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Esta é a história do dia da Rádio Observador. A onda Kamala Harris vai durar ou desfazer-se?
"Well, Donald. I do hope you'll reconsider to meet me on the debate stage. Because as the saying goes, if you've got something to say, say it to my face."
Perante cerca de 10 mil pessoas em Atlanta, Kamala Harris criou uma nova frase perfeita para hashtags e T-shirts. Perante os ataques dos oponentes Donald Trump e J.D. Vance, a candidata à Casa Branca deixou um desafio esta quarta-feira a Trump para um debate com a frase: "Diz-me isso na cara", numa tradução pouco erudita. Desde que entrou na corrida, Kamala Harris tem cavalgado a onda do sucesso repentino. As gargalhadas e a descontração marcam pontos nas redes sociais e parecem ter retirado da apatia o Partido Democrata e os eleitores. Mas será este momentum, como gostam de dizer os norte-americanos, um momento fugaz ou o início de uma onda que a vai levar à Casa Branca? É sobre isto que vou conversar com a investigadora em Relações Internacionais, Ana Cavalieri. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de sexta-feira, 2 de agosto. Bem-vinda, Ana Cavalieri.
É um prazer estar cá.
Kamala, Kamala, Kamala. Como é que nós devemos dizer o nome da senhora Kamala Harris?
Kamala Harris.
Como? Pamela?
Pamela, sim, é uma boa rima. Isto tem sido até uma das grandes discussões, até pela parte identitária dela, a pronúncia do nome dela, até porque Trump gosta de chamá-la Kamala. E penso que é Kamala Harris a pronúncia adequada, pelo que eu vou cingir-me a essa correta forma de dizer o nome dela, mas será Kamala Harris.
Vamos tentar, eu também vou cumprir. Ana Cavalieri regressou recentemente dos Estados Unidos, onde acompanhou estes dias intensos, o atentado contra Donald Trump, depois a desistência de Joe Biden e agora a ascensão de Kamala Harris. Aqui está o sotaque. Só para nos situarmos, para percebermos melhor isto, como é que era vista Kamala Harris até Donald Trump ser atingido e depois durante essa semana, até à desistência de Biden? Como é que ela era vista?
Esta transformação da imagem pública dela tem surpreendido muitas pessoas, porque efetivamente, aquilo que seriam as sondagens relativamente aos níveis de popularidade dela, mostravam que ela era uma figura impopular, tal como Biden, a rondar os cerca de 30 e poucos, 32, 33% de popularidade. E de repente, num espaço de uma semana, ela salta de 32% para 49, 50% nas últimas sondagens, por exemplo, da Bloomberg ou do Economist. Isto significa que era uma opinião que não estava verdadeiramente sedimentada. Não havia razões justificáveis que fizessem com que o público americano efetivamente a rejeitassem, mas sim pela associação dela à administração Biden, que tem sido, em larga medida, uma administração impopular nas três grandes áreas de política americana que interessam agora aos eleitores, que é a imigração, economia e política externa. E ela, por essa associação a Biden tinha, e também porque as pessoas têm alguma memória daquilo que foi a campanha muito fracassada dela em 2020 nas primárias. Ela teve maus debates, ela teve más entrevistas, e isso ainda tem algum peso naquilo que é a perceção pública dela. Mas é inegável que a cobertura mediática tem sido tão positiva que uma rejeição superficial, de repente, torna-se também numa aprovação talvez superficial, que vai ser agora posta à prova depois desta honeymoon, esta lua de mel, passar um pouco.
E já vamos voltar a esse ponto, que no fundo é o ponto central do nosso episódio de hoje da História do Dia. Agora, só para arrumarmos também aqui esta questão do ponto de vista formal, Kamala Harris já tem tudo o que precisa para ser a candidata oficial do Partido Democrata. Falta apenas a convenção e saber quem é o vice-presidente que vai escolher. Quais são os dois ou os três nomes mais fortes?
Exatamente. Ela materialmente tem tudo. Falta o passo formal da declaração dela como nomeada. Havia rumores que seria nesta primeira semana, pelo menos até dia 7, onde iria haver uma virtual call, que no fundo seria uma declaração através de meios virtuais, até por alguns problemas em ela estar no boletim de voto de, eu penso que era Ohio, exatamente, era Ohio o estado. Mas neste momento agora parece mais do que evidente que ela vai ser a nomeada. Ela tem todos os apoios dos financiadores, que é o mais importante.
Tem o dinheiro.
