, já ouviu falar da LiveMode. Estamos a falar do quê? É de uma empresa de televisão por YouTube, é de um canal de streaming, é de uma empresa de gestão de direitos? O que é isso, afinal?

Para a maior parte das pessoas, a LiveMode será um canal no YouTube, porque é o portão de entrada da maior parte das pessoas neste mundo da LiveMode, a propósito dos jogos do Mundial de 2026. Muitos portugueses viram muitos jogos do Mundial na LiveMode, no YouTube, gratuitamente, e por isso LiveMode, para muita gente, é associada a um canal do YouTube. Agora, há muito mais por trás disso. A ERC achou que aquilo poderia ser uma web TV, portanto, um canal de televisão transmitido através da internet, inicialmente. Aliás, o primeiro registo que a LiveMode tentou pedir junto da ERC era para web TV.

A ERC é a Entidade Reguladora da Comunicação Social, fiscaliza tudo o que tem a ver com este mercado da comunicação.

Depois tentou um registo de canal de televisão a pedido. E é este o ponto que está em cima da mesa. A ERC acha que é um serviço de televisão a pedido. A LiveMode diz que não é nada disso, que não é sequer um canal de televisão, não é nada relacionado com televisão. Também diz que não é nada relacionado com órgão de comunicação social, porque se diz ser apenas um canal no YouTube a transmitir e a fazer os chamados lives, que é basicamente transmissão de eventos em direto. E, portanto, é neste ponto dúbio que ainda estamos para saber o que é que de fato a LiveMode é em termos regulatórios.

E de fato, percebe-se por que há aqui uma espécie de névoa em que não se sabe exatamente em que caixinha incluir, porque transmissões em direto no YouTube, muita gente pode fazer, qualquer cidadão que goste de ser isso, os chamados YouTubers, não precisam de ser empresas legalmente constituídas, registradas junto da Entidade Reguladora da Comunicação. Podem fazer direto.

Há muitos canais no YouTube de pessoas particulares e até de empresas que não têm que ter registro nenhum.

A questão é que eles não transmitem uma coisa qualquer. Transmitem jogos do mundial, que são uma fortuna, porque nós sabemos que as negociações em vários países-

E tem a compra de direitos por trás.

Exatamente. Eles não transmitem por acaso, eles transmitem porque têm os direitos.

Porque compraram os direitos digitais, no caso, foi do mundial, mas eles compraram direitos para poder transmitir em streaming, ou seja, na internet, esses jogos. E por isso há aqui um negócio de média por trás.

É até dúbio em que gaveta colocar esta empresa, esta LiveMode, que agora apareceu, com estrondo, no mercado português, sendo que ela não nasceu no mercado português e a história é muito curiosa, a história desta LiveMode.

Nasceu no Brasil. No Brasil chama-se Cazé TV. Apesar da empresa ser LiveMode, o canal do YouTube onde passam os jogos denomina-se Cazé TV. E por quê? Porque tem origem num streamer, num youtuber, ele até estava noutra plataforma, no Twitch, que é Casimiro Miguel. O Casimiro Miguel começou a fazer comentários de futebol e de outras coisas. Ele até de lancheiras e de gastronomia fazia reações e vídeos a reagir a determinados reality shows.

Que é uma modalidade também muito popular, que é os vídeos de reações, a reagir a determinadas coisas.

E ele ganhou projeção no Brasil a fazer esses vídeos de reações e ganhou muitos seguidores. E quando Percebeu a sua dimensão, foi tentar a sua sorte no mundo do futebol. Ele cresceu muito na altura da pandemia, porque estava em casa fechado e fazia muitos vídeos e muitas ações dessas de streamers. E depois, já conhecia os dois sócios da LiveMode, porque tinham trabalhado num outro projeto anteriormente e quando, no Brasil, a Globo deixou escapar os direitos digitais para o Mundial do Qatar, a LiveMode e o Casimiro Miguel conseguiram perceber o potencial que estava em transmitirem jogos.

