Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Esta é a história do dia: poderá a Rússia usar armas nucleares?

"The world will note that the first atomic bomb was dropped on Hiroshima, a military base. We won the race of discovery against the Germans."

Harry Truman, o presidente dos Estados Unidos, justificava assim o uso de uma bomba nuclear a 6 de agosto de 1945 em Hiroshima. Era preciso impedir o Japão de continuar a guerra no Pacífico. A 9 de agosto, os Estados Unidos largavam outra bomba, desta vez em Nagasaki. As duas armas nucleares usadas mataram de forma instantânea entre 150 mil a 200 mil pessoas. Os números não são consensuais. As duas cidades japonesas foram praticamente arrasadas em segundos.

At nine o'clock on Sunday, September 2nd, 1945, the surrender was taken by General MacArthur on the decks of the battleship Missouri in Tokyo Bay.

As autoridades nipónicas formalizaram a rendição do Japão junto do general norte-americano Douglas MacArthur a 2 de setembro, a bordo do couraçado USS Missouri, fundeado na baía de Tóquio.

I now invite the representatives of the Emperor of Japan and the Japanese government and the Japanese Imperial General Headquarters to sign the instrument of surrender at the places indicated.

Quase 77 anos depois do ataque ao Japão, voltamos a discutir a possibilidade de utilização de armas nucleares. De que armas estamos afinal a falar? Qual é a capacidade nuclear russa? E a da NATO? Vou conversar com Paulo Baptista Ramos, professor de Relações Internacionais da Universidade do Minho, sobre se as ameaças de Vladimir Putin são credíveis. Bem-vindo, Paulo Batista Ramos.

Obrigado pelo convite.

Se há um ano lhe sugerisse: podemos fazer programa sobre a ameaça de uma guerra nuclear na Europa, qual seria a sua resposta?

A minha resposta seria basicamente que não é um tema de conversa. Esta ideia de pensar o impensável é algo que não é muito agradável. Até conto só uma pequena história. Quando estes exercícios de pensar a guerra nuclear começaram a ser feitos nos Estados Unido,s no pós Segunda Guerra Mundial, por cientistas acadêmicos, etc, as consequências eram de tal forma catastróficas, que muitos deles tiveram crises de pânico, vomitavam, angustiados e pura e simplesmente abandonaram esse tipo de exercício e até de profissão. Portanto, deixaram de ser estrategas nucleares só com esta ideia terrível de pensar o impensável.

Este é o tema que trazemos hoje à História do Dia e temos razões fortes para isso. Nesta altura, professor, qual é a dimensão do poderio nuclear do lado russo e do lado norte-americano?

Estão os dois lado a lado. São efetivamente as duas grandes potências nucleares do mundo. É um clube exclusivo, do qual fazem parte nove estados, apenas. E a grande potência nuclear do mundo é efetivamente a Rússia. No total de 13 mil ogivas nucleares que estão registradas em todo o mundo, pouco mais de seis mil são russas e cerca de 5500 são norte-americanas. Russos e norte-americanos têm 90% das ogivas nucleares do mundo. Estamos aqui do lado russo, na presença da real potência nuclear da atualidade. Só dar o exemplo da China. A China, que é uma grande potência, que em princípio irá rivalizar com os Estados Unidos nos próximos 20 anos, tem apenas 350 ogivas nucleares. Só pra percebermos a escala e as diferenças do que nós estamos a falar.

Os Estados Unidos ainda contam com a NATO, com a ajuda do Reino Unido e França nesta matéria, certo?

Certo. Também digamos que é uma espécie de segunda divisão ao nível da China e portanto quase que não tem grande significado. Ambos têm ogivas na casa das duzentas e tal ogivas nucleares. Aqui a questão central é mesmo regressarmos à Guerra Fria, é a questão bipolar Rússia, Estados Unidos.

A Little Boy foi lançada em Hiroshima, a Fat Man em Nagasaki. Foi assim que foram batizadas as bombas pelos norte-americanos. Hoje, o armamento nuclear é muito diferente dessas bombas que foram lançadas em 45 no Japão.

Sim, é diferente e acima de tudo é muito mais poderoso.

Quão mais?

Depende do tamanho de ogiva, depende, há vários tipos e há várias escalas. Mas hoje uma guerra nuclear e podendo-se utilizar parte destas 13 mil ogivas, ou pelo menos aquelas 12 mil que estão concentradas nas mãos dos Estados Unidos e da Rússia, nem todas tão operacionais. Há vários níveis, teríamos também entrar aqui em detalhes pra explicar, algumas estão já pra ser desmanteladas. Isto é o que tá registrado em termos de armamento nuclear, mas nem todas tão operacionais. Qualquer das formas, isto levaria à destruição, um ataque sobre os Estados Unidos ou um ataque sobre a Rússia, de dezenas de cidades desses países e de milhões de mortes. É algo difícil até de imaginar

Seguindo essa lógica das escalas, podemos dizer que há um armamento nuclear pesado e outro ligeiro?