Exatamente. Isto para uma campanha presidencial americana sem dinheiro, não se vai a lado nenhum. E também tem, no fundo, isto foi uma coroação. Há aqui um ponto que é fundamental reiterar, que numas primárias em que é suposto dar aos eleitores de cada partido a possibilidade de selecionar o seu nomeado, ao Partido Democrata, aos eleitores democratas, isso foi retirada essa opção. Isto foi uma coroação da elite do Partido Democrata, que foi feita à Kamala Harris a partir do momento em que soube que Biden, nas sondagens, seria uma hipótese inviável. E isso, obviamente, pode refletir, mas neste momento não está a refletir nas sondagens, naquilo que será o resultado depois em novembro, esta falta, no fundo, de legitimidade democrática à nomeada do Partido Democrata. Todavia, vamos agora ter uma continuidade e talvez até uma aceleração deste momentum em favor de Kamala Harris, porque historicamente, escolher o VP, o vice-presidente, e depois passar por uma convenção, faz com que a candidata salte alguns pontos consideráveis nas sondagens, normalmente quatro, cinco pontos.
Ganha força.
Vai ganhar força. Pelo que eu neste momento antevejo, até pela tendência que está a ser demonstrada agora, que Kamala Harris agora irá ultrapassar Trump na maior parte das sondagens, vai sedimentar a sua liderança a nível nacional e penso que até vai virar na maior parte dos Estados, nos swing states, aqueles Estados que neste momento tanto podem pender para democrata como para republicano.
Mas como é que chegamos a este momentum, como disse agora mesmo, como gostam de dizer os norte-americanos, Kamala Harris está em altas. Como é que nós podemos medir esse estado de graça? Quais são os indicadores que nos permitem levar a essa conclusão, que ela está em altas.
Tem a ver com a tendência que as sondagens estão agora a demonstrar esta volatilidade, esta grande transferência de apoio de uma figura que era impopular para agora ser significativamente muito popular, ou pelo menos popular relativamente àquilo que Biden era como opção. Isto significa que, no fundo, Kamala Harris não é conhecida suficientemente para a rejeição dela de há um mês atrás ser uma verdadeira rejeição. Ela aproxima-se daquilo que na política americana se chama generic Democrat, que é aquele democrata protótipo que os eleitores democratas, até os independentes, imaginam que fosse o preferido deles, que normalmente se sai sempre muito bem nas sondagens, quando depois confronta um republicano em concreto. E ela, neste momento, é um generic Democrat, é um democrata um pouco genérico, um candidato que ainda tem muito para provar, mas que também não foi posto à prova. E neste momento eu penso que a campanha dela está a ser muito inteligente em tentá-la afastá-la de debates e de entrevistas. Se reparar, todo este momentum, toda esta energia positiva, todo este entusiasmo, não foi justificado por nenhuma entrevista, nenhuma declaração, nenhuma intervenção.
Não há aqui uma apresentação de programa, de ideias. Só temos uma apresentação, no fundo, de uma personagem, de uma figura.
De uma personagem, de uma imagem, de uma salvadora daquilo que seria talvez o descalabro democrata através de Biden, e muito sustentado por uma mídia que, tendo as considerações que nós podemos fazer sobre a parcialidade ou não da mídia americana, vemos que eles estão encantados, de forma geral, relativamente ao que Kamala Harris pode representar naquilo que pode ser o evitar de um segundo mandato de Trump, que é considerado por muitos, nomeadamente no mainstream dos mídia americanos, como não só uma ameaça ao espírito democrático do país, mas até à própria liberdade de imprensa nos Estados Unidos. E há aqui, no fundo, um encantamento. Nós podemos ver, por exemplo, agora a capa do New Yorker, que tem como uma grande manchete Camelot, e depois vê-se ela quase como uma rainha em primeira página, como referência. E há aqui um encantamento. Isto vai continuar por agosto e só em setembro é que vamos então continuar com uma campanha.
Já regressamos à conversa com Ana Cavalieri, especialista em relações internacionais. Afinal, o momentum de Kamala Harris poderá traduzir-se ou não numa vitória? Estamos de regresso à conversa com Ana Cavalieri, especialista em relações internacionais, que regressou recentemente dos Estados Unidos, onde viveu durante oito anos. Ana Cavalieri, tendo em conta a impopularidade prévia da candidata e o pouco tempo que a separa das eleições em novembro, e o facto, como estava a explicar, de estarmos aqui ainda a desenvolver esta personagem Kamala Harris, uma corrida sprint poderá ser mais vantajosa do que uma maratona nestas presidenciais para Kamala Harris?