O ouro que tinham nas mãos, uma vez que, e isso também para dar contexto, no Brasil, historicamente, a TV Globo era a televisão dos grandes eventos.

Desde 1970 transmite os mundiais.

Jogos Olímpicos, mundiais, tudo o que é grandes partidas de futebol, a TV Globo era a casa, porque é um colosso, porque tinha muito dinheiro e podia pagar esse dinheiro. E no Mundial do Qatar, não quis, por alguma razão.

Houve ali um problema por causa da pandemia. A Globo, a determinada altura, tentou renegociar com a FIFA o valor que tinha que pagar anualmente, porque o contrato já estava fechado, e por causa da pandemia disse que não poderia pagar aquele valor que estava acordado no timing que era o suposto, e houve uma renegociação. E na renegociação, deixou escapar a exclusividade dos direitos digitais.

Manteve o negócio para a televisão tradicional.

O negócio para a televisão continuou da Globo nesse jogo, nesse Mundial, mas deixou escapar a exclusividade dos direitos digitais.

E é nesse momento que a LiveMode TV e que o Casimiro Miguel, esse nome Casimiro, já agora, é um nome que até tem uma sonoridade de Portugal.

Os pais são portugueses.

Aí está, pronto, está explicado. E o Casimiro Miguel, o Casé, junta-se com dois sócios, fundam a LiveMode, que se transforma na CazéTV.

CazéTV, porque era ele o nome Casimiro Miguel é que tinha os seus seguidores e os seus fãs, transforma-se em CazéTV no Mundial do Qatar.

E vão buscar esses direitos digitais.

E vão buscar esses direitos digitais, inicialmente para o Qatar 2022, alguns jogos, e para o Mundial 2026, o que se está a disputar agora. Conseguiram mesmo todo o pacote de transmissão dos 104 jogos.

E, portanto, presumo que se em 2022 com poucos jogos e agora em 2026 com todos os jogos, significa que em 2022 a operação correu muito bem.

Correu muito bem, teve muitos seguidores. Aliás, o jogo Brasil-Croácia teve seis milhões de interações. Portanto, teve muito impacto.

Como é que eles pagam esses direitos, que apenas para o digital devem ser uma fortuna?

Na altura, o que os jornais brasileiros relataram foi que eles, por um pacote de 22 jogos, a LiveMode tinha feito uma oferta, e foi concretizada nesses valores, de $ 3 milhões para os 22 jogos. Portanto, é qualquer coisa por aqui, $ 3 milhões a câmbio atual é cerca de 2,6 milhões de euros.

Ou seja, é muito dinheiro, mas mesmo assim não é uma fortuna como aquela que seguramente a Globo terá pago pelos direitos.

Claro, até porque depois rentabiliza isto com a publicidade. E é aqui que a LiveMode paga o seu negócio. Além da publicidade normal que os YouTubers recebem com as visualizações, há uma componente que é a LiveMode vende o que eles chamam quotas de publicidade dentro das suas transmissões. E vendeu-as, segundo os jornais brasileiros, para o Mundial de 2026, conseguiu qualquer coisa como 2000 milhões de reais, o que dá perto de 400 milhões de euros.

Não é coisa pouca. E o modelo dessa CazéTV, o que trazia de diferente face àquilo que seria uma transmissão normal, por exemplo, da TV Globo, mesmo para o digital?

O modelo é o que nós vimos na LiveMode.

Cá em Portugal.

Cá em Portugal. Tem as transmissões dos jogos, mas à sua volta é todo um festival, digamos assim, de comentadores.

Não há jornalistas cinzentões.

Sim, e tem as tais janelas a mostrar os comentadores, que normalmente não são jornalistas, são YouTubers, influenciadores, pessoas conhecidas do mundo do espetáculo e que fazem de um relato de futebol toda uma animação, um espetáculo por si só, e com uma linguagem bastante jovem e informal, não tão cinzenta.