Sim, costuma-se chamar ao pesado de estratégico e ao ligeiro de tático. Ao fim e ao cabo, a ideia é dizer que embora também seja muito difícil conceptualizar e fazer as definições, mas que há um armamento de uso limitado com não tanta potência e que podem ser utilizados meios de transporte e de utilização dessas ogivas, porque as ogivas por si só não servem pra nada, portanto, têm que ser transportadas ou em bombardeiros, ou em submarinos, ou em mísseis. Quando falamos de armas nucleares limitadas, são armas com menos potência e que serão transportadas por meios de curto alcance, cujo alcance geográfico será curtas distâncias de algumas centenas de quilômetros, não chega sequer aos mil ou por volta dos mil km. É essa a ideia de armas nucleares táticas, de uso limitado.

E são usadas consoante o efeito que se quer, é isso?

A ideia será essa. Nunca foram usadas desde o Japão. Nunca mais ninguém se atreveu a usar armas nucleares, precisamente por causa do efeito devastador que elas têm. Desde então, as armas nucleares têm sido sempre usadas como armas psicológicas.

Ainda esta semana, o Papa Francisco, sem falar na guerra da Ucrânia falava do nuclear.

"D'altra parte la nostra fantasia appare sempre più concentrata sulla rappresentazione di una catastrofe finale che ci estinguerà, quello che succede con un’eventuale guerra atomica."

Paulo Batista Ramos falava na dimensão psicológica, mas também já falou no grau de destruição e nas escalas que há para estas armas. Qual é a escala para classificar a duração da destruição? Essa escala existe?

Não existe uma escala, mas existem vários cenários, todos eles terríveis. Acho que já toda gente ouviu falar do inverno nuclear. No limite, uma guerra nuclear pode conduzir não só à destruição física de cidades inteiras, a milhões de vítimas, milhões de mortes, mas também podem provocar uma profunda alteração climática no planeta. Criar uma cortina, por exemplo, de fumo que não permitisse o sol chegar à Terra e contaminar os oceanos, acarretando numa alteração climática profunda no planeta Terra. E outro problema das armas nucleares é que os danos, os impactos nunca são de curto prazo. São sempre impactos de médio, longo prazo, décadas ou séculos. Basta pensarmos o day after de Chernobyl ou de Fukushima, que foram acidentes nucleares limitados e o que está passando nessas regiões no que diz respeito à atividade humana e à intervenção do homem, que basicamente é nada. Porque é efetivamente uma política total de terra queimada e essas zonas ficam inabitáveis.

"I have directed that the following initial steps be taken immediately. First, to halt this offensive buildup, a strict quarantine on all offensive military equipment under shipment to Cuba is being initiated."

A 22 de outubro de 1962, quando o presidente Kennedy falou aos norte-americanos e também a Moscovo via televisão, anunciava o bloqueio naval a Cuba. Esta chamada Crise dos Mísseis foi o momento mais tenso nesta questão nuclear desde que caiu a bomba em Nagasaki em agosto de 45, professor?

Historicamente, podemos dizer que sim. Nunca o mundo esteve tão perto de uma guerra nuclear quanto na crise dos mísseis de Cuba. E mesmo aí havia efetivamente meios e foram construídas formas de descalar essa guerra nuclear, principalmente através de formas de comunicar entre os dois lados da barricada. Aprendeu-se, de certa forma, uma lição para não haver aqui percepções erradas sobre qual era a atuação do inimigo. Mas sim, foi o pico, foi o ponto mais alto da Guerra Fria.

Professor Paulo Baptista Ramos, estamos a ter esta conversa motivados em grande parte por estas declarações de Vladimir Putin e que, no fundo, são um aviso. Diz Putin que quem se opuser militarmente à ofensiva russa na Ucrânia sofrerá consequências nunca experimentadas na história. E depois Putin, em resposta às sanções econômicas, colocou a força nuclear russa em alerta. Paulo Baptista Ramos, esta é uma ameaça para levar a sério?

Sim, pelo menos temos que ser realistas. Já todos percebemos que o Vladimir Putin não é o Kasparov da geoestratégia, não é aquele grande jogador de xadrez que era a imagem que pintavam dele na última década, pelo menos. Também não é grande jogador de pôquer, também já percebemos isso. E ao fazer essa ameaça nuclear parece mais um jogador de sueca, está a mostrar os trunfos logo no início do jogo. Essa ameaça tem tanto de assustadora como também pode parecer pouco crível.

Parece um pouco bazófia, não é?

Exatamente. Até é sinal de alguma fraqueza, de alguma debilidade. Significa que efectivamente logo a incursão militar, a invasão russa sobre a Ucrânia não correu de acordo com o previsto e pelo menos em termos de retórica, em termos de narrativa, Putin sentiu a necessidade de escalar o conflito para ver se conseguia intimidar principalmente a Ucrânia e os ucranianos e o seu presidente, para que eles se rendessem e ao fim e ao cabo não resistissem como tem acontecido nas últimas semanas. Mas a verdade também é uma: hoje em dia já ninguém diz que a guerra será impossível embora as probabilidades, a maioria dos observadores e analistas avaliam como baixa, muito baixa probabilidade porque as consequências mesmo para o lado russo seriam devastadoras. A Ucrânia é vizinha da Rússia, não é vizinha dos Estados Unidos nem da França nem da Inglaterra.