Por isto ser uma nomeação tão recente, normalmente em abril e maio é mais do que sabido qual é que é o nomeado de cada partido, mas neste momento isto foram duas semanas completamente de loucos. Nós tivemos um ex-presidente que foi quase morto e uma semana a seguir o outro nomeado sai de cena. Existe esta nova candidata que se assume como nomeada do partido.
Isto nem é ficção.
Isto é surreal. Não vai ter precedentes, com certeza, na nossa vida, agora no futuro, porque também não teve no passado. Mas neste momento é importante saber que esta figura, Kamala Harris, que ainda vai ser posta à prova agora nestes três meses que faltam de campanha, está a concorrer a uma presidencial com outra figura bastante impopular. Donald Trump é uma figura venerada por grande porcentagem da base republicana, mas os independentes e algumas demografias fulcrais naquilo que é o eleitorado americano, nomeadamente as mulheres, e dentro das mulheres, com especial relevância, as mulheres solteiras, Donald Trump tem muitas contrapartidas. Ele é uma pessoa que é vista com uma grande aversão, até no plano moral, que faz com que muitas pessoas, mesmo até considerando as suas políticas, vamos reparar que em todas as sondagens, na economia, na política externa e na imigração, Trump tem um resultado mais favorável em termos daquilo que as pessoas confiam mais que tragam bons resultados para o país do que Kamala Harris.
Mas depois há a rejeição.
Existe uma rejeição ao nível pessoal, ao nível de atitude, ao nível moral, que faz com que pessoas que mesmo que acreditem que as suas políticas possam de facto ser um pouco mais vantajosas naquilo que são os seus interesses eleitorais relativamente a Kamala Harris, o rejeitem pelo estilo de política que ele faz, pelo tipo um pouco rude e agressivo que ele apresenta. E isso faz com que as pessoas possam não querer votar nele. E isso, nós temos a ter aqui muito bem presente, que faz com que Trump seja uma personagem que cabe a ele saber se vai ganhar as eleições ou não. Isto significa que se as eleições forem sobre um referendo relativamente à personagem Trump, o Trump vai perder. Se as eleições forem mais baseadas relativamente àquilo que foi a performance da administração Biden ou às prestações eventuais que Kamala Harris vai ter em entrevistas e em debates, então Trump vai ter uma hipótese de ganhar.
Ou seja, se for política.
Se for política. E neste momento, vê-se que os republicanos estão a tentar calibrar toda a sua estratégia agora perante esta nova candidata, porque antes estava Efetivamente ou primordialmente focado em Biden e a sua fragilidade cognitiva, a sua falta de vitalidade, a sua falta de idoneidade. Neste momento, não. Neste momento é mais a personalidade de Trump versus aquilo que ainda vamos descobrir de Kamala Harris e as suas potenciais associações ou não ao fracasso ou sucesso da administração Biden.
Isso é muito interessante. E há também aqui um pormenor curioso relativo às sondagens. Estão muito perto um do outro, se somarmos todos os resultados, Donald Trump ainda segue na frente, mas é por muito pouco. Porém, há aqui um pormenor que é: nem sempre quem é mais votado, quem tem mais votos, ganha nos Estados Unidos. E agora, professora Ana Cavalheiro, explique-nos lá porque é que as sondagens não podem ser aplicadas assim tout court ao modelo norte-americano.