Exatamente. E por cá não se chama CazéTV, chama-se LiveMode, o nome original da empresa. Mas esta presença em Portugal neste mundial não é por acaso. Ou seja, Portugal é uma espécie já de balão de ensaio para a internacionalização desta empresa.

A internacionalização começou precisamente por Portugal. É a primeira versão teste, se poderemos chamar assim. Acho que já é muito mais do que versão teste, mas o primeiro ensaio fora do Brasil foi precisamente no mundial em Portugal e já conseguiu, mesmo para Portugal, outros direitos futuros. Já conseguiu o mundial feminino em 2027, já vai transmitir o jogo a 30 de julho do Benfica para a segunda pré-eliminatória da Liga Europa.

Já está a entrar no mercado digital dos direitos.

Também é importante percebermos que para a FIFA isto também é mais um negócio, porque além dos direitos televisivos, que já ganhavam muito dinheiro com eles, a fragmentação de direitos consegue aumentar o bolo para a FIFA destas receitas.

Sem dúvida. E o que nós já temos é números de audiência e sabemos que estes jogos têm tido uma visibilidade grande. Eles entraram, pelo menos num segmento etário do mercado português, com força. O que nos dizem esses números?

Segundo números disponibilizados pela própria LiveMode TV, 71% da audiência até ao último jogo dos oitavos de final, pertenceu à faixa etária dos 18 aos 44 anos.

Ou seja, uma faixa etária bastante nova.

Nova.

E, já agora, muito apetecível para os anunciantes.

Claro, muito apetecível para os anunciantes. Aliás, a LiveMode TV, em Portugal, também partiu para este mundial com um pacote de anunciantes: BPI, Coca-Cola.

McDonald's.

McDonald's, várias empresas de apostas. Portanto, eles também venderam as tais cotas publicitárias cá em Portugal, cujo valor não se sabe qual é.

É isso que eu ia perguntar. Nós já sabemos muita coisa, incluindo que Cristiano Ronaldo também esteve atento e é um dos investidores da LiveMode. É mesmo um sócio?

Sim, foi anunciado no início deste ano, creio que em maio, que Cristiano Ronaldo tinha entrado no capital da LiveMode TV. Também não se sabe nem por quanto, nem com que participação.

Só se sabe que ele é um dos sócios. E o que nós não sabemos sobre este negócio, para além disso?

Não sabemos ainda muita coisa. Para já, a participação de Cristiano Ronaldo e se haverá outros investidores. Depois, não sabemos os valores que estão a envolver esta operação da LiveMode em Portugal, nem o número de pessoas que participam nela. Aliás, a LiveMode numa entrevista à UECA disse que estariam a trabalhar cerca de 50 pessoas nesta operação mundial, mas que seriam só cerca de 30 os trabalhadores da LiveMode. Não se sabe em concreto qual é o número específico, não se sabe o investimento que tiveram que fazer, nem na compra de direitos, nem na operação, quem é que está a montar a operação, digamos assim, a produção dos conteúdos. Também não se sabe as receitas, não se sabe por quanto é que venderam os tais cotas de publicidade e quanto é que pagaram efetivamente pelos direitos de televisão. Além disso, a LiveMode fez um acordo com a Prime Video, da Amazon, para poder ter também os jogos na Prime Video. Portanto, há de se ter também envolvido valores que também ficam no segredo dos deuses.

Não sabemos nada disso e também não sabemos se a LiveMode vai ser o princípio de uma revolução que vem aí. Temos de estar atentos ao que se passa.

Vamos estar muito atentos.

É isso. Alexandra, obrigado.

Obrigada, Pedro.

Eu conversei com a editora de economia do Observador, Alexandra Machado, e muitas perguntas ficaram ainda no ar. O Mundial termina esta semana. Só depois se verá com mais nitidez até onde a LiveMode quer e pode ir para se tornar um player no mercado. Para já, contam com Cristiano Ronaldo, isso não é pouco, para ter mais notoriedade internacional, desenvolver a marca fora do Brasil e ajudar na expansão europeia. Portugal é só o começo. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.