Seria quase que aniquilar aquela zona oeste da Rússia.

Sim, mesmo falando em armas limitadas ou táticas, como nós conversávamos há pouco, o que é isso? Lançar uma arma sobre Kharkiv fica a 50 km da fronteira russa. Claro que iria haver consequências também na Rússia. Claro que o cogumelo nuclear e todas essas consequências iriam dissipar-se através da Rússia. Aliás algo que poderia acontecer com acidente nas várias centrais nucleares ucranianas. Kiev fica a 850 quilómetros de Moscovo, é um Lisboa-Madrid. Estar a utilizar armas nucleares e não saber muito bem quais são as consequências, porque a verdade é esta, na prática ninguém sabe as consequências mesmo da utilização de armas tácticas. Eu diria que há uma grande probabilidade, 90%, de haver ali um contágio quer ao território russo quer ao território bielorrusso.

E Vladimir Putin tem acesso direto ao botão nuclear ou há algum mecanismo de autorizações que podem impedir um ato desesperado ou tresloucado.

Há mecanismos, há vários níveis de acesso obviamente a decisão é de Putin mas eu também diria que neste momento toda a gente que está à volta de Putin ou calculo eu imagino muito poucas pessoas que conversam com o Putin estão em perfeita sintonia portanto eu não diria que o lançamento de uma eventual arma nuclear tivesse a ver com essa cadeia de comando e alguma interrupção nessa cadeia de comando. Eu continuo a pensar que Putin é um ator racional, não irracional como agora está a ser caracterizado por muita gente, mas sim é um actor racional e sabe das consequências que advêm para si próprio e pra Russia das retaliações que aRussia seria alvo do lançamento de uma arma nuclear com algum impacto. Aliás vimos há poucos dias ele fazer uma ameaça interna dizer que é preciso purificar a Rússia ou uma autopurificação da Rússia Ele começa a ficar preocupado com os dissidentes internos quer entre os militares quer entre os oligarcas Já está a prometer purgas ou já está a fazê-las purgas internas não só entre população como entre essa elite nacional Penso que são sinais que para já acho que ainda não está no domínio dos planos militares Putin utilizar armas nucleares e há outra coisa De acordo com o desempenho militar que as forças militares russas estão a ter no terreno Não augura nada de bom para a própria Rússia a utilização de armas nucleares Porque se estas são as melhores forças militares russas Obviamente convencionais não nucleares Que estão no terreno E estão a ter este desempenho que é reconhecido por todos como bastante fraco Isto fez me logo lembrar Os mísseis escudo do Saddam Hussein Na primeira Guerra do Golfo Não sei até que ponto Se o Putin carregasse no botão Depois o míssil Ou ogiva não iria cair na sua própria cabeça Há aqui muita incerteza quanto às reais capacidades militares Tecnológicas Do lado Russo.

Falamos delas no episódio sobre se as Forças Armadas Russas seriam assim tão poderosas Falamos nisso consigo Paulo Batista Ramos Daquilo tudo que ouvimos nesta nossa conversa Podemos rematar dizendo que É altamente improvável, mas devemos guardar Um espacinho Para alguma preocupação?

Sim, parece que regressámos a 1946. Essa foi a conclusão daqueles pioneiros cientistas acadêmicos que estudaram precisamente a estratégia nuclear e a conclusão que eles chegaram E até cito aqui um autor não tão conhecido entre nós chamado Bernard Brodie, que é conhecido como o Clausewitz da era nuclear e a conclusão que ele chegou é: para não ocorrer uma guerra nuclear, nem sequer pode ocorrer uma guerra. Portanto, nem sequer devemos pensar em armas nucleares. O que temos que começar a pensar é como evitar uma guerra a todo custo, porque as armas nucleares dão aqui uma dimensão de impossibilidade de vencer a guerra. Não há uma lógica, sequer, não há uma estratégia para utilizar as armas nucleares de uma forma vitoriosa. Ainda não foi encontrado nem por americanos, nem por russos, nem por estrategas franceses, ninguém conseguiu encontrar uma forma vitoriosa de usar armas nucleares. Penso que o Putin está ciente disso e acho que apesar dele ter trazido este assunto para a agenda da guerra, do conflito, penso que efetivamente as probabilidades são baixas deste conflito escalar para uma guerra nuclear. Apesar de Putin estar também com dificuldades em cumprir os seus objetivos militares. Há várias variáveis, mas eu diria que sim, que a guerra nuclear voltou a estar nos nossos pensamentos, mas continuo a achar que será improvável.

Obrigado também por essa nota de otimismo, Paulo Baptista Ramos.

Obrigado, foi um prazer novamente estar convosco.

A possibilidade de escalada pra um conflito nuclear é uma preocupação constante desde que começou a Guerra na Ucrânia. É uma guerra que continuamos a acompanhar ao minuto, tanto no jornal como na Rádio Observador. Esta foi a história do dia. A música do genérico é do João Ribeiro, a sonoplastia da Beatriz Martelo Garcia. Eu sou o Ricardo Conceição. Até segunda.