Exatamente, o voto popular não é o crucial nos Estados Unidos. Está uma federação de Estados e, como tal, são os estados que vão ter o papel determinante através dos seus delegados no Electoral College, no Colégio Eleitoral. Isso significa que a campanha e a própria estratégia de cada candidato está desenhada para tentar ganhar o máximo de estados possíveis que consigam enquadrar ou reunir todos os delegados necessários à vitória do Colégio Eleitoral. Neste momento, nós temos seis estados que são significativos, os swing states. Há três que são no Rust Belt, a cintura industrial americana no norte dos Estados Unidos, que é Michigan, Wisconsin e Pennsylvania. E depois temos três também no Sun Belt, que é mais do sul dos Estados Unidos, que vai desde a Califórnia até a Flórida, e nestes três casos, nos três Sun Belt states, será Nevada, Arizona e Georgia. E agora Kamala Harris vai ter que definir um pouco a sua estratégia, porque Biden achava que a sua aposta mais segura seria tentar ganhar a working class, aquela classe trabalhadora operária de maioria branca do chamado Rust Belt, ou seja, Wisconsin, Michigan e Pennsylvania. Mas neste momento, nós sabemos, e pelo aquilo que estamos a observar nesta primeira semana de campanha de Kamala Harris, ela está a seguir mais a via da política identitária, em que a coligação eleitoral dela não será a classe operária trabalhadora de maioria branca, mas seria as minorias étnicas e tentar ganhar a demografia importante de mulheres solteiras. Pelo que neste momento pode ser que até os estados com maior diversidade demográfica, nomeadamente Nevada, Arizona e Georgia, possam ser uma aposta. E então, neste momento, vamos ter este xadrez eleitoral em que ambas as campanhas vão ter de tentar promover ao máximo aquilo que é o entusiasmo das suas bases eleitorais, porque eles estão a competir por bases completamente diferentes e vai ganhar quem conseguir mover, entusiasmar, motivar mais das suas demografias, no caso os republicanos, a tal classe operária trabalhadora de maioria branca e também a classe média e suburbana dos rural counties e dos rural states dos Estados Unidos da América. E Kamala Harris vai tentar, no fundo, replicar aquilo que foi o sucesso do Obama em 2012, em tentar ir pela motivação dos jovens, das minorias étnicas e também das mulheres, principalmente as mulheres solteiras. Eu penso que neste momento isto é uma opinião-
Das mulheres solteiras com gatos.
Com gatos, isso até tem sido uma polémica.
Tem o apoio de Jennifer Aniston, por exemplo.
Exatamente, que promoveu isso. J.D. Vance é um homem que intelectualmente é sólido, mas às vezes tem um problema na forma como ele tenta-
Esse é o vice de Trump.
Tenta expressar a sua mensagem. O que eu estava a tentar dizer é algo que é bem estudado, que é as mulheres como demografia eleitoral têm comportamentos distintos consoante aquilo que é a sua vida familiar. As mulheres casadas com filhos normalmente votam republicano, porque têm prioridades e interesses eleitorais muito alinhados à sua vida familiar e à sua proteção dos seus filhos e dos seus maridos, e da sua identidade integrada numa unidade familiar. Mas as mulheres solteiras unem-se mais à volta de assuntos como, por exemplo, aborto, liberdade reprodutiva, e isso apela muito mais àquilo que é o voto em prol do Partido Democrata. As mulheres não são um eleitorado monolítico, estão divididas. E o que J.D. Vance estava a referir, de forma muito clumsy, de uma forma muito estranha e estrategicamente errada, era essa diferenciação, que o Partido Republicano, no fundo, é um partido pró-natalista e que o Partido Democrata é liderado por mulheres e homens que não têm, no fundo, stakes, não têm uma continuidade geracional, um projeto a longo prazo do país. Interessante, que se fala muito em ciência política, mas comunicar esta mensagem de forma errada é fatal numa campanha política e J.D. Vance está a ser atacado, e bem, pelas suas fragilidades comunicacionais, independentemente da mensagem e do conteúdo terem algum interesse e algum sentido ao nível daquilo que é esta campanha eleitoral, porque nós sabemos que Kamala Harris não está a tentar procurar ganhar os moderados, apesar de que na escolha do vice-presidente isso vai poder ser relevante. Mas neste momento está a apostar naquilo que é a sua base identitária de mulher de etnias minoritárias, que pode no fundo alavancar essa coligação democrata.
E tentar entusiasmare esse eleitorado.
Vai obviamente depender daquilo que vai ser a escolha dela de vice-presidente.
E vai haver debate televisivo com Donald Trump ou não?
Eu penso que sim, porque vai ser do interesse de ambas as partes, até mais talvez de Donald Trump, porque as sondagens, e em agosto isso vai demonstrar, que ele vai estar numa posição muito frágil e vulnerável relativamente a Kamala Harris. E normalmente o candidato que vê a sua posição mais vulnerável e insegura, vai querer debater. Kamala Harris, a campanha dela foi destruída por um debate em 2020 das primárias, por Tulsi Gabbard, que era uma congressista do estado do Havaí, que basicamente fez implodir a campanha de Kamala Harris ao revelar a hipocrisia e talvez também a falta de deontologia que ela teve como procuradora do estado da Califórnia. E Tulsi Gabbard conseguiu em dois minutos acabar com a campanha dela e ela não estava preparada. Neste momento, eu também atrevo-me a dizer, ao ver as suas últimas intervenções públicas, apesar de serem muito poucas e não ter havido ainda uma entrevista com os media, ela está mais bem preparada, melhor preparada. Kamala Harris vê-se que deve ter tido um curso intensivo.
E teve quatro anos na Casa Branca.
Exatamente. E ela penso que está, a nível comunicacional, de entrevistas, está mais bem preparada. Na minha opinião, ela não é aquilo a que se costuma dizer uma intellectual powerhouse. Ela intelectualmente não é dos candidatos mais brilhantes do Partido Democrata, nomeadamente um dos candidatos a vice-presidente que está a ser considerado, Josh Shapiro, esse sim, intelectualmente é alguém superior, vê-se que não só sabe muito de política, como tem uma sensibilidade de conexão com aquilo que é o eleitorado e uma capacidade de negociação com os republicanos que é invejável. E ela pode escolhê-lo talvez também por ser um forte candidato. Tem vulnerabilidades que não são culpa dele, obviamente. A coligação democrata está muito fraturada no topic de Israel. Josh Shapiro apoia Israel, é um sionista, é alguém que é judeu e muita da coligação democrata é, no fundo, alimentada por uma ala esquerda mais radical, que tem um antissemitismo muitas vezes escancarado. Isso é um problema para Kamala Harris, nomeadamente numa altura em que o conflito Israel-Irão-Hamas está exacerbado e está a intensificar. Pelo que neste momento também não sabemos se é uma aposta absolutamente segura, mas o facto de ela apresentar o candidato a vice-presidente em Pensilvânia na próxima semana, pode indicar que vai ser efetivamente Josh Shapiro.
Num dos tais estados fídeos.
Exatamente.
E aqui chegados, até que ponto é que este momentum de Kamala Harris é uma perceção da bolha mediática? É só isso ou será mais do que isso e vai encontrar o tal eco junto do eleitorado, vai conseguir puxar esse eleitorado? A pergunta é mesmo esta: isto é só uma ideia que nós temos aqui dentro de uma bolha ou é realmente algo que poderá conduzi-la à vitória?
Na minha opinião, é um produto da bolha mediática, mas que tem tido um efeito muito presente e muito evidente naquilo que é a reação do eleitorado relativamente a Kamala Harris. Está a dar frutos. Cabe a ela agora não fazer um disparate, uma asneira num debate e também conseguir contrariar aquilo que tem sido a estratégia republicana, que me parece a mais correta, de tentar no fundo pegar naquilo que ela fez relativamente à imigração, aquilo que ela não fez quando estava a tentar mediar acordos com países da América Latina para tentar estancar um pouco o fluxo migratório para os Estados Unidos.
Ela tinha essa pasta.
Ela tinha essa pasta. Alguns comentários que ela fez relativamente à imigração ilegal, que podem não ser muito bem aceites por um eleitorado independente. O facto de ela, como senadora, ter tido o histórico mais radical e progressista de todos os senadores do Senado, nomeadamente quando comparada com Bernie Sanders. O facto de ela, como procuradora da Califórnia, ter tido falhas graves ao nível deontológico e moral, e também por ter sido ou muito leniente relativamente às fianças e àquilo a que se chama bailout reform no estado de Califórnia, ou também, isso foi um dos pontos que Tulsi Gabbard fez no debate, como ela foi muito dura relativamente a ir atrás de uma demografia de afro-americanos, rapazes jovens por consumo de drogas leves, nomeadamente marijuana, e ela depois quando perguntada se ela alguma vez tinha consumido, ela riu-se, admitiu que tinha consumido e isso obviamente, naturalmente, foi chocante para qualquer pessoa que tenha alguma sensibilidade quanto a estas questões do sistema de justiça e criminal. E também acho que, por aquilo que foi alegado, ela escondeu ou tentou não revelar com a defesa, provas que iam inocentar um homem que estava no corredor da morte. Isso pode ser usado em campanha para diminuir a credibilidade moral e profissional dela. Mas isto agora tem muito a ver com aquele tipo de mensagem que os republicanos vão conseguir passar. E também aquilo que vai ser esta bolha mediática muito positiva relativamente a Kamala Harris, que neste momento parece que está para durar neste mês de agosto. Vamos ver agora com setembro, se houver um debate, como é que isso depois no confronto, vai refletir-se nas sondagens.
E vamos convidar certamente, de certeza, a Ana outra vez para voltar aqui à história do dia. Obrigado, Ana.
Muito obrigada, eu que agradeço.
Ana Cavalieri é investigadora de Relações Internacionais e regressou há pouco tempo dos Estados Unidos. Conhece bem a política norte-americana. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda. Bom fim de semana.